O grande problema dos ídolos é que a maioria deles permanecem intocáveis em algum lugar da mente de seus fãs, um espaço que nem a mais aterradora das verdades possa riscar aquela imagem. Para uma enorme fatia de Brasileiros (a outra parte é fã do Piquet) Ayrton Senna alçou sua “persona” a ídolo bem antes de sua trágica morte. Talvez hoje, se vivo, muito provavelmente nem tivesse alcançado tamanho status de lenda, assim como, para tentar mostrar toda essa história um par de olhos que não tivessem participado de toda essa comoção fosse imprescindível, coisa que, infelizmente não acontece.

Senna é um documentário, mas, mais que isso, acaba sendo uma ode à figura do tri-campeão de Fórmula – 1. Isso se dá talvez por pura admiração, ou até medo de riscar uma imagem tão irretocável. Assim, o diretor inglês Asif Kapadia se resume apenas a olhar para essa figura com adoração e pintar a imagem de um gênio das pistas e de fora delas.

Muito embora, como um todo, o filme é formado por imagens do arquivo da própria FIA (Federação Internacional de Automobilismo) sob alguns offs de personagens ligados à vida de Senna, o maior trabalho de Kapadia, fora o da imensa pesquisa e garimpagem dessas imagens, acaba sendo mesmo criar um produto final aprazível para seu espectador. Nesse caso, um impregnado de um melodrama que foge ao seu controle (ou até se pensarmos o pior, um resultado manipulado).

Kapadia não tem vergonha de criar na tela o personagem sem defeitos, que tem que passar por todos obstáculos do mundo para chegar a seus objetivos, um cara religioso, disciplinado, cheio de inimigos e dentro de uma tragédia anunciada, já que nem por um segundo o diretor deixa o fantasma de sua morte de lado. Durante todo tempo, alguém fala, direta ou indiretamente, sobre o assunto. O interessante disso é ver, ironicamente, isso sendo contradito quando o caso em que Senna larga seu carro para ir ao salvamento de outro piloto, Eric Comas, não é citado durante o filme, e acaba relegada apenas aos créditos finais. Como se, ao mesmo tempo, Kapadias tivesse o cuidado de não criar um herói perfeito, mas não percebesse que não estava fazendo nada muito diferente disso.

Até por que, todo herói tem um vilão, e seu documentário parece apaixonado pela relação (ou falta dela) entre Senna e o piloto francês Alain Prost, o vilão perfeito. Prost é cínico, cético e cerebral, correndo com o regulamento embaixo do braço e fazendo apenas o necessário para chegar ao pódio, nem que isso o obrigue a jogar sujo. O oposto do Senna, controlado por seu coração e sua coragem. Diante desse imenso material, sobra a Kapadias explorar com precisão essa dinâmica que, praticamente, move a maior parte do filme, essa rivalidade histórica que marcou a história da F-1 e é o ponto alto do filme sem, sombra de dúvida.

E mesmo parecendo preocupado em ausentar o personagem título de qualquer defeito, o que deixa tudo um pouco irritante, já que claramente Senna era uma pessoa obsessiva com a vitória e com uma vaidade que o obrigava a ser o melhor em tudo de modo impecável, o documentário acaba se afastando demais do ser humano que tinha por trás daquele capacete, já que, apenas Prost, maquiavélico e galanteador como um vilão qualquer de Hollywood (só ficou faltando o bigode fininho), é o único a apontar esses defeitos no piloto. Mas isso é coisa de vilão que só quer denegrir a imagem do mocinho.

Mas apesar disso, Senna, mesmo se tornando um produto melodramático e quase propagandista do piloto, talvez se salve completamente como documento histórico. E se não do homem, com certeza do piloto e de uma Fórmula – 1 que precisava ser ganha tanto na pista cquanto em seus bastidores. E essa escolha se reflete em muitas imagens desse lado de dentro das corridas que vão ser o deleite do público e principalmente dos fãs.

Assim como pintará no asfalto a imagem de um gênio, não só te colocando dentro do cockpit em uma volta pelo circuito de San Marino, mas discutindo o quanto ele realmente, quando entrava naquele carro apertado a trezentos e poucos quilômetros por hora, fazia coisas que só poucos conseguiam fazer. Muitos menos conseguiram, ou conseguem. Coisa de gênio.

Depois de sua morte o documentário de Kapadia “vem” até o Brasil olhar a comoção de seu enterro, os olhos cheios de lágrimas e a devoção, olha para uma entrevistada e a vê, aos prantos, falar que “o povo precisa de comida, saúde e alegria, e a alegria tinha ido embora”, talvez para representar essa mesma nação carente, que momentos atrás ele a tinha indicado como sofrendo diante de um “regime opressor” (que nesse caso era a democracia, saindo da primeira eleição em quase três décadas, mas é melhor relevar…), mostrando sua pobreza e seus problemas, mas fazendo uma leitura quase ignorante de uma situação que, talvez fosse um pouco mais que uma música de domingo e um monte de “Ys” na boca do Galvão Bueno.

Assim, como disse Bertold Breacht: “Infeliz a nação que precisa de heróis”, porém erra quem acha que, no caso de Senna, essa nação era o Brasil, essa grande nação é a Fórmula – 1, que vai demorar até ver um outro “gênio irretocável” como esse bom-moço que conquistou o mundo por meio de um carro.


idem (GB, 2010), escrito por Manish Pandey edirigido por Asif Kapadia


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Uma resposta

  1. Vânia

    Assisti ao documentário esses dias. Concordo quando você cita que a narração por certas vezes exagerou, enfatizando em vários momentos sobre a tragédia, que ainda estava por acontecer, o que por vezes tirou a importância de alguns fatos mostrados.
    Gostei. Mesmo sendo algo resumido, pude ver o Senna que todos nós conhecemos. Um cara extremamente corajoso e coração; que não temia os obstáculos impostos para chegar aos seus objetivos.

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