Ainda que Ron Howard já tenha até ganhado seu Oscar (por Mente Brilhante), é uma unanimidade que o ex-ator mirim ruivinho sempre deu suas derrapadas e, mesmo em seus filmes mais premiados e celebrados, poucas vezes conseguiu agradar a todos. Rush PosterPrincipalmente em termos estéticos. Entretanto, Rush – No Limite da Emoção talvez mostre que um novo Howard está surgindo.

Um mesmo diretor que já tinha conseguido encontrar um pouco dessa qualidade em seu filme anterior, Frost/Nixon, e seguido um rumo bem diferente das esquecíveis aventuras de Robert Langdon e das parcerias exageradas e melodramáticas com Russel Crowe. Um diretor que parece estar em busca não só de uma história, mas sim de uma história contada de um jeito plasticamente mais interessante ainda.

Buscando o céu nublado e dá sinal de tempestade na vida desses dois pilotos, James Hunt (o “Thor” Chris Hemsworth) e Niki Lauda (o alemão Daniel Bruhl, que esteve em Bastardos Inglórios, mas que ainda deve ser lembrado por muitos pelo ótimo Adeus, Lenin), e se você não é um conhecedor de Fórmula 1 e ainda não ligou os nomes às pessoas, Lauda e Hunt, na verdade, são conhecidos por uma das maiores rivalidades da história do esporte. Uma rivalidade que acabou culminando no grave acidente em que o segundo teve em uma corrida na Alemanha, em 1976.

Howard então tem em mãos o roteiro de Peter Morgan, acostumado a contar grandes histórias de grandes personagens reais (além de Frost/Nixon ainda escreveu os ótimos A Rainha e Maldito Futebol Clube) e que dessa vez se esforça, justamente, para não só olhar para esse acidente que deformou a face de Lauda com uma grave queimadura, mas sim tentando entender o que o levou a voltar às pistas menos de 30 dias depois do ocorrido. Tanto movido por essa rivalidade, quanto por um certo sentimento de que aquela era a única oportunidade da vida dele, e não de ser campeão, mas sim de saber que a única coisa que lhe movia era essa paixão pelas pistas.Rush Filme

Portanto, Rush não é sobre um acidente, por mais que tenha ele em mente a cada momento que Lauda discorre sobre ser um sobrevivente ou dos perigos de um esporte em que por ano, dois pilotos perdiam a vida, o que, felizmente, acaba nem soando exagerado, já que cabe perfeitamente dentro da personalidade pragmática do personagem. Dessa lógica que o movia de encontro ao apaixonado James Hunt.

E isso talvez seja um dos maiores destaques do filme, essa possibilidade de acompanhar esses dois protagonistas em caminhos tão distintos, mas extremamente próximos. Que na verdade representam esses dois lados do esporte, Hunt apaixonado e que faz tudo como se fosse o último dia de sua vida, e da voz da razão de Lauda. E de um modo tremendamente equilibrado, o roteiro de Morgan e a câmera de Howard (em parceria com o trabalho espetacular do diretor de fotografia Anthony Dod Mantle) são inteligentes demais e não escolhem um ou outro personagem, melhor ainda, tratam a dupla como verdadeiros dois lados da mesma moeda.

Hunt é expansivo, cheio de vícios e charme, características que criam uma imagem forte, mas que mascara uma dor de uma vida pessoal arrasada e que só tem na Fórmula 1 o meio de obter esse sucesso, mesmo que frágil e volúvel. Um único título mundial, ainda que pudesse representar sua morte, sendo suficiente para sua carreira, mesmo que, muito provavelmente tenha acabado tomando champanhe no troféu (com em um outro momento). Do outro lado, Lauda é um verdadeiro cretino dentro e fora das pistas, mas com uma vontade de viver e de colocar seu nome na história do esporte muito maior do que de celebrar apenas uma vitória. Um personagem que encontra forças para voltar, mas ao mesmo tempo vê que isso ainda lhe propicia a coragem de viver mais um dia, ou anos. Tempo suficiente para celebrar a sua maior vitória, que é estar vivo.

E se é divertido e dinâmico deixar que o começo do filme seja divido pela apresentação de cada um através de suas palavras, não permitindo então que o espectador se apegue mais a um do que ao outro, Rush mantém então esse clima leve para criar essa rivalidade que em certos momentos são quase infantis e que nunca caem em alguma óbvia briguinha. Assim como a todo o momento investe em uma certa inversão da motivação de cada um, coisa que não permite que o público dentro do cinema se acostume com a estrutura e, melhor ainda, permite que cada um tenha espaço suficiente para conquistar cada um dentro do cinema.Rush Filme

No resto do tempo, o que Howard faz é seguir em busca de um momento em sua carreira que nunca foi tão bonito e inspirado, como se sempre estivesse à procura de um novo ângulo dentro ou fora do cockpit, passando por uma variedade enorme de possibilidades indo até visitar os motoros gritando por velocidade. Um trabalho ágil que se torna mais preciso ainda pela fotografia de Mantle (nome relacionado a trabalhos lindos e rebuscados como em Anticristo e Dogville, em parceria com Lars Von Trier, além dos últimos filmes de Danny Boyle e, ano passado ainda do ótimo Dredd), que, além desse visual quase lavado (meio sépia até) não desperdiça um plano detalhe sequer.

Howard e Mantle então fazem o espectador vestir o capacete com Lauda pela primeira vez depois do acidente, assim como veem a broca chegar perto do olho de Hunt, ambos diante do esforço necessário para alcançar mais uma vitória. E tudo isso não poderia ser melhor trabalhado sem a presença primorosa da montagem de Daniel P. Hanley (antigo parceiro do diretor na maioria de seus filmes).

Rush – No Limite da Emoção então deixa a impressão que não só é um dos trabalhos mais interessantes do diretor, como ainda pode ser apontado como um dos momentos mais bacanas e melhor aproveitados desse esporte nos cinemas. E não só pela já comentada qualidade de todos envolvidos, mas sim por ter em mãos uma história tão impressionante e emocionante, que só poderia ser real.


Rush (EUA/Ale/GB, 2013), escrito por Peter Morgan, dirigido por Ron Howard, com Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara e Pierfrancesco Favino.


Trailer do filme Rush – No Limite da Emoção

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