Roma | Inquestionável

Roma

Cada plano, cada detalhe de Roma transborda em uma autenticidade rara — além de um primor técnico de tirar o fôlego. E se excelência de Alfonso Cuáron é inquestionável, ele definitivamente brilha neste que é seu projeto mais pessoal.

Bairro de Roma, Cidade do México, início da década de 70. É nesse contexto que acompanhamos cerca de um ano na vida de Cleo (Yalitza Aparicio), que trabalha na casa de uma família de classe média: a Sra. Sofía (Marina de Tavira), o Sr. Antonio (Fernando Grediaga), os quatro filhos do casal e a mãe de Sofía, a Sra. Teresa (Verónica García). Adela (Nancy García García) também trabalha na casa.

Nesse meio tempo, há tragédias, dramas, sofrimentos, conflitos políticos, pequenos momentos de relaxamento e de lazer. Cuáron enxerga a beleza e a melancolia por trás de cada segundo. Com uma câmera de movimentos lentos e uma mise-en-scene cuidadosamente organizada, os sons daquele universo, especialmente os sons da água — das ondas do mar, da água que Cleo usa para limpar o pátio da casa, da chuva — tomam conta de tudo e convidam o espectador a mergulhar na tela. Enquanto isso, a fotografia em preto e branco feita pelo próprio Cuáron (que além de roteirista e diretor, é claro, ainda assina a montagem ao lado de Adam Gough) vai muito além de simplesmente remeter a tempos passados. Os tons de cinza enchem Roma de familiaridade.

Em Roma, as mulheres são as que sofrem e, no centro desse sofrimento, está Cleo. O amor que as crianças sentem por ela é palpável, mas mesmo o carinho de Sofía é sincero — Cuáron, dramatizando aqui a história de sua própria infância e das mulheres que o criaram, entende a complexidade entre esse afeto e o fato de que, afinal de contas, Cleo está ali para servir a família. Assim, um breve momento de relaxamento em que Cleo sente-se no chão ao lado da família (sentada no sofá) e é abraçada pelo pequeno Pepe (Marco Graf) é logo interrompido quando Sofía pede a ela para “fazer um chá para o patrão”. Há, ainda, a condescendência com que uma relevação de Cleo faz com que Sofía a chame de ingênua, cega para a sua própria ingenuidade diante do marido.

Mas, nesse sentido, o momento mais significativo acontece no sítio no interior do país a que a família, acompanhada de Cleo, vai para passar o Natal. Ali, vemos uma Cleo repleta de paz e de contentamento, percebendo os perfumes e sons daquele lugar que a faz lembrar também de sua tribo. Até mesmo aquele pequeno momento de lembrança acontece por causa das decisões da família, e Cleo não visita sua tribo há anos.

Roma

A autenticidade que permeia a obra não seria possível sem a atuação magnífica de Yalitza Aparicio. Em seu primeiro trabalho como atriz e sem qualquer formação prévia no ramo (ela é professora), Aparicio toma para si cada nuance de quem Cleo é e da rotina que ela vive, transmitindo com excelência o deslumbramento e o sofrimento cotidianos. Além disso, é um prazer vê-la conversando com Nancy García García no dialeto mixteca, que cria pequenos momentos de privacidade para as duas e através do qual Cleo reforça o laço entre ela e as crianças ao, por exemplo, cantar uma canção de ninar em mixteca para Sofi (Daniela Demesa).

As tragédias acontecem para cada um de nós, e o mundo continua girando. Roma demonstra isso brilhantemente bem ao longo de toda a projeção, mas de maneira especialmente perspicaz na cena em que, depois que Cleo e as crianças recebem uma notícia de Sofía, eles tomam um sorvete na área externa de um restaurante enquanto uma festa de casamento desenrola-se ao fundo.

E é por isso que, apesar de tudo pelo que Cleo passa ao longo dos meses em que a acompanhamos, não há uma trama que defina Roma, pois nada daquilo define Cleo. É apenas mais um ano como os próximos que virão.


“Roma” (Mex/EUA, 2018), escrito e dirigido por Alfonso Cuáron, com Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey, Carlos Peralta, Marcos Graf, Daniela Demesa, Nancy García García, Verónica García, Andy Cortés, Fernando Grediaga e Jorge Antonio Guerrero.


Trailer do Filme – Roma

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