Projeto Flórida | Um lindo e obrigatório filme real sobre gente real

Projeto Flórida Filme

Muito provavelmente até o final desse texto será a quarta vez que eu choro por causa de Projeto Flórida. A primeira foi o assistindo, a segunda foi tentando explicar porque eu chorei, a terceira foi passando à limpo minhas anotações sobre o filme… a quarta vem logo mais.

E isso acontece… sim, porque eu sou chorão, mas também, pois diante de uma quantidade tão enorme de filmes com os quais temos que lidar pelo ano, encontrar um exemplar tão humano como esse dirigido por Sean Baker é quase um tesouro. Mas entenda bem, o que Baker faz não é apelar para a morte daquele personagem, cachorro ou criancinha, mas sim te emocionar verdadeiramente com pessoas.

Talvez não àquelas iguais as tantas que estão nos filmes por ai, mas sim gente real. Como o nome do filme já diz, o filme se passa na Flórida, mais especificamente em uma pequena cidade que orbita Orlando e seus Parques Temáticos. Em uma dessas rodovias se encontram alguns hotéis com custos baixíssimos que acabam servindo de moradia pseudo temporária para uma um grupo de pessoas que entram em uma espiral de miséria que não os permite sair dali.

Nesse caso, Projeto Flórida acompanha de perto Haley (Bria Vinaite) e sua filha Moonee (Brooklyn Prince), mais precisamente, a menina de seis anos, que corre de um lado para o outro, cuspindo em carros, falando palavrões, fazendo de tudo uma aventura e tentando, a qualquer custo, tirar do sério o zelador do hotel Bobby (William Dafoe).

Haley está nesse espiral, não consegue emprego por uma aparente passagem pela cadeia e por isso tem que morar ali. Ao mesmo tempo, continuar ali, mesmo sendo sua única opção, não a permite arrumar um emprego qualquer. Na verdade, essa é a história dela, mas podia ser a história real de algumas centenas de famílias que realmente estão empacadas nesse paradoxo. E quando Haley e Moonee xingam o helicóptero que pousa e levanta voo bem ali ao lado dela, talvez levando alguém para a Disney, elas sabem disso tudo, desse sistema selvagem que as colocou em uma situação tão desonesta diante da maioria.

Mas Baker não está interessado em vítimas, Haley não é um exemplo a ser seguido, muito menos diante dos caminhos que toma, aparentemente sem pensar nas consequências para sua filha, essa sim, uma possível vítima, mas que está ainda menos interessada em se deixar levar por essa possibilidade.

Moonee então é esse ser que está preso à inocência diante do mundo que sua mãe tenta esconder dela. Um mundo que preferia que ela não existisse e que prefere deixá-la escondida ali, no caminho daqueles que realmente interessam. Se ninguém olhar para o lado ou acabar parando ali por engano, como o casal de brasileiros (¿sabe como é, brasileiros adoram a Disney¿), essa fatia da sociedade pode permanecer escondida, desde que não incomode os turistas.

Essa inocência é talvez o combustível para a segurança dessa garotinha que não precisa lidar com o as falhas ao seu redor, muito menos com os pecados da mãe. Pode andar por ai, sozinha e pequena diante do mundo que não a quer, mas, como pouco se importa com isso, vai aonde quer e quando quer. E como ela diz para a avó da amiguinha, ¿relaxa, ela está segura comigo¿.

Projeto Flórida Crítica

De um jeito deturpado, essa segurança vem, justamente, da mãe e de seu esforço para que, mesmo diante de toda miséria, ela consiga ter uma infância que faça sentido. Do lado de fora do quarto, Bobby surge como um herói anônimo em uma interpretação magistral de William Dafoe. Seu personagem é construído como o pouco de ordem dentro desse caos de cores e pessoas. Talvez um pingo de autoridade, mesmo que ele próprio seja apenas mais um deles e, diante do chefe, não tenha força para nada a não ser obedecer.

Um sistema opressor que esmaga Bobby e Halley entre tantos outros no filme, mas que não esbarra na liberdade de Moonee. Em certo momento, Bobby afasta dela um velho com óbvias intenções sexuais sem que ela não pare nem por um segundo de pular sobre a mesa de piquenique. O perigo está lá, mas ainda assim existem pessoas dispostas a proteger, mesmo diante da falta de qualquer esperança. Entretanto, por causa de Moonee, Projeto Flórida nem por um segundo é um filme pessimista, já que ela vai te levar até o fim do arco-íris.

A outra ponta do tripé que protege ela é o diretor Sean Baker. Ainda que, nesse caso, sutilmente, ele vá descortinando essa realidade para quem estiver do lado de cá da tela. Não existe diálogo expositivo em seu filme e isso é quase um acordo que ele faz com seu espectador, um acordo que conta com a inteligência deles para que, ao seu tempo, tudo possa ser respondido e cada cena se encaixe melhor ainda nessa história de apertar o coração.

Apenas depois de duas cenas aparentemente semelhantes acompanhando Moonee brincando em uma banheira que você, do lado de cá, percebe ter sido convidado a compactuar com a inocência de um mundo onde, às vezes, certos sacrifícios são feitos, por mais feios, sujos e violentos que eles sejam. Talvez você até se sinta tão envergonhado pela situação como Haley possa ter se sentido, já que talvez, conviver com essa única opção seja algo tão doloroso quanto uma despedida. Haley perde para ela mesma e para o sistema.

E você não vai sentir isso por causa de uma trilha sonora que grite em seus ouvidos ditando seus sentimentos, já que somente o helicóptero passando por suas cabeças surge ao fundo, vai sentir isso tudo, porque Projeto Flórida não está ali para ser uma lição, mas sim para ser uma experiência.

Quase uma catarse que te permite acompanhar essa corrida que foge dessa realidade, seca as lágrimas de Moone e entrega para ela o que talvez seja um último e merecido momento onde suas fantasias se tornam realidade e ela deixa de ser somente alguém esquecido na beira de uma estrada e se torna um pedaço do todo valorizado. Deixando de ser invisível e esquecida. Um caminho que seca as lágrimas dela, mas decididamente não enxugará as suas e muito menos as minhas enquanto escrevo essas últimas linhas.


¿The Florida Project¿ (EUA, 2017), escrito por Sean Baker e Chris Bergoch, dirigido por Sean Baker, com Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Willem Dafoe, Christopher Rivera, Aiden Malik, Josie Olivo e Valeria Cotto.


Trailer ¿ Projeto Flórida

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