Mexer em um clássico é um trabalho perigoso, refilmá-lo, revisitá-lo (até mesmo citá-lo) já pode se transformar em uma dor de cabeça para seu responsável (até o próprio George Lucas foi execrado quando mexeu em seu próprio clássico na nova trilogia de Guerra na Estrelas, agora Star Wars). Mexer em algo, que convenhamos nem nunca foi tão exemplar assim, mas que até hoje move milhões de fãs em eventos ao redor do mundo é praticamente um suicídio. A não ser que o cérebro por trás disso seja o de J. J. Abrams (aquele mesmo da série Lost).

E parece que, talvez, a população nerd (ou “Trakker” mais especificamente) pode colocado seu voto de confiança em Abrams, deixando-o a vontade com a idéia de mostrar, a uma nova geração, sua visão do clássico Jornada nas Estrelas (que perde a tradução e vira Star Trek), resultando, simplesmente (com o maior respeito da galáxia), na melhor coisa essa franquia, já gasta pelos anos, poderia ganhar. Pelo menos, indiscutivelmente, em termos técnicos e narrativos.

Melhor que a série, que os filmes e que todos as vertentes da idéia inicial de Gene Roddenberry. E o mais importante: sem tocar em nada que veio antes desse recall.

Abrams abre um novo caminho para a tripulação da Enterprise, e não vai lá atrás recontar aquilo que tinha sido mostrado, mas sim aperta o botão de “reset” da franquia e, com isso, não deixa purista nenhum reclamar do que está vendo na tela. Com uma “sutil” viagem no tempo cria para si um novo universo (mais precisamente “paralelo”) para sua própria jornada pelo universo (mesmo redundante). O diretor vai até “onde homem nenhum jamais esteve” contar como James Thiberious Kirk dá seus primeiros passos para ganhar a patente de capitão, ao melhor estilo “Begins”.

Essa nova geração ganha não só um Capitão Kirk melhor, como todo resto da tripulação muito mais simpático. Não só pela profundidade com que Abrams parece se preocupar em colocar neles, como por atuações bem melhores e mais convincentes, já que tudo que veio anteriormente pode ser facilmente colocado à prova, (principalmente a série clássica com suas atuações risíveis, estáticas e Willian Shatner iconizando toda essa ruindade).

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Chris Pine cria um Kirk muito mais natural, mesmo em toda sua canastrice, contando exatamente com isso para compor o charme do personagem. Assim como Zachary Quinto, pode não fazer um melhor Spock mas parece receber um personagem melhor das mãos de Abrams, muito mais profundo e explorado, mas que, mesmo assim, acaba parecendo forçado quando Leonard Nimoy, mais a vontade impossível dentro personagem, dá as caras na tal viagem no tempo. O resto do elenco, cheio de caras conhecidas, faz bem o papel de apóio no melhor sentido da expressão, enquanto Eric Bana some completamente por trás do vilão Nero.

Mas sem dúvida nenhuma, a grande estrela do filme não é nem o elenco, nem a nave e nem os efeitos especiais (mesmo com os dois últimos dando um show), mas sim J. J. Abrams e sua “jornada”. Dotado de uma propriedade narrativa concreta, o diretor não só consegue fazer uma história que capturará todos que já conhecem a franquia, como, com certeza, fará mais um novo séquito de fãs.

Munido ainda de uma concepção visual competentíssima, mesmo que as vezes um pouco complicada e embaralhada, principalmente nas cenas de ação, Abrams parece se dispor a criar um mundo que anda, não pelas próprias pernas, mas pelo caminho que o filme parece pedir (exigir até), como se o “estilo” de tudo a sua volta existisse para contar aquela história: a da primeira viagem da U.S.S Enterprise. A gênese de um mito que já dura quatro décadas e, que com esse filme, parece ganhar fôlego para mais quarenta anos de uma vida longa cheia de prosperidade.

*publicado originalmente no portal Cranik em 10 de fevereiro de 2010


idem (EUA, 2009) direção: J. J. Abrams com: Chris Pine, Eric Bana, Zachary Quinto, Leonard Nimoy, Karl Urban, Zoe Saldaña, Simon Peg, John Cho e Anton Yelchin


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