Em seus dois primeiros filmes, a franquia Divergente (esse e esse) provou-se um dos exemplares mais entediantes das recentes sagas de ficção científica voltadas para jovens adultos. E A Série Divergente: Convergente, apesar de melhorar levemente e de trazer alguns elementos interessantes — especialmente no que se refere a seu design de produção —, não pode evitar ficar preso ao elemento mais prejudicial da franquia: seu desenrolar estapafúrdio e desinteressante.

É claro que, se estivéssemos diante de um filme repleto de personagens fascinantes habitando uma história contada através de uma rica linguagem cinematográfica, poderíamos perdoar a premissa tola da série. Mas não é o que acontece aqui e, assim, Convergente tem início imediatamente após a conclusão de Insurgente — Tris (Shailene Woodley), Quatro (Theo James), Peter (Miles Teller), Caleb (Ansel Elgort), Christina (Zoë Kravitz) e os demais habitantes de Chicago tiveram acesso a uma mensagem que revela que “o resto da humanidade espera por eles” além dos muros que cercam a cidade.

O grupo central consegue atravessar o muro, mesmo com o exército de Evelyn (Naomi Watts) tentando impedi-los. Lá, eles encontram um deserto inóspito e, finalmente, um grupo de pessoas que os leva ao Departamento de Auxílio Genético, onde Tris e seus amigos descobrem a verdade sobre sua cidade. Assim, a protagonista acaba trabalhando cada vez mais ao lado do diretor do lugar, David (Jeff Daniels), enquanto os outros tentam se ajustar à nova realidade e, em Chicago, o conflito entre as ex-facções, agora desfeitas, ameaça ocasionar uma guerra na cidade.

Mesmo que este já seja o terceiro filme da saga — e penúltimo, já que a segunda metade do livro em que se baseia será contada no próximo longa, Ascendente, que encerrará a série —, é impossível falar de Convergente sem mencionar o quão inverossímil a franquia apresenta o conceito sob o qual se sustenta, o das facções. Ora, se a ideia é que cada pessoa é destinada a cumprir um papel específico na sociedade, por que os jovens podem escolher a qual facção pertencer — e, inclusive, ir contra os resultados do teste de aptidão pelo qual são obrigados a passar?

E o novo filme não se acanha em inserir novos buracos à trama — se os Divergentes são tão importantes para o Departamento de Auxílio Genético, por que ele não interferiu quando Jeanine (Kate Winslet) passou a perseguir e matar esse grupo, já que monitora Chicago o tempo inteiro? Se os experimentos eugênicos causaram tamanho estrago ao DNA humano, por que toda a população de Chicago — independente das facções — se comporta de forma absolutamente normal? Sim, vez ou outra um personagem demonstra ceder mais ao lado que sua facção representa, mas ninguém, obviamente, deixa de apresentar outras características de personalidade. Aliás, às vezes, nem isso — Caleb, por exemplo, que troca a Abnegação pela Erudição, jamais demonstra a suposta inteligência que deveria caracterizá-lo. E por que certo personagem se dá ao trabalho de passar uma informação falsa sobre Quatro com o objetivo de fazer Tris perceber o que realmente aconteceu sem que David perceba, apenas para, no segundo seguinte, conversar a sós e livremente com a garota?

Série Divergente - Convergente

Provavelmente, é por isso que o roteiro de Convergente — escrito a seis mãos (nunca um bom sinal) por Noah Oppenheim, Adam Cooper e Bill Collage — sequer parece confiar em si mesmo; assim, as informações são reveladas de forma inorgânica, como se o filme quisesse se livrar logo delas e passar logo para as cenas de ação. Infelizmente, estas também não são muito imaginativas, mesmo acontecendo em um mundo construído de forma interessante e dinâmica por um design de produção eficiente. O deserto que cerca Chicago é envolvente ao ser fotografado de forma mais estilizada, com cores fortes que realçam a desolação da região, enquanto o fato de o Departamento ter sido estabelecido sob as ruínas do Aeroporto Internacional de O’Hare é criativo e, ainda, origina cenários adequadamente futuristas.

Por outro lado, é decepcionante perceber que o filme procura inserir todos os elementos tecnológicos em que a equipe (ou, mais provavelmente, Veronica Roth, a autora da trilogia) conseguiu pensar — bolhas para flutuação! Muros invisíveis! Drones futuristas! Equipamento de vigilância com realidade virtual! Gás que apaga a memória! Um chip que permite a alguém acessar as memórias de outra pessoa e ver o mundo através dos olhos dela! Alguns destes surgem de maneira tão pontual — especialmente este último —, apenas para uma cena específica, que jamais contribuem para uma real construção daquele universo, surgindo apenas como uma espécie de “catálogo de objetos que podem aparecer em uma história de ficção científica”.

Tris, ao menos, continua sendo uma personagem interessante, vivida com competência e energia pela talentosa Shailene Woodley. Theo James, por sua vez, surge apagado ao lado da protagonista, enquanto Ansel Elgort sequer marca presença. E Miles Teller continua preso a um personagem que não funciona nem como antagonista, nem como alívio cômico — mas a maior decepção entre o grupo central é a total falta de importância dada à carismática Christina, de Zoë Kravitz. Finalmente, entre o elenco de veteranos, Naomi Watts e Octavia Spencer imprimem às cenas que dividem a intensidade e complexidade que falta no roteiro.

Tudo isso, claro, resulta em um clímax decepcionante. Tris Prior, definitivamente, merecia estar no centro de uma saga melhor. Resta comemorar o fato de que a série Divergente logo encerrará sua jornada cinematográfica, sem jamais ter chegado perto de alcançar suas óbvias pretensões de chegar perto da importância — e qualidade — de Harry Potter e Jogos Vorazes.


“The Divergent Series: Allegiant” (EUA, 2015), escrito por Noah Oppenheim, Adam Cooper e Bill Collage a partir do livro de Veronica Roth, dirigido por Robert Schwentke, com Shailene Woodley, Theo James, Ansel Elgort, Miles Teller, Naomi Watts, Octavia Spencer, Zoë Kravitz e Maggie Q.


Trailer – A Série Divergente: Convergente

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.