Talvez desde que os gêneros existem pessoas que são capturadas por vilões e um grupo de heróis vão em sua busca. Vai de Bram Stoker usar um vampiro em Drácula na literatura ou John Ford e John Wayne seus comanches em Rastros de Ódio. Rastro de Maldade (que no Brasil deve ter ganho o “Rastro” à partir do filme de Wayne), não foge dessa ideia inicial, mas está mais preocupado com seus possíveis fãs.

E esses caras (tanto no masculino, quanto no feminino) são aquele pessoal que consome anualmente uma carga elevada de sangue, tripas, decapitações e outros tipos de violência “on screen”. Um grupo de que mantém vivo um mercado enorme de “filmes B” e que fazem do terror um gênero tão popular.

Rastro de Maldade é então um terror? Talvez, e ainda que não seja, e acabe vendido por aí como um faroeste com um elenco incrível, quando decide ser um terror ele não perde uma oportunidade para jogar essa intenção em sua cara. Nem que isso lhe custe todo o resto do filme. E quando falo em “custo” é literalmente.

Escrito e dirigido por S. Craig Zahler, o filme custou algo em torno de 1,8 milhões de dólares, o que é uma ninharia em termos de Hollywood e que obviamente não deixaria Zahler gastar muito com seu filme. A impressão que fica então é dele ter usado cada centavo desse dinheiro em meia dúzia de cenas de ação/terror, porque quando elas acontecessem, o filme vale todo esse esforço.

O estilo foroeste sem glamour parece ser isso mesmo, real, palpável na verdade sem estilo algum. Não arrumadinho como Ford adorava e nem sujo e puerento como Leone, ele parece simplesmente comum, e cada tiro disparado e cena de ação parecem saídas desse mesmo lugar. É lógico que Zahler procura isso para compensar a falta de dinheiro do resto, o que dá uma personalidade para o resultado final, mas não deixa de ser interessante ver tiroteios como eles devem ter sido de verdade, meio estabanados, tortos e com muito menos mira que Wayne e Eastwood teriam.

Mas o que mais chama atenção em Rastro de Maldade é a quase sempre surpresa com os rumos que tudo toma. Sem você esperar uma flecha atinge um personagem, ou um machado corta a mão de alguém, finca em uma testa ou até alguém é simplesmente cortado ao meio sem qualquer tipo de cerimônia. E ai está aquele terror que os fãs irão adorar. Um terror que faz valer o filme.

Rastro de Maldade Crítica

“Faz valer”, já que no resto do tempo Rastro de Maldade não tem muito a oferecer. Começa morno e duro com essa cidadezinha recebendo um forasteiro misterioso (David Arquete) que acaba preso pelo xerife local (Kurt Russel). Mas como um prólogo tinha mostrado, o forasteiro na verdade estava sendo perseguido por uma tribo mais misteriosa e selvagem ainda, o que resulta em uma invasão na cidadezinha e no desaparecimento dele e de mais dois moradores.

Resta para o xerife de Russel se justar a seus assistente (Richard Jenkins), um ex-combatente (Matthew Fox) e o marido da desaparecida (Patrick Wilson) e irem em busca dessa tribo misteriosa. Nesse segundo ato, porém, além de terem que lidar com um machucado do personagem de Wilson ainda são atacados por saqueadores e … bom… não acontece mais muita coisa. Durante tempo demais você acompanha esses quatro personagens pouco interessantes contando sobre suas vidas poucos interessantes. Mas pelo que você já viu de violência antes, espera com prazer.

A recompensa é aquela de uns parágrafos anteriores e que vai fazer muito amante de terror passar a adorar o filme e nem perceber que ficou tempo demais acompanhando esses caras praticamente em um mesmo cenário árido sem acontecer muita coisa. E falando em “mesmo cenário”, é quase risível a conclusão naquela gruta com os personagens entrando em saído por uma porta, quase como um episódio do Chapolin. Mas como eu disse, tudo isso fica para trás diante do gore.

E talvez Rastro de Maldade saiba disso. Sabe do quão pouco dinheiro tem em mãos, então prefere fazer bem aquilo que tem como fazer do que perder tempo resolvendo um monte de coisas que só estão lá para “emoldurar” o que fará com que o filme seja lembrado depois de seu fim, o terror. E seus fãs agradecem.

PS: O filme está tanto no Netflix, quanto no Telecine On, por isso não deve ser complicado conferi-lo. E também falei sobre ele em um vídeo que está tanto aqui quanto no nosso canal no Youtube.


“Bone Tomahawk” (EUA, 2015), escrito e dirigido por S. Craig Zahler, com Kurt Russel, Patrick Wilson, Matthew Fox, Ricahrd Jenkins, Lili Simmons, David Arquete, Fred Malemed e Sid Haig


Trailer – Rastro de Maldade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.