Sexy por Acidente | A intenção é boa, mas o resultado poderia ser mais relevante

Sexy Por Acidente Filme

Há uma linha muito, muito tênue entre empresas abraçando causas sociais e inclusão e utilizando essas mensagens positivas para alcançar seu objetivo maior: lucro. Sexy por Acidente parece fazer o mesmo com o empoderamento feminino, que aparece aqui em uma versão bonitinha e perfeitamente empacotada na forma de uma mensagem importante transmitida de uma forma altamente comercial.

Renee Bennett (Amy Schumer) trabalha no site de uma grande revista feminina, dividindo um “escritório” com seu único colega de trabalho, Mason (Adrian Martinez) bem longe dos luxuosos alojamentos da publicação. Insatisfeita com sua aparência mediana e seus quilinhos a mais, Renee sonha em ser “indiscutivelmente bonita” como as modelos que estampam as páginas da revista ou as jovens esbeltas que desfilam pela academia de SoulCycle, que ela decide começar a frequentar

SoulCycle é um tipo de exercício de ciclismo, mas não se preocupe, o nome é mencionado dezenas de vezes ao longo do filme e é nele que Renee cai de sua bicicleta enquanto se exercita, bate a cabeça e, quando recupera a consciência, enxerga no espelho exatamente a mulher que ela sempre sonhou ser. Renee jura estar sob o efeito de alguma magia, mas o que ela não sabe é que continua com o mesmo rosto e corpo de sempre — a única coisa que mudou foi que, agora, ela age com autoconfiança e autoestima.

De início, é moderadamente divertido ver como as expectativas de Renee com relação a sua “nova aparência” contrastam com as reações das pessoas ao seu redor e como ela mostra-se completamente cega para isso, como na primeira vez em que ela vai à redação da revista atrás de uma vaga de recepcionista ou quando conhece Ethan (Rory Scovel) na fila da lavanderia. Entretanto, em vez de explorarem como Renee agora finalmente pode ter acesso a tudo aquilo que havia sido negado a ela até então por causa de sua aparência, os diretores e roteiristas Abby Kohn e Marc Silverstein logo desviam para uma discussão sobre como ser belíssima eventualmente torna a protagonista arrogante, fútil e estúpida.

A dupla consegue estabelecer isso como um problema particular de Renee, algo com o qual ela tem que lidar e superar, e não como defeitos de personalidade que afetam todas as mulheres bonitas; mesmo assim, o resultado é que o filme não chega a explorar muito bem sua premissa ou a mostrar-se merecedor do discurso que é o clímax do longa. Discurso esse que, aliás, reforça um dos maiores problemas de Sexy por Acidente.

No cerne do que Renee fala sobre como cada mulher precisa lutar para recuperar a autoconfiança que todas nós tínhamos na infância e que todas nós podemos nos sentir lindas se nos amarmos e nos enxergamos dessa forma, está uma apresentação de uma linha de maquiagens — compre e sinta-se incrível você também! É o tipo de mensagem aparentemente inclusiva que não tem desejo algum de desafiar o status quo.

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Esse mesmo sentimento também encontra-se na própria escolha da protagonista: Amy Schumer pode ter um senso de humor ainda pouco aceitável em uma mulher (algo que “Descompensada”, escrito e estrelado por ela, explorou muito bem) e não ter a aparência ou o corpo de uma “megaestrela”, mas ela ainda está dentro dos padrões de beleza do mundo real. Enquanto isso, o interesse romântico dela, Ethan, tem alguns bons momentos, mas é bastante incômodo ver a quantidade de vezes em que o filme faz piada com sua suposta falta de masculinidade. 

Dentro do mesmo desperdício, as duas melhores amigas de Renee, Busy Philipps e Aidy Bryant ficam completamente de lado e, finalizando o elenco principal, Michelle Williams faz o que pode com uma personagem cujo único traço de personalidade/fonte de humor é sua voz extremamente aguda.

Há uma cena entre Schumer e Emily Ratajkowski que dá indícios do que o longa poderia ser se realmente se importasse com os assuntos que levanta. Com seu jeito de supermodelo, Mallory (Ratajkowski) revela, para a surpresa de Renee, que também se sente insegura quanto a sua aparência. Em um mundo em que até as fotos de mulheres indiscutivelmente belas são retocadas por Photoshop antes de irem para as páginas das revistas ou para o Instagram e em que a principal motivação para o exercício e a dieta é a perda de peso e não a saúde, qualquer mulher pode se olhar no espelho e achar algo fora do lugar.

Essa é a sociedade em que vivemos, machista e com padrões de beleza impossíveis. Individualmente, conseguimos compreender e rejeitar isso e, dessa forma, nos aceitarmos de verdade, mas há todo um contexto tóxico por trás disso que Sexy por Acidente prefere ignorar. É claro que este é um único filme, que não pode ser incumbido com a missão de solucionar esse problema de uma vez por todas. Mas, quando você decide proclamar a importância da autoestima por um viés consumista e totalmente conectado a uma indústria que contribui ativamente para a manutenção desses padrões tóxicos de beleza, você faz mais mal do que bem.


“I Feel Pretty” (EUA/China, 2018), escrito e dirigido por Abby Kohn e Marc Silverstein, com Amy Schumer, Michelle Williams, Rory Scovel, Aidy Bryant, Busy Philipps, Tom Hopper, Adrian Martinez e Lauren Hutton.


Trailer – Sexy Por Acidente

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