Este texto não busca explicar Twin Peaks: O Retorno e seus inúmeros momentos imbuídos de surrealismo e simbolismo. Afinal, desde que o revival da série teve seu encerramento no início de setembro, quem acompanhou esses 18 episódios certamente não parou de pensar neles e no trabalho magnífico que David Lynch e Mark Frost fizeram aqui. Portanto, você já deve ter suas próprias teorias e explicações preferidas, mesmo que entenda que, como Lynch adora reforçar, reduzir tudo o que vimos a uma única resposta definitiva não é o melhor caminho para interagir com Twin Peaks.

Me proponho, então, a analisar um pouco do que O Retorno transmite, o que a conclusão representa para os personagens, de que maneira as três temporadas se complementam e o legado deixado pela série que nos transportou a um lugar tão maravilhoso quanto estranho.

She’s dead, wrapped in plastic

A Twin Peaks original desenrolou-se ao longo de pouco mais de um ano, começando em abril de 1990 e encerrando em junho de 1991. Durante esse período, foram exibidas duas temporadas, totalizando 30 episódios. Quando os espectadores descobriram pela primeira vez o mistério envolvendo a morte da jovem Laura Paulmer, Twin Peaks tornou-se um verdadeiro fenômeno, especialmente considerando que nada como ela havia até então sido exibida na televisão.

Twin Peaks: O Retorno

Mas, quando Lynch e Frost revelaram quem havia matado Laura, o público logo perdeu o interesse. A culpa não é toda do fim do suspense, é claro — apesar de eu, particularmente, considerar apenas um episódio de Twin Peaks verdadeiramente ruim (o décimo episódio da segunda temporada, Dispute Between Brothers”). Muitos espectadores desertaram diante da demora para entregar a tão esperada resposta — em uma série tradicional, isso aconteceria no season finale —, enquanto outros tantos rejeitam boa parte dos capítulos pós-revelação anteriores ao tenso desfecho, em que visitamos o Black Lodge, testemunhamos Cooper preso ali dentro e vemos a primeira aparição do doppelgänger do protagonista, ou “Evil Coop”.

Twin Peaks tornou-se cada vez mais cultuada, conforme mais pessoas foram assistindo ao seriado e, principalmente, com o crescente prestígio alcançado por Lynch, que é incontestavelmente um dos maiores gênios do cinema. Antes dela, não havia nada parecido na televisão. Twin Peaks foi uma soap opera (as novelas norte-americanas) cool, em que aventuras e amores adolescentes se intercalavam com os abusos das megacorporações e de pessoas tóxicas, enquanto um detetive excêntrico fazia de tudo para desvendar seu caso, incluindo entregar-se a sonhos ambientados em um mundo coberto de veludo vermelho e habitado por criaturas estranhas de fala distorcida.

Isso, é claro, é apenas a superfície. A série nunca ofereceu explicações para o que acontecia na cidade — algo que se manteve e foi intensificado no revival —, mas, em seu cerne, nos apresentava a representações da mais pura e cruel maldade enquanto retratava o mal que habita o ser humano. O catalisador de tudo isso, nossa porta de entrada para a peculiar cidade de Twin Peaks, foi a morte de Laura Palmer, uma jovem que (literal e figurativamente) batalhava com seus próprios demônios

The little girl who lived down the lane

Em tantas histórias, a bela garota morta é apenas isso: um rosto e um corpo sem vida, cuja tragédia atua como simbolismo, como catalisadora para o que virá a seguir. A jovem e sua vida encerrada abruptamente — e violentamente — não importam por si só. Essa foi uma das muitas convenções revertidas por Twin Peaks. Aqui, Laura Palmer é o centro do universo.

Os acontecimentos que culminaram em sua morte prematura a transformaram em uma garota perturbada e traumatizada, em conflito com o fato de não ser a jovem perfeita e exemplar que tantos moradores da cidade a consideravam. Laura não se julgava digna da amizade de Donna ou do amor de James, duas pessoas boas que ela temia corromper com sua escuridão, sua perversão. Isso não vinha apenas do fato de ela ser atormentada por Bob, é claro — a história de Laura é também a história das expectativas impossíveis que a sociedade coloca sobre as mulheres, ditando como elas devem se comportar, o que devem desejar, como devem ser.

Aos poucos, ao longo dos 30 episódios da série original, fomos completando o quebra-cabeças representado por ela. Quando Twin Peaks despediu-se da telinha, Lynch resolveu continuar a história com um longa-metragem, não com uma continuação direta da trama, como muitos fãs esperavam, mas com uma exploração de seu pilar: Laura Palmer, que em Twin Peaks: Fire Walk With Me, nos conduz por seus últimos dias de vida. A performance memorável de Sheryl Lee e a tragédia que sabemos estar se aproximando rendem momentos de insuportável agonia e desespero, como aquele em que Laura vê seu pai saindo de casa.

Twin Peaks é, em sua essência, a história de uma jovem abusada e, enfim, assassinada por seu pai. A forma com que Lynch e Frost retratam isso é calcada no sobrenatural, no místico, mas tudo realça a grandiosidade e a tragédia de tal ato que, aqui, revela-se o mal em sua mais pura forma.

Twin Peaks: O Retorno

A série original estabeleceu a força de Laura por meio do fato de que ela se recusou a ceder — o que levou a sua morte, mas ela preferiu entregar a vida do que entregar seu corpo e sua mente a Bob. Em Twin Peaks: O Retorno, Margaret, a Log Lady, declara que “Laura is the one”. No sublime oitavo episódio, o lançamento da bomba atômica é o gatilho para que Bob e as demais criaturas que habitam o Black Lodge alcancem a Terra — a explosão abriu um portal para outro mundo, outra dimensão, para o próprio inferno? Ou apenas liberou o que já estava ali, apenas esperando um ato de tamanha crueldade como aquele? Diante disso, o White Lodge revida ao enviar Laura para nosso mundo, como se ela fosse a responsável por colocar um fim naquilo. E, de certa forma, ela foi.

We’re going home

Também é recorrente no revival a inevitabilidade de que as histórias de cada um de nós chegarão ao fim. Nesse sentido, o momento mais marcante de O Retorno é, sem dúvidas, a conversa entre Margaret e Hank. “Está na hora. Há um certo medo na entrega”, anuncia ela, pouco depois de ter declarado que a morte “é só uma mudança, não é o fim”. Harry Truman, sem forças para continuar exercendo o cargo de xerife, deixou o cargo nas mãos de seu irmão. Catherine Coulson e Miguel Ferrer morreram depois de gravarem seus episódios, enquanto os atores que faleceram antes das gravações começarem — Frank Silva, David Bowie, Don S. Davis e Jack Nance — aparecem de diferentes formas, eternizados na obra-prima de Lynch.

Se o Black Lodge é uma representação da maldade que se arrasta dentro de todos nós, então, é claro que não há como fazer com que isso acabe. Entretanto, depois de tudo o que ele presenciou em Twin Peaks e durante os anos que passou aprisionado no Black Lodge, Dale Cooper ainda se recusa a aceitar a derrota do bem. Por mais extraordinário que ele seja, o agente não consegue dar as costas para o inevitável e, com isso, torna-se vítima de uma de suas características mais especiais: a empatia. Diante de uma oportunidade de retornar ao passado e reverter a morte de Laura, ele não resiste e morde a isca.

Mas a morte de Laura é a conclusão de sua história, e não sua jornada inteira. Elimine o assassinato, e ela continua a garota traumatizada e perturbada por tudo o que viveu e testemunhou; a jovem que há anos é abusada dentro de sua casa, por seu próprio pai, e aterrorizada pela imagem infernal de Bob. Para Laura, a possibilidade de um final feliz foi embora há muito tempo.

Mesmo assim, Cooper tenta. Ele reencontra o rosto de Laura em uma mulher que atende pelo nome de Carrie Page e mora longe de Twin Peaks — para onde ele a leva, procurando o tempo todo por um sinal, qualquer sinal, de reconhecimento. Até que, após uma visita à casa onde Laura morava com a família — e onde Cooper esperava encontrar Sarah Palmer —, um único grito corta o silêncio da noite: “…Laura.”. A voz que ecoa pertence a Sarah Palmer. Algo acende o olhar de “Carrie”: reconhecimento, compreensão, puro pavor. Ela se lembra. Sheryl Lee solta seu grito inigualável, que arranha a alma. O grito característico de Laura Palmer. As luzes da casa se apagam e e, em seguida, toda a tela escurece. Twin Peaks: O Retorno chega ao fim.

The future dictates the past

Em Twin Peaks, a realidade é inescapável. Cooper consegue mudar as peças — e provavelmente continuará fazendo isso pelo resto da eternidade, preso em um loop de soluções precipitadas e planos falhos —, mas o resultado final é sempre o mesmo. Trauma, dor, sofrimento, perda. E o mal permanente, sempre à espreita, à espera de qualquer brecha pelo qual possa adentrar e corromper, ou alimentar-se do que já havia de podre ali dentro.

Twin Peaks: O Retorno

Twin Peaks: O Retorno é uma evolução natural para a série, que atraiu muitos espectadores que não eram (e não se tornaram) admiradores do trabalho de David Lynch. Assim, muitas das características mais leves do seriado ficaram para trás, fazendo dos novos episódios obras ainda mais densas. Havia o ocasional alívio cômico proporcionado pelos irmãos Mitchum ou mesmo por Dougie, mas nada que chegasse perto de diminuir o peso do restante. E não poderia ser diferente — Lynch, hoje, não é mais “apenas” o diretor de Eraserhead, O Homem Elefante, Duna e Veludo Azul, mas também o cineasta responsável por Estrada Perdida, Cidade dos Sonhos e Império dos Sonhos. O Lynch que dirigiu cada um dos 18 episódios do revival é um artista no ápice de seu talento, mais seguro, ambicioso e bizarro do que nunca. E a série que revolucionou a televisão nos anos 90 não poderia se contentar com menos agora.

Afinal, por mais que Dougie seja divertido em sua inocência quase infantil e em seu desconhecimento do mundo e das pessoas que o cercam, há uma boa dose de melancolia no fato de que estamos presenciando nosso protagonista despido de todas as suas características mais fundamentais. Cada flash do verdadeiro Cooper, resultante de algum elemento familiar ou querido a ele, se estabeleceu como um momento tocante no meio da trama, como sua alegria ao comer uma torta de cereja ou a maneira com que insistia em tocar no distintivo de um policial.

Quando Cooper voltou a ser ele mesmo — em uma cena embalada pela clássica música-tema de Twin Peaks —, o agente imediatamente assume uma posição de comando, demonstrando saber o que deve ser feito e como ele pode fazer isso. Um agente chega a uma cidade desconhecida para investir pessoas e lugares que ele não conhece e, no desenrolar da trama, se descobre excessivamente envolvido com o caso. A premissa soa familiar, não é? Mas, desde que chegou a Twin Peaks pela primeira vez enquanto “conversava” com Diane por meio de seu gravador e mencionava a beleza dos pinheiros que cercavam as estradas da cidade, Dale Cooper se mostrou algo diferente. E que, mesmo assim — e por causa disso —, toma uma decisão perigosa e irreversível assim que se vê dono das próprias decisões, finalmente livre das amarras do Black Lodge e dos grandiosos planos arquitetados pelas forças que o cercam.

Assim, Cooper torna-se prisioneiro em um inferno desenhado por ele mesmo, um mundo em que ele está fadado a ver Laura Palmer sofrendo sem poder fazer nada para salvá-la. Os detalhes podem mudar, mas o trauma permanece.

We live inside a dream

Isso tudo não é apenas compreendido em um nível narrativo — muito do que escrevi aqui é minha interpretação pessoal de Twin Peaks, baseada em minha conexão com a série e que, certamente, é diferente da sua —, mas sentido de maneira mais visceral. Afinal, Twin Peaks não exige (apenas) nossa compreensão, mas sim nossa entrega absoluta à jornada, à experiência que ela representa. Lynch nos oferece longas pausas, diálogos e momentos de acontecimentos aparentemente insignificantes para o todo, mas que têm a missão fundamental de desenvolver e expandir o universo que escolhemos visitar ao longo de 48 episódios. Especialmente nos 18 que formam o revival, cada capítulo é como uma pintura, por vezes surrealista, por outras abstrata ou expressionista.

Twin Peaks: O Retorno

Mas há, ainda, aqueles momentos em que Lynch se estabelece como um maestro, conduzindo uma orquestra de luz, som e imagem — algo especialmente verdadeiro quando falamos do episódio oito, por exemplo. Ou quando o rosto de Cooper se sobrepõem à ação principal para desnivelar uma cena que, sem isso, seria relativamente otimista, mas que Lynch transforma na calmaria antes da tempestade.

Cooper parece observar a ação, como se ele estivesse relembrando-a — ou revivendo-a, preso em seu loop. Há outra pessoa em Twin Peaks em uma situação semelhante. Depois de ser hospitalizada e de dar à luz o filho de Evil Coop, Audrey passa boa parte do revival tentando convencer seu marido, Charlie, a levá-la ao Roadhouse. Inexplicavelmente, eles parecem jamais conseguir sair de casa — até que isso acontece no episódio 16, em que ela revive um de seus momentos mais icônicos da série original. Tudo isso parece saído diretamente de um sonho, onde ações cotidianas podem ser interrompidas por obstáculos invisíveis e onde podemos encontrar dificuldades para as situações mais banais. As coisas transcorrem sem lógica aparente, sem regras, sem limitações.

E é assim que David Lynch e Mark Frost contaram a história de Twin Peaks.

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