Privacidade Hackeada | A verdadeiro “inception”


“Se você mantém a mente aberta, as pessoas irão arremessar um monte de lixo dentro dela” 
(William A. Orton, empresário do século 19)

Privacidade Hackeada é o título brasileiro desse documentário americano lançado pela Netflix, mas ele não tem nada a ver com privacidade e tudo a ver com “inception”, aquele conceito do filme A Origem onde uma ideia era implantada na cabeça de uma pessoa para que ela achasse que era sua desde o começo.

E a pergunta que eu faço hoje em dia, em uma época onde as informações acumuladas da humanidade estão literalmente nas pontas dos dedos de bilhões de pessoas, é se ainda existe esse conceito de ideia original, assim como alguns defendem que exista ainda “essa coisa de privacidade”, já que informação inclui conhecimento sobre os outros e sobre você mesmo trafegando pela rede.

Focado na votação americana de 2016, que elegeu Donald Trump e no plebiscito inglês que retirou o país da União Europeia, o Brexit, o filme tem desde o princípio o objetivo de alertar seu espectador para que fique atento para onde seus dados podem ir. A introdução de David Carroll, nosso host, fala sobre como a geração de suas filhas poderá manter o sistema democrático de pé depois de tudo o que foi visto sobre manipulação de notícias nos últimos anos.

Mas deixemos de lado por enquanto as fake news e vamos aos fatos: dados de milhões de americanos foram parar nos servidores europeus da Cambridge Analytica, uma empresa que não apenas processa dados de redes sociais, como os utiliza para direcionar o uso da propaganda nessas mesmas redes. Interessante, não? Na “Era da Informação”, nada mais natural que gigantes como Facebook e Google sejam gigantes justamente pelo poder dos dados da sua massa de usuários.

As redes sociais foram úteis em eleições passadas, como a de Obama em 2008, quando Brittany Kayser trabalhou como voluntária para alavancar uma das primeiras campanhas a usar o poder da internet para eleger o candidato democrata. A campanha termina, o partido se recusa a pagar pelo apoio de Brittany, e o dinheiro para ela passa a ter importância em sua vida pessoal. Então ela recebe uma proposta de emprego onde poderia, de acordo com ela, realmente mudar o mundo (e receber por isso). A proposta que ela aceitou, foi para trabalhar na Cambridge Analytica.

O documentário gira em torno do seu remorso pelo que ela ajudou a construir, pelo pedido legal do professor David Carroll à empresa que devolvam os dados que pegaram de seu perfil e da investigação minuciosa de uma jornalista do The Guardian, Carole Cadwalladr, um jornal britânico de esquerda.

O que mais me incomodou neste filme foi o tom absolutamente irreal com que ele realiza suas manobras, como se essas pessoas fossem seres iluminados sem posição política alguma, enxergando a realidade “fora da Matrix” e prontos para mudar o mundo para melhor. Porém, até o espectador mais ingênuo deveria se questionar se haveria essa luta pela verdade e a questão de como seus dados são usados se, por exemplo, o resultado dessas duas votações fosse diferente.

A figura mais emblemática, e é virtude do longa não esconder, é de Brittany, que não se sentiu arrependida por ajudar na campanha de Obama, mas está vivendo agora seu inferno astral por conta de todos os seus amigos estarem furiosos por ela ajudar “o outro lado”. Note como ela entende o problema da polarização cada vez mais crescente na opinião política das pessoas, mas por algum motivo que talvez nem ela saiba, é incapaz de acusar o lado teoricamente mais empático de ser violento.

Ou isso ou os diretores do filme, Karim Amer e Jehane Noujaim, trabalham no caso específico e que deixou o mundo inteiro atordoado: a eleição de Donald Trump. Toda sua campanha é utilizada como o bode expiatório para dar suporte à teoria de que os eleitores americanos foram enganados, utilizando para isso a análise do perfil dos indivíduos antes do dia da votação e o envio massivo de propaganda negativa contra sua adversária, Hillary Clinton.

No entanto, por nunca conseguir de fato acesso ao “modus operandi” da famigerada Cambridge Analytica, o filme é incapaz de trazer respostas satisfatórias às questões que levanta, e acaba se limitando no velho jogo de propaganda que já conhecemos desde a Rússia soviética. Logo, fica difícil reconhecer o trabalho deste filme como inovador quando o que ele no final das contas denuncia é: a propaganda faz as pessoas mudarem de ideia. Não me parece um material muito revolucionário para mim. O que você acha?


“The Great Hack” (EUA, 2019), escrito por Karim Amer, Erin Barnett, Pedro Kos, dirigido por Karim Amer, Jehane Noujaim, com Brittany Kaiser, David Carroll, Paul-Olivier Dehaye.


Trailer – Privacidade Hackeada

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