Patti Cake$ poderia ser facilmente resumido como uma mistura entre Preciosa: Uma História de Esperança ( de Lee Daniels) e 8 Mile: Rua das Ilusões (aquele do Eminem, de 2002). E qualquer um que tenha assistido a esses dois longas irá se identificar com o drama dos jovens artistas anônimos nas periferias das cidades grandes, rejeitados automaticamente pelas autoridades locais como vagabundos perdidos na sociedade.

Porém, enquanto Preciosa e 8 Mile parecem se limitar em um drama vitimista com moral de superação, Patti Cake$ adota uma postura alto-astral. Poderia isto ser fruto de uma sociedade que rapidamente enriqueceu nesses 10, 15 anos, e se não espiritualmente, ao menos financeiramente? O filme deixa claro que há, sim, alguns problemas financeiros para a jovem Patti e sua família, mas pior do que eles é não poder viver seu sonho.

E seu sonho é ser uma rapper de sucesso, respeitada, amada, adorada… glorificada. Como seu maior ídolo: O-Z (Sahr Ngaujah).

O movimento rap tem vários significados, conotações e etimologias. Alguns dizem que é um acrônimo para Ritmo e Poesia (do inglês “Rithm and Poetry”). Outros que o “R” tem mais a ver com rimar. E alguns usam ainda outros significados mais obscuros para um termo que virou sinônimo de um gênero musical: o Hip Hop.

Aos meus quinze anos, quando eu ouvia desde Racionais MCs, a referência oficial no Brasil, até obscuridades da época, como De Menos Crime (antes de seu hit “Fogo na Bomba”), o rap tinha a clara conotação de música marginalizada que combatia o sistema vigente através de suas letras e ritmos experimentais. Isso, através da junção de diferentes gêneros musicais e mixagens “estrábicas” que conseguiam harmonizar canto gregoriano, Beethoven, MPB e pagode de raiz. O movimento, se espalhando facilmente pelo mundo, parece ter por definição nunca conseguir se definir. E é em sua anti-definição que ele mais brilha, como um dos representantes mais underground da contra-cultura.

Dentro dessa ideologia, o que faria menos sentido no mundo é um filme com uma produção razoável sobre uma rapper marginalizada pelas condições de seu tempo: branca, loira, obesa, pobre e tímida. Porém, sendo justamente a poesia dentro dessa ideologia a força motriz que transforma a realidade opressora do artista em combustível para a criação dos seus melhores trabalhos, e a contradição inerente de suas criações, com o objetivo de alertar a humanidade do perigo da padronização (a “ovelhização”, como cantado no filme), não há nada de errado em vivermos o sonho junto de Patti e seus amigos, já que este sonho representa tudo o que eles com certeza não conseguirão em suas pouco esperançosas vidas.

Patti Cake$ Crítica

O longa do estreante Geremy Jasper se insere como se deve nesse universo. Iniciando dentro do sonho de Patti com o formato de um show inesquecível, a realidade da garota é colorido com suas próprias letras descrevendo sua situação, mas sempre com um impulso otimista sobre como ela superou os obstáculos e chegou onde chegou. Ela se vê retornando às origens que nunca saiu, cantando vitória e demonstrando uma auto-confiança invejável para qualquer ser humano naquela situação. Dessa forma, no ritmo de vídeo-clipes, câmera lenta e estilização da pobreza, a trilha sonora é cantada por ela mesma e sua banda, em um trocadilho de suas origens na periferia de Nova Iorque, Nova Jérsei: PBNJ (as composições ficaram por conta de Jason Binnick e do diretor do filme). Essa seria a única narrativa aceitável para esta história, a que não trai o movimento. Ela vive no sonho, o sonho faz parte do filme e o filme é sobre esse sonho. Qualquer licença poética está liberada (como as coincidências da história que você com certeza irá localizar).

Toda a história do filme possui uma cadência contagiante justamente por conta dessa narrativa pseudo-realista. Nos damos conta que o filme é um sonho de onde Patti não quer acordar. E não podemos julgá-la. Tendo que trabalhar em bicos ingratos para ajudar sua mãe a custear o tratamento da avó que começa a sofrer a decadência do Alzheimer, o momento em que ela realmente se liberta é compondo suas letras, e nas ruas improvisando sua arte. Como uma repentista urbana, Patti transforma sua realidade, por mais barra pesada que seja, em poesia musical.

A performance de Danielle Macdonald está arrebatadora. Assim como suas músicas. Há pouquíssimos momentos que podemos distinguir a atriz de seu personagem, ou ambas de uma possível personagem da vida real. Talvez a única pista seja que ela tem um “verdadeiro” talento em improviso que soa talentoso demais para ser verdade. Mas, pense a respeito: quantos talentos estão perdidos pelas ruas? Talentos esses que nunca ouviremos a respeito. Este conto não é tão irreal quanto parece.

O momento que resume este longa-video-clipe em formato de filme (e cuja história você não precisa saber muito) é quando, em um momento auto-reflexivo do próprio filme, é dito que um quadro na parede, comprado por 2,4 milhões de dólares, foi uma ninharia, pois o que está ali representa de maneira autêntica toda a dor e violência do artista que o criou. Conseguir representar em cada linha, cada cor e cada forma a insanidade da existência humana, e ainda imprimir em alguns centímetros quadrados toda a dor resultante deste esforço, é o verdadeiro paradoxo.

Assim como é um paradoxo entender que as maiores obras de arte talvez precisem da dor lancinante e do sofrimento intenso de seus criadores, que apenas buscam um lugar ao sol em suas existências sem sentido. Seria essa busca que gera algum significado ou é a própria vida, que está ali apenas para ser interpretada por um artista que nasce através dessa dor?


“Patti Cake$” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Geremy Jasper, com Danielle Macdonald, Bridget Everett, Siddharth Dhananjay, Mamoudou Athie, Cathy Moriarty


Trailer – Patti Cake$

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