Nascida em 1993, a franquia Power Rangers se tornou um marco tão grande que, mais de duas décadas e dezenas de temporadas e personagens depois, permanece viva até hoje na televisão. Os rangers já haviam chegado às telonas com dois longas-metragens que acompanhavam o seriado. Entretanto, este esforço da Lionsgate nos apresenta a uma nova realidade dentro desse universo, uma que o estúdio ambiciona transformar em sua própria franquia cinematográfica. Mas, pelo jeito, parece que os heróis vão permanecer nas telinhas.

A missão de defender o mundo, agora, está nas mãos dos jovens Jason Scott (Dacre Montgomery), um típico atleta popular do ensino médio que, em meio à rebeldia adolescente, demonstra-se um líder nato e, por isso, assume o comando do grupo como o Ranger Vermelho; Kimberly Hart (Naomi Scott), uma garota de descendência indígena tentando retomar a vida após envolver-se em um escândalo e que se torna a Ranger Rosa; Billy (RJ Cyler), o Ranger Azul, um negro no espectro autista inteligente e bondoso;  Zack (Ludi Lin), que tenta contornar a solidão que sente devido à doença de sua mãe chinesa até que torna-se parte de um grupo como o Ranger Preto; fechando a turma, temos a Ranger Amarela, Trini (Becky G), uma lésbica latino-americana que enfrenta o isolamento sofrido por ser nova na cidade e o preconceito de sua família conservadora.

Essa diversidade de culturas e experiências é, definitivamente, o ponto alto de Power Rangers. Isso é abordado com naturalidade, como deve ser, e apesar de não definir os personagens, é parte deles. Zack conversa com a mãe em mandarim, enquanto Billy se estabelece como o personagem mais interessante do longa e declara seu autismo sem receio algum. Além disso, é extremamente relevante trazer um grupo de jovens de diferentes origens e identidades precisando trabalhar juntos para poderem alcançar algo que só pode ser realizado através dessa união. Independentemente da qualidade do filme, é gratificante e importante termos um blockbuster centrado em um grupo que traz apenas um ator branco e que, pela primeira vez em uma produção desse tamanho, nos apresenta a protagonistas LGBT e no espectro.

Como indivíduos, os rangers também funcionam. Os cinco atores conseguem estabelecer bem suas personalidades, sendo beneficiados pelo tempo que o filme dá para que eles se desenvolvam. Assim, mesmo sendo apresentado de forma bizarra graças ao senso de humor inconstante do roteiro de John Gatins, Jason logo demonstra seu instinto de liderança quando vai pela primeira vez à sala de detenção. Para que os rangers possam alcançar todo o seu potencial e cumprir sua missão, é imprescindível que eles aprendam a trabalhar juntos e, nesse sentido, o diretor Dean Israelite se sai relativamente bem em desenvolver uma dinâmica divertida, sincera e envolvente entre os jovens heróis. Outro acerto é não forçar o romance entre nenhum dos jovens.

Por outro lado, Israelite demonstra não ter a mínima ideia de como conduzir uma cena de ação, algo que, obviamente, deveria merecer cuidados especiais em uma adaptação dos Power Rangers. Tudo bem, as lutas da série, inspiradas em produções japonesas, tinham seu teor de breguice. Mesmo assim, elas sempre se mostravam divertidas e energéticas, um ponto alto de cada episódio mesmo que a fórmula fosse sempre a mesma (fórmula essa que, é claro, se repete aqui).

Nesta produção, entretanto, o diretor investe em constantes planos fechados e em movimentos de câmera duvidosos que fazem com que não consigamos acompanhar direito a ação, além de tirar toda a energia desses momentos. Isso para não falar dos efeitos especiais, fracos e sempre acompanhados por sons característicos que apenas destacam sua artificialidade.

Power Rangers Crítica

Outro fator contribuinte para essa falta de energia é a péssima fotografia de Matthew J. Lloyd, quase que completamente destoada de cor. Ao lado do design de produção, a fotografia faz com que o universo do filme torne-se apagado e ainda mais distante de sua franquia de origem. A caverna encontrada pelo grupo e a nave de Zordon não apresentam personalidade alguma e, quando os rangers fazem uma batida caminhada em câmera lenta após morfarem pela primeira vez, é quase impossível distinguir a armadura preta da azul. As cores apenas surgem no longa durante o terceiro ato, mas somente graças às próprias armaduras e Zords dos rangers e pelo fato de a luta acontecer durante o dia e ao ar livre, sem auxílio algum da fotografia.

As armaduras, por sua vez, são outro ponto fraco da produção. Os cineastas conseguem arruinar as clássicas vestes de spandex colorido em favor de trajes menos básicos e mais high-tech, repletos de formas musculosas nos garotos e de curvas representando os seios das rangers femininas (que também ganham saltos altos embutidos em suas armaduras!), e com cores muito menos destacadas do que estamos acostumados. Aliás, é decepcionante ver o quanto a equipe de figurino comandada por Kelli Jones não faz esforço algum para integrar as cores de cada ranger em seu cotidiano, pois esses tons surgem aleatoriamente nos vestuários dos personagens e sem apresentar significado algum.

Como já mencionado, outro problema que permeia a narrativa é a inconsistência de seu tom. Funcionando principalmente quando se rende ao humor despretensioso (como uma divertida referência a “Transformers” e as provocações entre os jovens), Power Rangers ocasionalmente se entrega a momentos bastante pesados (como o acontecimento que destruiu a reputação de Kimberly na escola) que jamais são abordados a fundo. A própria gag envolvendo Jason e um boi no início do longa, aliás, destoa completamente do humor do restante da projeção.

Quanto ao elenco, nada muito complexo é exigido do grupo central, mas os jovens atores fazem um trabalho eficiente e se mostram carismáticos. Bryan Cranston surge (literalmente) preso a um personagem importante para a franquia mas que, aqui, não faz nada de interessante e, para piorar, ainda conta com o irritante hábito de ficar se movendo pela parede que o prende na nave. Dando voz ao robô Alpha 5, Bill Hader tem poucas oportunidades de divertir. Fechando o elenco, Elizabeth Banks claramente se divertiu muito interpretando a clássica vilã Rita Repulsa, que surge ameaçadora e propositalmente caricatural.

A batalha que encerra o terceiro ato, especialmente quando o Megazord entra em ação (e isso só é um spoiler se você nunca viu um único episódio de Power Rangers na vida), finalmente imprime alguma energia na narrativa e retoma pelo menos alguma coisa do espírito da franquia. Porém, o filme parece não reconhecer suas origens, o que nos leva ao momento em que a icônica música-tema da franquia surge apenas para desaparecer segundos depois sem causar impacto algum.

Dessa maneira, apesar de acompanhar jovens que têm potencial como super-heróis e como líderes de uma franquia, Power Rangers raramente se mostra algo mais do que uma produção sem personalidade e esquecível.


“Power Rangers”(EUA/Canadá, 2017), escrito por John Gatins a partir da franquia criada por Haim Saban e Shuki Levy, dirigido por Dean Israelite, com Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludi Lin, Becky G, Elizabeth Banks, Bryan Cranston, Bill Hader e Cody Kearsley.


Trailer – Power Rangers

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