Já falei sobre essa pequena obsessão do Brasil com Oscar no ano passado quando a polêmica (para não dizer cagada… me desculpem pela franqueza!) envolvendo Pequeno Segredo e Aquarius . Mas isso já é história velha… na verdade não, já que estamos às portas de mais uma escolha e o assunto continua rondando essa votação como um fantasma cansado.

Sim “um fantasma” e ainda por cima “cansado”, já que ninguém mais parece ter paciência para falar sobre isso, principalmente, pois não existem dois lados dessa discussão. De um lado está quem achava que o filme de Kleber Mendonça Filho merecia uma indicação, do outro… bom do outro está um pessoal que xinga o PT, os comunistas, manda todo mundo “pra Cuba”, mas nunca defendem a indicação de Pequeno Segredo, que por sua vez é realmente indefensável.

E no que isso mudou? Simples, mudou tudo.

De cara a primeira mudança é o Ministério da Cultura tirar de seu colo essa responsabilidade. A função agora fica inteira nos braços da Academia Brasileira de Cinema, que escolheu ela própria sua comissão enquanto o MinC só supervisionou. A ABC até ano passado participava da comissão com duas vagas.

E isso em primeiro lugar quer dizer que o resultado final será confrontado por “um monte de especialistas” na área no dia seguinte ao anuncio, mas também que agora o órgão que fez a escolha tem um mínimo de respeito a ser mantido. Estamos falando de gente que entende e vive de cinema e não de um pessoal em Brasília.

Candidato Oscar Brasil Aquarius

Por outro lado, o não pronunciamento oficial da ABC de quem formará essa comissão, ainda que aparentemente ela tenha “vazado” no O Globo, mostra que o receio de represarias ainda é algo que moverá essa escolha. Uma insegurança que muito provavelmente não irá refletir no filme que irão indicar, mas mesmo assim uma insegurança.

Afinal, qualquer que seja a escolha, parte da imprensa especializada irá torcer o nariz (esqueça o público em geral, esse escolhe muito mais com o coração ou movido por algum “influenciador digital”), outra parte, porém, irá celebrar a escolha. Mas desde que seja uma escolha que faça sentido, a tal da imprensa especializada irá entender e celebrar (Relaxem que ela é bem boazinha!).

De qualquer jeito, a tal da comissão (de acordo com a coluna do Anselmo Gois em O Globo) é presidida pelo vice-presidente da ABC Jorge Peregrino e ainda têm seis profissionais “da área”. O primeiro deles é um dos donos do Canal Brasil, Paulo Roberto Mendonça; seguindo, o roteiristas Doc Comparato (Bonitinha mas Ordinária, Os Trapalhões na Arca de Noé e O Cangaceiro Trapalhão) e o diretores Miguel Faria Jr. (O Xangô de Baker Street e o documentário Chico: Artista Brasileiro), João Daniel Tikhomiroff (Besouro e mais recentemente Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood) e David Schurmann (sim, aquele do Pequeno Segredo), por fim, a produtora Iafa Britz (Casa Grande, Minha Mãe é uma Peça, Divã e Seu Eu Fosse Você).

E eu perdi esse parágrafo todo para mostrar quem era cada um da comissão pela única e exclusiva intenção de deixar claro que todos ali têm um nome a zelar e um currículo para servir de base para suas escolhas. Tudo bem que Schurmann não passa essa confiança toda, ainda mais depois de uma série de entrevistas que deu ano passado depois da indicação de seu filme em que tentava defender Pequeno Segredo… que é indefensável, que é como aquele garotinho tão feio que nem os pais deveriam achar ele bonito.

Oscar Brasil Comissão

O que nos leva ao método de escolha. Que assim como a comissão, parece ficar meio nebuloso e sempre extraoficial. Ao que parece, cada membro da comissão escolhe por ordem de preferencia um dos 23 filmes que se inscreveram. Ao final disso, passa para uma espécie de “final” aqueles filmes que estiverem ficado nos primeiros lugares de todos e ainda alguns que se repetiram nas primeiras posições. Ou simplesmente pode ser com dados, uns papeizinhos com os nomes dos filmes em um pote ou até cartas de tarô, não importa, já que nessa segunda fase os filmes serão discutidos.

À título de curiosidade, pela primeira vez no história da escolha não se matou nenhuma árvore para que esse filmes fosses inscritos, já que todo processo foi online. Tantos as inscrições, quanto o envio dos filmes foi feito através de uma plataforma que disponibilizará os filmes para comissão e tudo mais que eles precisam.

Os filmes puderam ser inscritos até o dia 31 de agosto e a comissão anunciará o escolhido no dia 15 de setembro (próxima sexta-feira). Os únicos quesitos são que seja produções brasileiras, que tenham estreado em circuito comercial entre os dias primeiro de outubro de 2016 e 30 de setembro de 2017 e que tenha permanecido em cartaz por sete dias consecutivos.

Mas antes de listar quem são esses 23 filmes que concorrem a uma indicação, vamos ao que mais importa: minha opinião.

Oscar Comissão Esolha

No caso de ser divulgada uma última lista com os mais votados, ela deve vir com Bingo: O Rei das Manhãs, Como Nossos Pais, Gabriel e a Montanha, O Filme da Minha Vida e algum outro que deve provar, ou que a comissão entende de cinema (como, por exemplo Joaquim, que quase ninguém viu) ou que está querendo aparecer (Como Polícia Federal ou Real).

De todo caso, a briga deveria mesmo é ficar entre os quatro citados. E esqueçam qualidade à partir desse momento (até porque todos estão acima da média!), estamos falando de Oscar, de mercado estrangeiro, distribuição “nos states”, festivais internacionais, currículo, enfim, um monte de outras coisas que o Oscar discute e quase sempre se sobrepõe à qualidade dos filmes.

Gabriel e a Montanha ainda não estreou no Brasil e se for indicado deve correr para chegar aos cinemas, mas como está chegando em várias praças pelo mundo e chegou até a ganhar o Prêmio Revelação da Semana de Crítica em Cannes, pode ser que tenha já meio caminho andando em termos de divulgação.

Falando em prêmios, Como Nossos Pais levou o Kikito em Gramado e está tendo uma vida incrível nas bilheterias do Brasil, o que deixaria o público feliz. Além disso, o drama de Laís Bodanzky tem aquela cara de cinema independente humano urbano e moderno (um pouco do que tinha Aquarius talvez), o que é uma faceta que o Brasil tenta sempre emplacar como cartão de visita.

O Filme da Minha Vida corre por fora, tem aquela cara de “filme do Oscar” com jovem descobrindo a vida adulta e uma cara de drama italiano meio sépia. Mas talvez por ser “menos brasileiro” acabe ficando de lado.

Por fim, Bingo: O Rei das Manhãs é o meu preferido para a indicação (#teamBingo). Primeiro por poder ser lançado nos Estados Unidos com um grande e imponente “dirigido pelo Indicado ao Oscar Daniel Rezende” (pela montagem de Cidade de Deus); segundo, por se tratar ao mesmo tempo de uma história brasileira e com todo sotaque tupiniquim, mas que é tremendamente universal, falando da loucura dos anos 80 e de um certo personagem que reina no inconsciente coletivo de um monte de americanos também, já que o Bozo por lá ficou no ar por algumas décadas.

Bingo

O que surgir além disso deve criar uma discussão diante da qualidade (sim, ai ela volta à pauta) do resto dos filmes e fazer com que a escolha do brasil para representar nosso cinema no Oscar em 2018 se torne uma polêmica tão grande quanto a do último. E se isso parece maniqueísmo da minha parte, pode acreditar que é, já que eu serei um dos primeiros a discutir a falta de capacidade da comissão diante de uma escolha que não seja uma dessas.

Confira então a lista de inscritos e seus diretores:

A Família Dionti (Alan Minas)
A Glória e a Graça (Flávio Ramos Tambellini)
Bingo: O Rei das Manhãs (Daniel Rezende)
Café – Um Dedo de Prosa (Maurício Squarisi)
Cidades Fantasmas ( Tyrell Spencer)
Como Nossos Pais (Laís Bodanzky)
Corpo Elétrico (Marcelo Caetano)
Divinas Divas (Leandra Leal)
Elis (Hugo Prata)
Era o Hotel Cambridge (Eliane Caffé)
Fala Comigo (Felipe Scholl)
Gabriel e a Montanha (Felipe Barbosa)
Histórias Antes da História (Wilson Lazaretti)
Joaquim (Marcelo Gomes)
João, O Maestro (Mauro Lima)
La Vingança (Fernando Fraiha e Jiddu Pinheiro)
Malasasrtes e o Duelo com a Morte (Paulo Morelli)
O Filme da Minha Vida (Selton Mello)
Polícia Federal – A Lei é Para Todos (Marcel Antunez)
Por Trás do Céu (Caio Sóh)
Quem é Primavera das Nuvens (Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado)
Real – O Plano Por Trás da História (Rodrigo Bittencourt)
Vazante (Daniela Thomas)

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