Príncipe da Pérsia – As Areia do tempo, adaptação da série de vídeo games, definitivamente pode levar o carimbo de “divertido”. Mesmo que isso não o faço um filme bom, mas sim apenas um exemplo de como saber se portar diante de suas fraquezas e dificuldade, atingindo seu objetivo.

Mas é bom entender um negócio, principalmente em tempos de invasão de HQs nos cinemas: Um game não é um gibi, onde toda a história precisa ser estruturada de modo a prender a atenção do leitor por aquelas páginas, sem subterfúgios nem atalhos, somente um homem e uma história desenhada em um papel (terreno fácil quando o assunto é adaptá-los). No jogo, com um joystick em mãos, o jogador participa daquela história, muitas vezes, é verdade, nem se preocupa muito com ela, já que seu objetivo se encontra sempre a poucos minutos dele, no fim de um fase ou com um “chefão”, estrutura que o possibilita ser desenvolvido diante até de uma narrativa fraca, desde que divertida (bem verdade que a cada lançamento isso parece estar mudando, o que facilitaria em muito suas adaptações).

Prince o Persia sempre foi sobre um cara saltando pelos cenários indo a procura de sua princesa aprisionada (perdoe-me os fãs mas sob toda tapeçaria é isso que ele é). Sobraria então para o inglês Mike Newell fazer disso um filme, do mesmo jeito que seria dele (e do roteiro) a opção de ter que sacrificar algo mais profundo diante da pura diversão. Dastan (vivido por um improvável persa Jake Gillenhaal) é um órfão adotado pelo Rei da Pérsia, que anos depois, após cair em uma armadilha é acusado de matar o pai e tem que provar sua inocência.

Tudo isso acontece pouco depois de Dastan e seus dois irmãos invadirem um reino que acreditavam estar produzindo armas para os inimigos, tudo a conselho do tio Nizan (Ben Kingsley e sua sombra nos olhos). Acusado e foragido, o herói conta com só com a ajuda da princesa do reino invadido, Tamina (vivida pela estridente Genna Artenton, que recentemente esteve em Fúria de Titãs). O casal ainda tem que proteger uma suposta adaga mágica que tem o poder de levar seu portador ao passado (e que no game deve ser um similar ao “life” de outras épocas), mas que precisa de uma certa areia sagrada (a “do tempo” do título) para funcionar, o que acaba sendo a verdadeira razão da invasão pelas mãos do terrível Nizan (Ben Kingsley não entraria nessa se não tivesse um papel importante).

E se talvez a única coisa que possa ser tirada do roteiro, e divertir, seja essa alegoria onde um grande Império invade uma cidade sagrada diante de uma acusação da posse e manufatura de certas armas, na verdade inexistentes, mas que culminam na verdadeira ambição em relação a um tipo de combustível que está debaixo deles (e se vocês não sabem do que estou falando seria bom ler mais jornais), o resto é apenas pano de fundo, bem lá atrás mesmo, para Dastan e Tamina se aventurarem pelos desertos e cidade dos Oriente Médio.

Bem verdade Newell parece reticente em assinar uma “acefalização” de seu filme, como se a todo custo buscasse, não só uma trama que mova seus personagens, como uma ou outra reviravolta que acabam não servindo para nada. Ninguém se sentirá surpreso com Kingsley, nem muito menos com o rumo do último ato, o que é uma péssima opção, pois essa mesma seriedade com que ele dirige sua história quase não possibilita que ninguém se sobressaia. Em certo momento surge um Alfred Molina como um pequeno alívio cômico, mas o resto tempo, o que Newell faz é levar a sério demais todos a frente de seus lentes. Principalmente seu casal principal, o que é um tiro no pé.

O Dastan de Gyllenhaal surge mais como um herói atlético do que simpático, parecendo fingir uma charme doloroso em uma combinação de cachorro pidão com um sorriso que escapa no canto dos lábios, uma mistura canastrona e dura. Talvez um pouco de humor lhe fizesse bem, uma pitada de Jack Sparrow (Piratas do Caribe) ou do Rick O´Connell de Brendan Fraser em A Múmia, duas produções que, mesmo diante de sua falta acentuada de uma trama convincente, sabem usar seus personagens de jeitos bem mais competentes. Aqui, Dastan não conquista, apenas empolga com sua destreza, além de se mostrar uma escolha de elenco horripilante, principalmente no meio de todo resto dos personagens, muito melhor caracterizados (e persas) que ele. Gyllenhaal parece deslocado como persa, assim como Morgan Freeman ficasse diante de algum personagem Vicking.

Mas tudo isso fica um pouco para trás quando Príncipe da Pérsia decide ser um daqueles filmes de aventura à moda antiga da Disney: muito caro, cheio de estripulias e efeitos especiais, com um visual limpinho e bonitinho, um casal que se odeia de início e um vilão de bigode e barbixa. E ainda que Newell perca um pouco a mão ao filmar alguns duelos um pouco perto demais, acaba sendo preciso em suas sequencias de ação, principalmente ao saber “esticá-las” por todo cenário e sempre primar ´por um capricho em suas composições, o que deixa seu filme com um visual bonito e agradável.

Por isso, talvez alguns até saiam do cinema acusando Príncipe da Pérsia- As Areias do Tempo de uma certa infantilização, o que é verdade, mesmo que, talvez, a palavra certa seja leveza e isso não seja em nenhum momento um defeito seu, já que a ideia, a todo tempo, parece ser essa mesma: a de um filme para a família, meio descartável, mas que pelo menos vale o preço do ingresso e, acima de tudo, diverte quem se deixar levar pelo ritmo.


Prince of Persia: The Sands of Time (EUA, 2010) escrito por Boaz Yakin, Doug Miro e Carlos Bernanrd, dirigido por Mike Newell, com Jake Gyllenhaal, Gemma Artenton, Ben Kingsley, Alfred Molina, Steve Toussaint, Toby Kebbell e Richard Coyle.


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