Perdido em Marte | “Man” versus Marte

Perdido em Marte é baseado no livor homônimo.

Perdido em Marte é um ode à ciência e ao conhecimento. Trazendo personagens interessantes e complexos liderados por um protagonista fascinante, o longa conta uma história de sobrevivência enquanto o diretor Ridley Scott demonstra, com otimismo, o potencial da humanidade.

Mark Watney (Matt Damon) é integrante de uma pequena equipe de astronautas enviada ao solo marciano para estudar as condições do planeta vermelho. Durante uma expedição, uma forte tempestade surpreende o grupo e, enquanto tentam retornar à espaçonave, Watney é atingido por uma antena que danifica seu uniforme e, dado como morto por seus companheiros, estes se veem obrigados a partir sem ele. Horas depois, o astronauta retoma a consciência e se vê com nível de oxigênio crítico, ferido e sozinho em Marte. Sem formas de entrar em contato com a NASA e com recursos excassos, Watney deve, agora, descobrir um jeito de sobreviver ali até que a próxima missão da agência chegue ao planeta – o que acontecerá dali a três anos.

A partir daí, o filme acompanha a desenvoltura do engenhoso Watney naquele ambiente hostil: utilizando seus conhecimentos como botânico e contando, também, com seu bom humor e inteligência, ele concebe formas de fazer os recursos durarem mais tempo e de entrar em contato com a NASA. O roteiro de Drew Goddard, baseado no livro homônimo de Andy Weir, retrata com excelência a complexidade da agência espacial, mostrando-a como um espaço repleto de pessoas geniais e extremamente competentes. Assim, algumas das sequências mais interessantes de Perdido em Marte são as que trazem os funcionários da NASA estudando maneiras de ajudar Watney que, no planeta vermelho, coloca as ideias em ação – e a montagem de Pietro Scalia intercala os dois ambientes com perfeição, traduzindo o dinamismo da narrativa.

Dinamismo este, aliás, que está centrado na construção do protagonista – e, consequentemente, no carisma de Matt Damon. O ator transmite de forma natural a personalidade de Watney, algo essencial para que o espectador sinta que conheça o protagonista mesmo que tenhamos virtualmente nenhuma informação sobre sua história de vida. Isso acontece também com os demais personagens: desde o primeiro momento em que aparecem trabalhando juntos, o companheirismo e a lealdade entre a equipe da Ares 3 fica claro. Informações sobre os demais integrantes da equipe também são revelados aos poucos, apenas quando surgem naturalmente durante a projeção (quando quando descobrimos que Lewis e Martinez são militares). Jessica Chastain comanda a tela com segurança como a líder da equipe, enquanto Michael Peña surge divertido e carismático como de hábito. Kate Mara e Aksel Hennie também se mostram competentes, enquanto Sebastian Stan não tem muito o que fazer mas, pelo menos, compartilha a dinâmica do grupo.

Perdido em Marte Crítica

Já na Terra, o roteiro de Goddard demonstra sua inteligência ao ilustrar os funcionários da NASA como figuras complexas que, por mais que queiram – e muito – trazer Watney de volta para casa, precisam agir com cautela e, muitas vezes, considerar opções que pareçam mais lentas. Assim, é brilhante a percepção de que, em uma história envolvendo riscos tão grandiosos quanto estas, não precisamos de um personagem atuando como antagonista – o diretor da agência vivido por Jeff Daniels, portanto, é alguém cujas atitudes compreendemos, afinal, há muitas obrigações – e pessoas – que ele deve considerar antes de aprovar certos planos.

Ridley Scott, por sua vez, retrata Marte em um ambiente hostil, dominante e fascinante, algo capturado também pelo 3D que traz o planeta em foco profundo, o que o torna ainda mais majestoso e constrói, também, um contraste com a opressividade da pouca profundidade de campo dos planos fechados. Tecnicamente, o filme peca apenas ao tornar óbvio demais o uso de um dublê para o corpo debilitado de Watney: na cena em questão, seu rosto é escondido em uma tentativa óbvia e falha de “esconder” o truque. Isso, porém, não diminui a inteligência da narrativa ao, por exemplo, utilizar a música que embala o final da projeção como forma de encerrar uma piada que percorre toda a trama.

Acertadamente investindo na diversidade de gênero, etnias, nacionalidades e crenças (repare na resposta do personagem de Chiwetel Ejiofor à pergunta “você acredita em Deus?”), Perdido em Marte retrata de forma igualitária seus personagens. Isso é essencial para a imagem otimista que o filme tem da humanidade já que, para que possamos trabalhar juntos da forma que acontece aqui, a diversidade e o respeito a ela é essencial – e, deixando um pouco de lado o patriotismo norte-americano, o longa consegue até mesmo encontrar espaço para dar à equipe espacial chinesa sua devida importância à missão da NASA. Absurdamente sozinho, Watney declara conseguir sentir a força de toda a população da Terra o ajudando e, como espectadores, sentimos o mesmo. Aqui, a ciência e o conhecimento são mais fortes do que guerras, conflitos e preconceitos.

E este é, definitivamente, um filme que transborda o amor pela ciência e pelo conhecimento , o que contagia o espectador. Perdido em Marte é, portanto, uma produção corajosa, importante e que representa o que o ser humano tem de melhor: a tenacidade, a curiosidade e o desejo incontrolável de sobreviver.


“The Martian” (EUA, 2015). escrito por Drew Goddard, à partir do livro de Andy Weir, dirigido por Ridley Scott, com Matt Damon, Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Chiwetel Ejiofor e Sebastian Stan


Trailer – Perdido em Marte

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1 Comment

  1. Nossa! Há tempos não sinto vontade de ir ao cinema… esse filme, e esse texto me fizeram querer ir.

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