Talvez exista um exagero criado por uma situação específica que fez com que o terror francês Raw se tornasse uma daqueles filmes “marcados”. Na ocasião de sua estreia no Festival de Cinema da Toronto, algumas pessoas acabaram “passando mal”, uma ambulância teve que ser chamada. Automaticamente, o filme da diretora Julia Ducournau se tornou “aquele terror que as pessoas saíram do cinema passando mal”.

Mas não se engane, mesmo gráfico e cru (para aproveitar o nome de batismo americano), Raw é apenas um drama sobre a puberdade e a chegada da vida adulta. Lógico que para ser um filme de terror, isso vem com uma dose de canibalismo, mas ninguém ali parece muito mais preocupado com o sangue, mas sim com essa “jornada violenta”.

A produção ítalo-franco-belga faz parte então dessa nova corrente de terror que percebe que a metáfora é mais importante do que o gore, assassino, demônio ou sei lá o que que venha para atazanar seu protagonista. Uma série de filmes que vêm fazendo sucesso por estarem muito mais preocupados com uma história que seja poderosa o suficiente para que o sangue, ou aquele susto com acorde alto, sejam apenas um detalhe.

Na verdade, produções corajosas os suficiente para encontrarem o terror, a violência, o gore e a dor, dentro daquilo que é mais verdadeiro e real. Corrente do Mal, A Bruxa, Corra e Ao Cair da Noite, junto com Raw estão mais preocupados é com seu significado do que com a quantidade de sangue que está escorrendo da tela. E isso é um respiro para um gênero que quase sempre é sufocado dentro de suas próprias pretensões e clichês.

Raw conta a história dessa jovem, Justine (Garance Mariller) e sua chegada na mesma faculdade de veterinária onde sua mãe se formou e a irmã mais velha, Alexia (Ella Rumpf) já está cursando. O problema é que, assim como toda a família, ela é vegetariana, mas mesmo assim em um dos trotes acaba tendo que comer rim cru de coelho, o que desperta nela uma vontade insaciável de comer mais carne, inclusive a humana.

Escrito e dirigido por Ducournau, Raw, bem verdade, além da plasticidade visual e de um roteiro poderoso, tem uma certa sensibilidade feminina que encaixa bem na ideia geral e sabe muito bem o que fazer com toda essa metáfora. Principalmente ao não se deixar levar pela possibilidade de ser simplesmente um filme de terror.

Ducournau leva sua personagem por todos os estágios dessa passagem dolorosa entre a infância até a vida adulta, e faz isso com a propriedade de quem entende que tem a seu favor um gênero que adora esse tipo de possibilidade. Se primeiro Justine é alguém que não sabe nem bem o que fazer com um pedaço de carne no meio de seu purê, o passar dos dias levam ela até o entendimento de que, para ser adulto, é preciso fazer sacrifícios e encarar a realidade de peito aberto (literalmente falando, se a ideia é ter menos spoilers).

Justine passa pelas mudanças no corpo, pelo vestido e salto alto, pelo desejo carnal (nesse caso, algo menos bíblico), da descoberta de que não sabe de nada, pelo sexo, pelo encontro com sua nova personalidade, pelo legado da irmã, pela humilhação, enfim, tudo aquilo que todos passam enquanto tentam descobrir para onde irão. Lógico, aqui com carne humana crua, mas isso é só um detalhe.

Lá para o final, quando o período de trotes acaba e todos novos alunos perambulam pela faculdade sem saberem muito para onde ir, Justine sabe. Na verdade, ela e sua irmã têm a certeza de que não podem mais fugir daquilo que “nasceram para ser”.

Raw Filme

Sim, estamos falando de canibalismo. Mas poderíamos estar falando de inúmeras outras coisas que não envolvessem carne humana, mas ainda assim fariam sentido (assim como Corrente do Mal faz com o sexo e o “monstro invisível”).

E logicamente que isso tudo não iria funcionar, principalmente os momentos de gore (que são sim intensos) sem um trabalho robusto de Ducournau. E logo de cara, com uma composição segura que observa de longe esse misterioso acidente, você percebe o que não faltará para Raw um visual que funcione. No meio de uma festa a diretora escolhe um plano longo para mostrar o quanto a personagem está perdida, ao mesmo tempo em que depois repete isso quando ela encontra seu caminho no meio da mesma multidão.

Raw então é construído quase como um círculo. Tudo que acontece no começo, da relação com os pais até o afastamento da irmã, roda até voltar. A linguiça no meio do purê, mais parece um dedo, o que será logo lembrado pelo “dedo da irmã”. Justine vai buscar uma roupa da irmã, assim como ambas procuram a imagem da mãe durante o trote, como se todas fossem uma só.

Quando no começo Justine conversa sobre um macaco estuprado e seu “direito” de ser tratado como ser humano, nem imagina que ela poderia ser o “cachorro sacrificado” momentos depois. Uma discussão poderosa e que a leva a entender quem realmente é, não importando se isso a colocar em um caminho sem volta e cheio de sangue e carne crua.

E talvez o grande horror de Raw esteja justamente nisso, na ideia de que, mesmo diante de uma realidade aterradora, violenta (e canibal), aceitar o que realmente é e conviver com isso pode ser a diferença entre ser você mesmo ou alguém que a sociedade quer que você seja. Uma vida cheia de sacrifícios para que se possa saciar nossas necessidades.

O terror de Raw está na ideia de aceitar. Um sentimento que aterroriza Justine, mas também fará com que todos se identifiquem com isso… lógico, mas sem a carne humana.


“Raw” (Fra/Bel/Ita, 2016), escrito e dirigido por Julia Ducournau, com Garance Mariller, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas e Joana Preiss


Trailer – Raw

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