Quase Samba conta a história de Teresa (Mariene de Castro), uma cantora de samba que, mãe solteira e grávida do segundo filho, luta para sustentar sua família com a ajuda de seu amigo crossdresser, Shirley (Cadu Fávero), com quem mora e que é quase um pai para seu menino. Enquanto isso, dois potenciais pais biológicos de seu bebê – e antigos namorados da cantora – disputam a sua atenção: o primeiro, o corrupto e violento policial Fernando (Otto) e o segundo, o gentil e atencioso Charles (João Baldasserini). Mas é quando os caminhos de seus ex-namorados se cruzam que sua vida realmente entra em parafuso.

Quase Samba é mais uma das provas da riqueza de nosso cinema. Pequenos filmes de baixo custo e alta qualidade pipocam em nossas telas com uma frequência avassaladora, mas ainda são os terríveis filmes mainstream (majoritariamente produzidos pela Globo Filmes) que acabam mantendo a impressão – errônea – na maior parte da população de que estamos muito atrás do resto do mundo no que diz respeito à 7ª arte.

Esse tipo de opinião é facilmente refutado aqui com pouco tempo de projeção. Desde a construção não linear da trama (que mostra cenas dos eventos finais da história de forma enigmática ao longo de todo filme), passando pelo fato de que as reviravoltas nunca são “mastigadas” para o espectador (tratando-o sempre como alguém inteligente capaz de entender o que se sucede) e, por fim mas não menos importante, ao apresentar grandes atuações de todo o elenco (inclusive do elenco de apoio); Quase Samba se mostra sempre como um filme grande, de qualidade e feito para quem gosta de cinema nunca deixando transparecer seu baixo orçamento ou, talvez ainda mais importante, o fato de ser comandado por um diretor de primeira viagem.

É aí que precisamos aplaudir de pé o trabalho de Ricardo Targino, que também roteiriza o longa. Sabendo tirar o melhor dos bons atores que dispõe, ao mesmo tempo em que nos prende a cadeira através de uma trama bem amarrada e bem desenvolvida, o diretor, de fato, começa com o pé direito a sua carreira na tela grande. Embora haja algumas sequências em que o mesmo se entregue a excessos (com destaque para a dança no beco, entre Teresa e Charles), é difícil não perdoar pequenos deslizes quando o longa oferece um desfecho tão marcante. Especialmente quando levamos em conta que, quando chegamos a ele, verdadeiramente nos importamos com o destino de cada um de seus personagens igualmente, não apenas da protagonista.

Quase Samba Crítica

Aliás, outro grande destaque do filme é exatamente o fato de que os quatro personagens acima citados têm importância – e tempo de tela – quase idênticos. O que ajuda de sobremaneira a nos envolvermos ainda mais com a história como um todo. Uma decisão que se mostra acertadíssima quando chegamos à conclusão da trama. Além disso, os personagens são individualmente marcantes e interessantes sem soarem inverossímeis (ainda que haja exageros aqui e ali).

A trilha sonora também não poderia deixar de ser um ponto forte no projeto. Apresentando – obviamente – diversas faixas de samba, a trilha, junto com seus personagens, ajuda a traçar um Rio de Janeiro real e palpável (o extremo oposto do que vemos nas novelas globais).

Com tudo isso é difícil não sair da sala de cinema querendo ver muito mais cinema nacional. Porém, é então que lembramos que filmes como este raramente alcançam um público maior do que o circuito da Paulista (em São Paulo). Uma triste realidade para filmes nacionais com distribuição limitada. Algo que vem mudando nos últimos anos, mas ainda de forma demasiadamente vagarosa.


Quase Samba (2015), escrito por Ricardo Targino, dirigido por Ricardo Targino, com Mariene de Castro, João Baldasserini, Otto, Cadu Fávero e Leandro Firmino da Hora.


Trailer – Quase Samba

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