Redemoinho é sobre contrastes. Também é sobre como um erro do passado pode ditar e entrelaçar a vida de alguns jovens para o resto da vida, mas mais do que isso é mesmo sobre as diferenças, sobre o não dito. Sobre o que fica para trás, mas sempre teima em voltar à tona.

Filme de estreia de José Luiz Villamarim depois de quase duas décadas de televisão (em 2016 ainda dirigiu os primeiros capítulos da incrível série Justiça), Redemoinho é ainda sobre como algo que você faz, uma pequena ação que seja, pode seguir refletindo como uma onda. Na verdade, como um trem, sempre andando para frente.
O trem da metáfora deixa de ser sutil no filme, já que essa pequena cidade só tem sua calmaria e silêncio quebrado por um trem que a corta. E nessa véspera de Natal, por duas vezes ele surge para ligar todos esses personagens fisicamente. Como se seus caminhos se ligassem através desses vagões.

O primeiro deles, Gildo (Júlio Andrade), funcionário de uma fábrica têxtil que na volta para casa acaba trombando com o amigo de infância, Luzimar (Irandhir Santos), que volta à cidade depois de muito tempo fora. A terceira ponta dessa trama é Toninha (Dira Paes), esposa de Gildo que está à espera do marido para um ceia solitária dos dois, mas que pode ser a celebração de muito mais.

O problema é que depois de duas, três ou uma dezena de cervejas, os dois amigos cada vez mais chegam em um sombrio lugar de seus passados que deveria ter ficado para trás. Um erro que ainda refletirá até em Toninha.
Um roteiro escrito por George Moura que busca exatamente essa impressão de que nada fica para trás, cedo ou tarde isso volta e irá derrubar um a um todos aqueles que ficarem no caminho dessa verdade. E daí nasce aquele contraste do começo do parágrafo.

Pela mesma razão, pelo mesmo erro do passado, que vai se montando aos poucos em um belíssimo e lírico flashback (a cena onde o foco da câmera se limita ao primeiro plano do chão é de uma elegância inesquecível). Embaçado e distante como suas lembranças, claro e presente como o presente, é como se toda vida desses dois personagens tomasse rumos completamente distintos por algo largado nas memórias.

Gildo não têm o dinheiro, mas tem a felicidade, o casamento e a consciência de que não adianta esquecer o passado, mas sim aprender a conviver com ele. E desde o começo, ele sabe que Luzimar é o oposto disso, falando em televisores de quarenta polegadas e férias na Disney, vê nele a tristeza de tentar ocupar a culpa do passado com o dinheiro do presente (“ainda que a filha goste mais do Mickey do que dele”). E não só isso, mesmo com tudo feliz e os copos de cerveja cheios, algo parece pairar sobre aquilo, olhares, gestos e inseguranças que não permitem que tudo seja confortável.

Redemoinho Crítica

A câmera de Villamarim ainda parece tentar fugir desse mundo, como se chegasse antes da ação e apenas a observasse. Tentando se afastar dessa história enquanto eles próprios tentam exorcizar tudo aquilo que passou. O claro então parece cortar o escuro com uma faca, em certos momentos esse contraste propriamente dito se faz enquanto observa a ação por trás de portas e paredes, ou até do outro lado da rua, fixo e com medo de se aproximar e encarar toda violência.

E seria irresponsável desse texto não falar de seu elenco. Deixando de lado os já competentes e incríveis Irandhir Santos e Júlio Andrade (que sem muito exagero são dois dos melhores atores de sua geração no cinema), a sutileza e a entrega de Cassia Kis Magro fazem com que sua personagem, em toda sua tristeza e melancolia seja de uma veracidade tão poderosa que é impossível não acabar Redemoinho pensando em um jeito de tirá-la desse fluxo de infelicidade. Arrancá-la daquela cidra solitária e tentar recompensar o esquecimento de seus filhos. Por outro lado, seu amor incondicional em cada gesto é de uma sinceridade devastadora.

Por isso, Redemoinho é sobre contraentes, mas também sobre o quanto por trás de todas fachadas há algo que parece não simplesmente corresponder ao que está por fora. E se no final certas coisas sejam melhor que fiquem escondidas, tudo bem, afinal os erros do passado podem até definir o presente, como um trem que somente anda para frente, mas são suas opções no presente que podem te permitir escolher o futuro.

*O texto faz parte da cobertura do 2° Santos Film Fest


“Redemoinho” (Bra, 2016), escrito por George Moura, dirigido por José Luiz Villamarim, com Irandhir Santos, Dira Paes, Júlio Andrade e Cássia Kis Magro.


Trailer – Redemoinho

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