Samba marca o retorno da dupla de diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. Colaboradores habituais, os cineastas franceses trabalharam juntos em – quase – todos seus projetos desde 1995 e demonstram aqui, mais uma vez, de forma clara, que sabem fazer um longa ficar com a sua “cara”.

Vindos do megassucesso Intocáveis, em Samba eles novamente apostam em misturar a comédia a um tema dramático sério. Enquanto o filme de 2011 trabalhava com as condições difíceis na vida de um tetraplégico, aqui vemos o dia-a-dia na vida de imigrantes estrangeiros em Paris.

Samba conta a história de Samba Cissé (Omar Sy), um imigrante senegalês que mora em Paris há 10 anos e que trabalha em um restaurante renomado como lavador de pratos. Próximo de conseguir um contrato de trabalho permanente, sua vida virá do avesso quando ele é pego pelas autoridades francesas e é convidado a deixar o país por não ter os documentos necessários para conseguir uma cidadania. Vivendo agora como imigrante ilegal, ele busca ajuda no centro de imigração, que pouco pode fazer por ele. Porém, lá ele conhece Alice (Charlotte Gainsbourg) que mostra interesse pessoal no caso e passa a ajudar Samba no que pode para que ele escape de ser pego e deportado pela polícia enquanto tenta conseguir os documentos necessários para um novo pedido de cidadania. Nesse meio tempo, Samba passa a ter de depender apenas de pequenos trabalhos e bicos, vivendo uma vida errática e imprevisível, e, por vezes, perigosa.

Marcando aqui também o segundo trabalho da dupla de diretores com Omar Sy, é evidente o motivo da escolha dele para este papel. Seu carisma e presença em cena são incríveis. O ator francês de 37 anos tem um poder de criar empatia instantânea com o público que poucos em sua geração chegam perto. É curioso que Hollywood tenha levado Omar Sy para participar em papéis rasos em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros, nos quais nem mesmo seu rosto conseguimos ver direito devido à pesada maquiagem. Decisões que, devido a paciência ínfima do público americano a dar mais de uma chance a um artista, quase que certamente levarão Sy a nunca se firmar na terra do Tio Sam.

Samba Crítica

Mas talvez isso venha a ser algo positivo. Sempre marcante nos trabalhos em sua terra natal, Sy já é um ator conhecido internacionalmente e lhe falta apenas um prêmio de renome (como um Globo de Ouro ou Oscar) para que seu nome, de fato, entre para a top list do cinema atual. Especificamente aqui, em Samba, Sy nos entrega mais um personagem notável, alegre em seu modo de levar a vida, mas que carrega consigo os pesos de um cotidiano difícil e de responsabilidades para as quais nunca foi preparado. É uma performance cheia de nuances que certamente agradará a qualquer fã do cinema.

No quesito atuações, no entanto, o longa não fica dependente apenas de Sy. Gainsbourg, como sempre, também faz um trabalho incrível com a sua estafada Alice. E mesmo personagens coadjuvantes se mostram formidáveis, como o “brasileiro” de Tahar Rahim que traz várias sacadas inteligentes, particularmente para nós brasileiros (exatamente o oposto de filmes americanos que costumam fazer piadas pejorativas com sul-americanos).

O longa ainda nos brinda com sequências geniais, como a de abertura: um longo plano sequência que resume com perfeição a faccionada sociedade francesa, da rica burguesia aos imigrantes negros vivendo de subempregos.
Devido ao personagem brasileiro – e, talvez, a seu título – Samba é recheado de canções nacionais em sua trilha sonora, o que não deixa de ser interessante, além de dar um ar leve ao filme. Ainda assim, curiosamente, há pouco samba nas faixas escolhidas.

Ainda que o longa apresente tantos pontos positivos, seu desfecho acaba não sendo capaz de manter o mesmo nível, ou ritmo. Mostrando-se apressado (talvez pelos já longos 118 minutos de projeção), melodramático e simplista demais, o terceiro ato do longo termina por não permitir que Samba alce o mesmo voo de Intocáveis. Ainda assim, é pouco provável que, após uma viagem tão divertida com personagens tão marcantes, que o espectador não venha a sair do cinema com um sorriso no rosto.


“Samba” (2014), escrito por Olivier Nakache e Eric Toledano, dirigido por Olivier Nakache e Eric Toledano, com Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim e Izia Higelin.


Trailer – Samba

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