Depois de estrelar alguns curtas-metragens no início da década de 50, ele ganhou seu próprio desenho animado em 1957 e, desde então, tornou-se um fenômeno absoluto — principalmente no Brasil. Agora, Pica-Pau: O Filme chega aos cinemas brasileiros — e, por enquanto, somente brasileiros — com o objetivo de conquistar as crianças de hoje e ainda atrair a nostalgia dos adultos que cresceram com o personagem. Para alcançar isso, talvez fosse melhor se a Universal Pictures tivesse investido em um especial televisivo, que é o que este longa muitas vezes parece.

A animação é uma técnica capaz de gerar obras-primas indiscutíveis no cinema, como qualquer filme do Studio Ghibli, (quase) qualquer um da Pixar e muitos da Disney. Entretanto, as produções live-action continuam sendo o ápice da sétima arte (recentemente, foi anunciado uma versão hollywoodiana de carne e osso da excelente animação japonesa Your Name, apenas para citar um exemplo recente), mesmo que a maioria das adaptações live-action para desenhos animados não seja bem-sucedida. A própria Disney entrou no hype e começou a adaptar seu catálogo de animações, mas é um dos poucos casos em que isso consegue ser feito com qualidade e personalidade própria.

O que nos leva a este Pica-Pau: O Filme, um longa-metragem live-action que desesperadamente deseja ser um desenho animado. Muitas das gags que vimos aqui são típicas da técnica, como quando Pica-Pau contorce seu corpo de maneiras impossíveis ou cria um alvo em uma árvore e, principalmente, quando um personagem leva um choque e vemos o desenho de seu esqueleto — algo que o pássaro imediatamente declara ser “coisa de desenho animado”. E não há nenhum senso de humor ou motivo para isso — é pura e simplesmente uma repetição daquilo com o qual já estamos acostumados na versão televisiva e animada do personagem.

Além disso, outro grande problema é o fato de que o diretor Alex Zamm jamais consegue dar a impressão de que o Pica-Pau está de fato interagindo com o ambiente, com as pessoas e com os demais elementos “reais” ao seu redor — algo percebido especialmente durante a cena em que o pássaro come os pedaços de comida jogados pelo garoto Tommy Walters (Graham Verchere). Mas essa falta de consistência alcança também o roteiro, escrito por Zamm e por William Robertson com base, é claro, no personagem criado por Walter Lantz e Ben Hardaway. Motivações e personalidades mudam de acordo com as necessidades da trama, algo sentido principalmente no próprio Pica-Pau — que anuncia Tommy como seu melhor amigo, por exemplo, apenas para alguns minutos depois mostrar-se incerto quanto à palavra.

Pica-Pau Crítica

Essa falta de coerência também é resultante do fato de que Pica-Pau: O Filme consegue ser menos ambicioso do que a franquia original em que é baseado. Tramas como a que vemos aqui — alguém ameaçando a árvore em que o pássaro mora — eram recorrentes no desenho, mas sempre com foco nos esforços do Pica-Pau para manter seu conforto. Aqui, a história ganha um viés ambientalista bagunçado e nada inspirado, ainda que seja, obviamente, importante. O problema é que, tirando essa premissa básica, não há nada no filme que realmente pareça ter a ver com o Pica-Pau irreverente, arrogante e levado que conhecemos, já que até mesmo as peças pregadas por ele parecem versões água-com-açúcar daquelas que acompanhamos no desenho animado.

E os demais personagens também são medíocres, desenvolvidos daquela maneira descuidada e unidimensional típica de filmes como este, que não tem vontade alguma de fazer algo que permanece na mente do espectador por cinco minutos após a sessão. Assim, nem dá para falar nada sobre as atuações de Timothy Omundson, da brasileira Thayla Ayala e de seus companheiros de elenco, já que eles não têm sequer a chance de tentar criar personagens multifacetados. Omundson é o pai divercionado que aprende a deixar o trabalho de lado para valorizar o filho; Ayala é a nova namorada, mimada e bem mais jovem; Graham Verchere é o filho resmungão que não larga o celular; e assim por diante. Consequentemente, os momentos mais emotivos do filme falham espetacularmente, já que toda declaração de sentimento soa vazia.

Pica-Pau: O Filme pode ser um filme infantil, mas isso não é desculpa para menosprezar a inteligência de seu público-alvo. Assim, o resultado final é uma produção que, depois de atrair a audiência com o personagem-título, não tem interesse algum em conquistar o carinho e o envolvimento do espectador, qualquer que seja sua idade.


“Woody Woodpecker” (EUA, 2017), escrito por Alex Zamm e William Robertson a partir do personagem criado por Walter Lantz e Ben Hardaway, dirigido por Alex Zamm, com Timothy Omundson, Thaila Ayala, Graham Verchere, Jordana Largy e Chelsea Miller.


Trailer – Pica-Pau: O Filme

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