Editorial dia 08 de março de 2010

por Vinicius Carlos Vieira
E como era de se esperar, “Guerra ao Terror” levou seis Oscars e saiu da maior premiação do cinema do mundo (pelo menos a mais cara) deixando a impressão de que entra ano sai ano, mudam-se a quantidade de indicados e modo de votação e a famosa Academia de Artes e Ciências de Hollywood continua fazendo aquilo que todo mundo espera.

Não, “Avatar”, e sua maior bilheteria da história, em nenhum momento começou a noite com qualquer previsibilidade de levar o maior dos prêmios, uma ou outra beliscada aqui e ali e uma cacetada de prêmios técnicos (esses mais que merecidos, talvez o de direção de fotografia deixe uma pulga atrás da orelha levando-se em conta seu trabalho quase restrito a pós produção, o que não o diminui, mas talvez se encaixe pouco nessa categoria propriamente dita, mas isso é assunto para um outro momento). Mas talvez o prego no caixão de James Cameron tenha vindo com anuncio dos prêmios de melhor mixagem e edição de som, ambos para “Guerra ao Terror”, o que colocou o filme de Kathryn Bigelow na frente da disputa com cinco (fora o de melhor filme) contra três estatuetas douradas do épico 3D de Cameron.

Esse “corrida”, que pode parecer besteira mas é totalmente pertinente, é um daqueles fatos que carregam o Oscar para aquela mesmice burocrática que o moveu por toda segunda parte dessa década. Ruim? Não, muito pelo contrário, já que completa uma sucessão de cinco premiação (seis com a desse ano) de preferências por uma boa história aos números de bilheteria.

“Avatar” mudou o mundo do cinema, em cem anos talvez ainda estarão falando da empreitada cinematográfica de James Cameron e como ele transformou o modo de fazer filmes nessa tecnologia que é a cara do futuro. Inúmeras inovações, principalmente do lado de trás da câmera, que farão seu nome ser lembrado, um nível de CGI que até hoje nunca tinha sido visto, e uma profundidade de campo nunca antes pensada (não o uso dela como linguagem, mas como possibilidade técnica). “Guerra ao Terror” simplesmente contou uma história maravilhosa do jeito que deve ser contada: sensível, pertinente e equilibrada.

Mas não levou para casa os prêmios de direção, montagem e roteiro original por uma capricho da academia, e muito menos para criar um surpresa (“Preciosa” estava lá para ser a surpresa da noite caso a Academia sentisse essa necessidade, como fez na hora do Roteiro Adaptado), ganhou tudo isso por que foi o filme mais competente que apareceu nos cinemas no ano passado (coisa que eu discordo, mas meu voto provavelmente deve ter se perdido na hora da contagem), pelo menos para 51% dos votantes da Academia (no mínimo), com ou sem os bilhões de bilheteria. E não adiantava as câmeras terem colocado James Cameron no exato enquadramento de sua ex-mulher, Bygelow, criando uma disputa que nunca existiu, já que ele mesmo sabia que ela estava fadada a ser a primeira mulher a levar para casa a estatueta dourada de melhor ditretor(a).

Talvez, essa chatice que o Oscar parece carregar como estigma, e que a cada ano vem tentando provar o contrário, seja mais uma certeza absoluta de um roteiro cheio de clichês (não, isso não é uma crítica a “Avatar”). Se os casais de atores e coadjuvantes, tiveram toda chance possível de ensaiar seus discursos, já que eram essas “certezas absolutas”, ninguém seria capaz de tirar deles esses méritos, já que o quarteto fez mais que bem suas funções em seus filmes (não, a Sandra Bullock que ainda ganhou o Framboesa de Ouro no mesmo dia, não é uma atriz ruim, e nem está mais dirigindo um ônibus com uma bomba embaixo. Ou ninguém se lembra de sua outra ótima atuação do oscarizado “Crash”).

Por outro lado, Michael Haneke, e seu “A fita Branca”, provavelmente tenha ficado sem entender o final de seu filme (quer dizer noite), ao ver outros dois cineastas tão pragmáticos com suas obras quanto ele, Pedro Almodóvar e Quentin Tarantino, entregarem o estatueta de Melhor Filme Estrangeiro para o argentino Juan José Campanella e seu “O Segredo de seus Olhos”, talvez única surpresa da noite (sem esquecer de Jason Reitman,e seu orgulho, vendo de Geoffrey S. Fletcher subir para ganhar “seu” Oscar pelo Roteiro Original de “Preciosa”).

Mas se existe a possibilidade dos velhinhos da Academia (sempre eles), não terem conseguido entender o que Tarantino estava fazendo com seu soberbo “Bastardos Inglórios” (minha preferência), tanto pelo cinema, quanto pela sua estrutura como forma de linguagem (e linguagem como forma de estrutura), deram a braço a torcer para a maior atrocidade cinematográfica do último século de cinema (talvez todo esse tempo seja um exagero, mas pelo menos a frase ganhe o peso que ela merece) colocando o casalzinho “Crepúsculo” (a mocinha e o lobisomem) para anunciar uma tão esperada homenagem ao cinema de terror, mas que resultou em um clipe sem gracinha, safado e burocrático. Pelo menos fazendo o contrário na ótima homenagem ao cineasta John Hughes, morto ano passado, mas que juntou no palco algumas das faces (já bem envelhecidas) que se transformaram em verdadeiros ícones do cinema nos anos 80.

Steve Martin e Alec Baldwin ainda fizeram sua parte mantendo um bom ritmo de piadas entres as apresentações e Ben Stiller ficou com a parte (politicamente correta) que previa a Sacha Baron Cohen, vulgo “Borat” (provavelmente sem essa parte certinha, o que levou a academia a cortá-lo) de tirar sarro de “Avatar”, assim como, “para variar”, Meryl Streep teve seu nome indicado (décima sexta vez) e por fim ainda o mundo foi agraciado com um momento “vai ser bom, num foi?” (da piada do coelho) protagonizado por Tom Hanks ao anunciar o Oscar de Melhor Filme.

No fundo no fundo, o Oscar continua o mesmo: chato, cumprido, quase sempre acertando em suas escolhas, mas escutando ano após ano que é injusto, e mesmo assim sendo a maior e mais esperada festa do cinema mundial.

E ai vai a lista dos vencedores (devidamento linkados com as críticas):
Filme: “Guerra ao Terror”.
Diretor(a): Kathryn Bigelow (“Guerra ao Terror”).
Ator: Jeff Bridges (“Coração Louco”).
Atriz: Sandra Bullock (“Um Sonho Possível”).
Ator Coadjuvante: Christoph Waltz (“Bastardos Inglórios”).
Atriz Coadjuvante: Mo’Nique (“Preciosa – Uma História de Esperança”).
Filme Estrangeiro: “O Segredo dos Seus Olhos” (Argentina).
Animação: “Up – Altas Aventuras”.
Roteiro Original: Mark Boal (“Guerra ao Terror”).
Roteiro Adaptado: Geoffrey Fletcher (“Preciosa – Uma História de Esperança”).
Documentário: “The Cove”.
Curta de Animação: “Logorama”.
Documentário de Curta-Metragem: “Music by Prudence”.
Curta-Metragem: “The New Tenants”.
Trilha Sonora Original : “Up – Altas Aventuras”.
Canção Original: “The Weary Kind” (“Coração Louco”).
Direção de Arte: “Avatar”.
Efeitos Visuais: “Avatar”.
Fotografia : “Avatar”.
Edição de Som: “Guerra ao Terror”.
Mixagem de Som: “Guerra ao Terror”.
Maquiagem: “Star Trek”.
Figurino: “The Young Victoria”.
Montagem: “Guerra ao Terror”.

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Uma resposta

  1. Por que você faz poema?

    Dificil ficar indiferente e não dormir mais tarde e reclamando (dos premiados, dos indicados, do cinema americano, dos EUA…) e prometendo não assistir no proximo ano.

    Responder

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