Se em uma entrevista um dos Duffer Brothers tirar a máscara e por baixo dela estiver o Stephen King eu não vou ter surpresa nenhuma. Enquanto a primeira temporada de Stranger Things, ainda que ligada a King, tinha cara de remake do ET, o que se vê na segunda é simplesmente uma incrível adaptação de um livro de King que não foi escrito por ele (ou foi… vai saber se os Duffer não são irmãos do Bachman?!).

E quando falo em “incrível adaptação” não é só nas partes boas. Até algumas falhas recorrentes das obras do “Mestre do Terror” estão lá. O final que muita gente pode não se empolgar, o “capítulo 7” e até uma c pequena dispersão em certos momentos, afinal seus livros não seriam tijolos de mil páginas se ele não fosse um pouquinho prolixo.

De qualquer jeito, há quem goste de tudo isso (eu!) e ao ver essa coleção de situações e clichês na série, misturado com uma trama interessante, ágil e emocionante, personagens incríveis, dois vilões que fazem valer a pena a fuga, alguns heróis trágicos… enfim, pode não ser o melhor livro de Stephen King, mas seria um bom livro.

E essa relação moderna entre livro e série talvez seja algo que tem ainda mais a ver quando o assunto é a Netflix. Diferentemente dos canais abertos ou à cabo, ao colocar todos os episódios de uma temporada no ar ao mesmo tempo é preciso contar com a boa vontade de quem ficará oito horas (dez ou 12, sei lá) na frente da TV e verá a temporada de cabo a rabo. Como se pegasse um bom livro e não largasse suas páginas até a o “FIM” solitário da derradeira página.

Deixando de lado a insegurança de Dan Brown com seus “cliffhangers” soltos enquanto passeia por outro personagem, tanto King quanto a maioria dos escritores, e também essa nova temporada de Stranger Things e as produção Netflix em geral, percebem que a surpresa do final de um capítulo às vezes não vai ficar sendo mastigada por mais de 30 segundos. Então o melhor é não enrolar.

Diante disso, essa segunda temporada de Stranger Things não enrola. Talvez perca um pouco o cuidado e o carinho (os Duffer Brothers agora aparecem mais como “showrunners” e dirigem e escrevem apenas alguns episódios), mas compensa isso com ritmo e uma trama envolvente que caminha bem pelas situações e personagens.

Stranger Things 2 Serial CinemAqui

É interessante como os pequenos núcleos se formam, dispersam, levam seus conhecimentos para outros grupos e voltam. Uma impressão de interação que valoriza cada um deles e não deixa ninguém parecer descartável dentro da trama.

De qualquer jeito, é lógico que os destaques ficam por conta do Xerife Jim Hooper de David Harbour e do simpático Dustin de Gaten Matarazzo. O primeiro, por ter em mãos um personagem que cresceu, evoluiu, que não é mais aquele cara que acordou sem vontade de viver no primeiro capítulo da primeira temporada. Hooper agora é um herói e tem isso graças a seu relacionamento com Eleven (Millie Bobby Brown) e na humanização de alguém que aprendeu com tudo aquilo que aconteceu no ano anterior da vida dele.

Já a Dustin, que caiu nas graças do público na primeira temporada, é dado a responsabilidade de ser o grande estopim de toda a ação. E isso não poderia vir de jeito mais singelo e divertido como essa necessidade de “cuidar” desse “troço” para impressionar os amigos e (ao melhor estilo “Minduím”) a “garotinha ruiva”.

É lógico que é impossível não achar meio preguiçosa toda “mini reviravolta” envolvendo a ruiva “Max” e Eleven, o que faz a segunda não voltar à trama um pouco mais cedo, mas que talvez sejam “ossos do ofício”. É lógico também que o tal do episódio sete, assim com a descartável “Eight” são uma enorme bobagem, mas eles necessitavam estar ali.

Primeiro de tudo, porque “El” não poderia de jeito nenhum chegar à trama antes de seu final, ou tudo ficaria fácil demais com ela explodindo cabeças de “demodogs”, mas mais do que isso, porque ela atrapalharia a dinâmica entre os personagens. Principalmente do próprio Xerife e do (semi) protagonista, Mike (Finn Wolfhand). Ela precisava encontrar seu planeta Dagobah enquanto o resto do pessoal brincava de Aliens – O Resgate.

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Tudo bem, ela poderia ter ficado perdida na floresta com algum anão esquisitão vestido um “robby” (e falando ao contrário), movendo um veículo qualquer e vendo o pai em uma caverna ao invés de “esconder” todas essas referências com aquele “grupinho urbano cheio de laquê”, mas agora o estrago já está feito. De qualquer jeito, talvez a coisa mais importante da série fosse tirar a personagem de perto da trama ou tudo se repetiria, e isso ela faz.

E talvez ai esteja uma das coisas mais importantes para o sucesso dessa segunda temporada: o esforço enorme em não repetir a estrutura da primeira temporada. O que dá ao espectador a grata impressão de estar vendo algo novo e não simplesmente a mesma trama só que agora com um ano de diferença. Stranger Things então continua sendo algo novo, mesmo fincado e dependente de suas referências (talvez o propósito da série seja esse), mas ainda assim, entrega algo remodelado e fresco.

Exatamente como Stephen King adora fazer. Suas obras são o resultado cuidadoso de uma série de conceitos que você já deve ter “ouvido falar em algum lugar”, mas transportados através de uma história que valha a pena ser lida.

Esse segundo Stranger Things é então esse livro divertido que merece ser lido, principalmente por quem já era fã “do autor” (ou nesse caso, no que eu acredito ser seu pseudônimo escondido).

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