Um documentário reconstruído como ficção pode ser bem maçante para a maioria das pessoas; principalmente se a ideia dos idealizadores for simplesmente jogar diálogos e eventos de pessoas da vida real em um formato burocrático ou televisivo. A maioria sairia antes da metade do filme. No entanto, o lado show business de Oliver Stone e o roteiro incisivo de Kieran Fitzgerald realizam uma dramatização da vida real que consegue criar nos 134 minutos de Snowden um universo à parte da realidade, onde nos importamos com seus personagens como se fosse uma história criada para isso, mas ao mesmo tempo não nos faz esquecer que essa é a vida real, apenas alguns anos atrás, e cujos acontecimentos ecoam até o exato momento do agora, às vésperas de mais uma eleição presidencial norte-americana. E que Edward Snowden ainda é um exilado político.

A história já começa com a figura de Snowden (Joseph Gordon-Levitt) como o estereótipo de gênio (um falso clichê, como veremos), carregando um cubo mágico consigo e organizando um encontro secreto com jornalistas de alto escalão para divulgar informações confidenciais do governo. Sua história, contada a partir de então desde o início, é o exemplo da figura do hacker extremamente habilidoso, que nesse caso não passaria de um soldado medíocre caso não tivesse fraturado suas pernas durante o tempo que se alistou no exército americano. Isso faz com que ele procure outras formas de servir ao seu país, patriota republicano como era.

Habilidoso com computadores, acaba caindo em projetos de vigilância da NSA, o órgão de espionagem americano (que, entre outras coisas relacionadas à segurança do país, proíbe o uso de criptografias em solo nacional cujos algoritmos eles não possam quebrar). Conforme o jovem Snowden vai comprovando suas habilidades seus acessos vão subindo; em paralelo também acompanhamos sua vida amorosa com Lindsay Mills (Shailene Woodley), que conhece em um chat online por terem um interesse em comum: o anime Ghost in the Shell –  O Fantasma do Futuro, uma das inspirações das irmãs Wachowski para seu já clássico Matrix, sobre uma realidade virtual onde o governo… quer dizer, as máquinas, mantêm os indiferentes humanos escravizados e sob vigilância.

A fé inabalável de Snowden em seu governo -ele chega a defender Bush para sua namorada o chamando de “líder da nação” – vai aos poucos ruindo conforme ele vai conhecendo a forma que a NSA vem utilizando para manter o terrorismo sob controle: espionando a vida da imensa maioria dos americanos e resto do mundo.

Tudo começa a sair dos trilhos quando ele encontra seu “eu futuro envelhecido” na figura de um professor de computadores – uma ponta de um Nicolas Cage contido e eficiente – que lhe conta sobre quando desenvolveu um sistema relativamente barato para monitoramento automático da internet, mas que foi substituído por um muito mais caro e que precisava de intervenção manual. “A eficiência não está na agenda deles”, comenta um pouco ressentido. E esse ressentimento vai minando as crenças do jovem idealista conforme ele participa do sistema e vai comprovando com os próprios olhos que há algo completamente fora do controle dos civis e que pode ser usado contra eles a qualquer momento, sejam eles ameaças ou não.

A história criada pelo roteirista Kieran Fitzgerald através do livro de Anatoly Kucherena e Luke Harding é eficiente em seu vai-e-vem entre o presente e o passado, no sentido que o passado vai rapidamente se encontrando com o presente e vai ficando cada vez mais claro a transição da personalidade do protagonista entre dois tipos de patriotismo: a crença cega jovem e a análise crítica madura. A figura paternal que acaba sendo preenchida pelo seu chefe superior, Corbin O’Brian (um irreconhecível Rhys Ifans), colabora para que o rapaz vá aos poucos aceitando essa diferença, já que o próprio Corbin parece enxergar o mundo à sua volta de uma maneira cinza, desde que seus objetivos sejam alcançados.

Snowden Crítica

No entanto, a questão da segurança nacional e do sistema estatal se torna muito mais complexa nas mãos de Fitzgerald se analisarmos que hoje em dia os hackers dominam o mundo através da internet e da tecnologia envolvida na comunicação de bilhões de pessoas. Isso quer dizer que, ao contrário das suspeitas do jornalista interpretado por Zachary Quinto a respeito de Snowden dever ser alguém mais velho para ter um acesso tão restrito a informações governamentais, são exatamente os jovens os mais habituados e os mais habilidosos com esse tipo de tecnologia, o que traz o “perigo”, na visão do Estado, de fornecer acesso a informações muito sensíveis para quem ainda praticamente não saiu das fraldas da maturidade, e que deve manter dentro de si um sistema de valores incompatível com o controle absoluto desejado por políticos e militares: o idealismo de quem deseja fazer a coisa certa.

Por outro lado, o filme enfoca o lado do homem comum de uma maneira sutil e brilhante, pois sua namorada, acostumada a fotografar pessoas, deixa o computador à vista e não vê problema em o governo quebrar sua privacidade, já que não tem nada a esconder. Quando questionada sobre estar se relacionando com outras pessoas pelo mesmo sistema online onde se conheceram, ela rebate que as longas ausências do namorado fazem com que ela fique “xeretando” a vida dos outros, mostrando como, no senso comum, as pessoas já estão habituadas a esse comportamento pelas redes sociais. Por que a população seria então contra um sistema governamental que faça o mesmo, ainda mais visando a segurança de todos?

Já na direção, Oliver Stone parece conseguir equilibrar o ataque ao ufanismo e fé cega ao Estado com uma certa relativização da moral, pois através da visão da pessoa comum a privacidade se torna algo opcional, já que todos o fazem assim, se esquecendo convenientemente que, apesar de teoricamente, na era da informação, qualquer um poder fabricar bombas atômicas, apenas governos e seus recursos infinitos podem de fato fabricá-las e deixar disponível para o ataque. Stone, aliás, parece estar mais interessado no sensacionalismo puro do que em entender o subtexto do que está sendo discutido. Duas cenas com o uso de telas comprovam isso: quando ele exagera o reflexo de uma certa webcam flagrando um casal fazendo sexo e pela distorção de outra câmera pessoal no focinho do personagem de Rhys Ifans, que pela aproximação e perspectiva o tornam o Grande Irmão de 1984 sem qualquer maquiagem. Falha, no entanto, miseravelmente em não conseguir enxergar que o sistema sempre será falho independente de quem estiver no poder, continuando a ecoar o otimismo ingênuo de Snowden até depois da era Obama.

Mas apesar dos pesares, Snowden é um filme eficiente do começo ao fim, tanto que consegue fazer um salto final entre ficção e realidade que deveria ser arriscada na maioria dos filmes, mas que aqui apenas encontra surpresa e admiração. Muito disso deve ser atribuído a Joseph Gordon-Levitt, que não reproduz Edward Snowden como uma máscara, mas o vive por inteiro, seja nas expressões introvertidas do sujeito ou até em sua forma de andar e manter sua cabeça levemente abaixada. Não se trata de uma atuação para prêmios, pois é sutil demais para isso. Porém, é tão eficiente que sequer se nota a diferença entre ficção e realidade. E se trazer a realidade através de um documentário já é um trabalho de heróis, imitá-la em perfeição pelo método teatral é ainda mais impressionante.


“Snowden” (Fra/Ale/EUA, 2016), escrito por Kieran Fitzgerald, Oliver Stone, Anatoly Kucherena, Luke Harding, dirigido por Oliver Stone, com Melissa Leo, Zachary Quinto, Joseph Gordon-Levitt, Jaymes Butler, Robert Firth, Rys Ifans, Shailene Woodley e Nicolas Cage


Trailer – Snowden

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