Em mais um exemplar de seu brilhantismo, Dennis Villeneuve constrói em Sicario: Terra de Ninguém um retrato complexo e perturbador do universo que retrata. Ancorado por um elenco impecável, a obra é o exemplar máximo de como o cineasta é mestre em construir tensão em suas histórias.

O roteiro de Taylor Sheridan acompanha Kate Macer (Emily Blunt), agente do FBI que lidera uma equipe que, ao longo de vários meses, tem libertado reféns de traficantes de drogas nos Estados Unidos. Depois da missão que abre o filme, ela é escalada para fazer parte de uma força-­tarefa que pretende combater o tráfico na fronteira entre aquele país e o México. Macy aceita, mesmo confusa diante dos objetivos da missão e das poucas explicações oferecidas pelo misterioso agente Matt Graver (Josh Brolin) e, principalmente, pela presença do (aparentemente) civil Alejandro (Benicio del Toro), cujo papel na equipe Macer desconhece.

E, assim, somos transportados para pequenas cidades em que os conflitos entre traficantes e polícia ­ ou entre traficantes ­ faz parte do cotidiano; onde o som de tiros é tão comum quanto o de crianças brincando. Villeneuve captura esse espírito na forma como constrói a tensão presente ao longo de todo a projeção. Um dos momentos mais intensos acontece, surpreendentemente, em meio a diversos carros parados, esperando para entrar nos Estados Unidos. A situação, aliás, é construída de maneira impecável: quando os agentes entram no México, já percebemos o engarrafamento existente na mão oposta ­ assim, quando chegamos lá, nos familiarizamos rapidamente com o cenário.

Toda essa dualidade é centrada em Kate Macer, uma protagonista incomum que, competente e idealista, se coloca mais no caminho da ação do que como causadora desta. Emily Blunt encarna a agente com segurança, transmitindo ao espectador a mesma competência que a personagem claramente transmite a seus companheiros. Macer, tão eficiente em seguir as regras e em navegar dentro do universo que conhece, se frustra ­ e se enfurece ­ ao encontrar-­se totalmente fora disso, em que as regras não mais valem; percorrendo, agora, um mundo em que não há certo e errado, mocinhos e vilões.

Sicario: Terra de Ninguém Crítica

Enquanto isso, Josh Brolin surge ameaçador e imprevisível, algo tornado evidente através da forma como ele, com seus chinelos de dedo e postura sarcástica, contrasta diretamente com os ternos bem cortados e as maneiras formais dos demais agentes. Finalmente, Benicio Del Toro brilha em um papel complexo, ameaçador e pesado, e o ator faz do personagem uma figura trágica, repleta de demônios e batalhas interiores.

Tematicamente rico, a obra alcança o mesmo primor técnico. Depois de uma excelente parceria em Os Suspeitos, Villeneuve trabalha novamente com o mestre da direção de fotografia Roger Deakins, que mergulha a obra em cores superexpostas, transmitindo um calor sufocante aos ambientes abertos ­ que, por sua vez, se contrastam com os tons frios dos interiores, em que os personagens frequentemente surgem cobertos por sombras (mais uma vez, representando a dualidade de todas aquelas pessoas e situações). A genialidade de Deakins é demonstrada particularmente na belíssima sequência em que um grupo de soldados é filmado à contraluz, movimentando­-se pela noite até que as figuras parecem mergulhar no deserto.

Filmes que lidam com temas sociais ou políticos erram frequentemente ao terem em mãos um roteiro raso que fala de uma situação complexa. Sicario: Terra de Ninguém é, portanto, um filme que está a altura de discutir a realidade que busca retratar: desesperadora, sem soluções fáceis e sem previsão de ser resolvida.


“Sicario” (EUA, 2015), escrito por Taylor Sheridan, dirigido por Denis Villeneuve, com Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal e Daniel Kaluuya


Trailer – Sicário: Terra de Ninguém

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