Sem Seu Sangue | Não alcança seu potencial

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


A diretora e roteirista Alice Furtado tem uma visão estética apurada e claramente sabe o que quer de seu filme; portanto, é uma pena que Sem Seu Sangue jamais chegue ao patamar a que tem potencial de chegar ou que consiga identificar exatamente o que pretende dizer. O que fica, assim, é o potencial não-alcançado e o primor estético que aparece principalmente nos momentos mais intensos da obra, frequentemente banhados em neon.

Antes de chegar a esse ponto, porém, o primeiro ato acompanha a apática e entediada Silvia (Luiza Kosovski), que não parece se interessar por nenhum elemento de seu cotidiano até que Artur (Juan Paiva) se matricula em sua escola depois de ter sido expulso de diversos outros colégios. Logo descobrimos que a inconsequência e a rebeldia do garoto, assim como a vitalidade e a energia que imediatamente encantam Silvia, são resultado de sua luta emocional contra a hemofilia que o aflige.

É a própria Silvia quem conta (ou melhor, explica — os diálogos do longa são bastante expositivos) sobre a doença de Artur para o espectador e, quando ela faz isso, não é difícil prever o que acontece pouco depois: após sofrer um acidente de moto, o jovem sangra até a morte. A intensa paixão de Silvia por ele resulta em um doloroso processo de luto que a faz desenvolver uma doença misteriosa e a torna incapaz de aceitar a realidade do ocorrido.

Quando as tentativas de descobrir e curar o que ela tem se mostram fracassadas, os pais de Silvia decidem partir de férias com ela para uma bela e tranquila cidadezinha no Sul do país. Em vez de melhorar, porém, Silvia se entrega cada vez mais ao desespero e à certeza de que é capaz de qualquer coisa para ter Artur de volta.

“Qualquer coisa”, na visão de Furtado, é um estudo raso de rituais que claramente não fazem parte das vivências da protagonista ou da cineasta. Assim, os passos de dança performados pela garota, embalada por sons tribais, trazem um aspecto de exotificação da cultura apropriada (não há outra palavra) pela garota, especialmente considerando que o ritual tem como alvo um jovem negro. Não parece mal intencionado, e sim pouco pensado.

O personagem de Artur, aliás, é construído unicamente pela visão que Silvia tem dele; como se trata de uma visão repleta de amor e de desejo, além de admiração pela energia presente no garoto que ela mesma não tem, Artur surge quase como um fantasma que acompanha a protagonista. Isso reforça o peso que a perda dele tem sobre Silvia, e já coloca um ar de “irrealidade” que contribui para que os aspectos de gênero que surgem no segundo e no terceiro ato não soem deslocados da proposta inicial de Sem Seu Sangue.

Silvia, por outro lado, apresenta uma apatia exagerada até mesmo considerando a construção e o desenvolvimento da personagem, já que sequer nos momentos em que ela demonstra alguma intensidade Luiza Kosovski consegue deixar essa apatia de lado. Isso acaba por diminuir o poder e a força do que Silvia sente ao longo do filme, e que deveriam ser centrais para o arco dramático da protagonista e para a obra como um todo.

Assim, ainda que eficaz em alguns pontos estéticos e na forma com que passa do drama ao quase-terror, Sem Seu Sangue fica mais na promessa do que no resultado.


“Sem Seu Sangue” (Bra, 2019), escrito e dirigido por Alice Furtado, com Luiza Kosovski, Juan Paiva, Digão Ribeiro, Silvia Buarque, Lourenço Mutarelli e Nahuel Perez Biscayart.



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