por Vinicius Carlos Vieira em 14 de Março de 2011

Ainda que continuem com a mania divertida de maltratar seus personagens, idiotizando-os e colocando-os nas situações mais constrangedoras e embaraçosas possíveis, em “Passe Livre”, os irmãos Farrelly acabam tentando criar um produto que não condiz com as possibilidades que ousaria ter (muito menos com a coragem de ser politicamente incorreto do início da carreira dos diretores), e só isso, infelizmente, já impede totalmente do filme deslanchar, frustrando mais uma vez os fãs da dupla.

Nele, Owen Wilson e Jason Sudeikis (mais uma cria do celeiro Saturday Night Live) são dois caras de meia idade, corretores (um de imóveis outro de seguros) que vivem suas vidas suburbanas e chatas com suas esposas e casas de classe média, mas que, diferentemente da maioria (ou não, talvez seja isso que o filme queira mostrar) ainda vivem com saudade daquele tempo onde podiam fazer o que desse em suas telhas, olhar para a mulher que quisessem, e falar a quantidade de besteira que lhes fosse conveniente, até que suas mulheres, cheias de tudo isso, acabam lhe dando o tal do “passe livre” do título: uma semana de férias de qualquer obrigatoriedade do casamento.

Bem verdade, o roteiro escrito pelos diretores em parceria com Kevin Barnett (que já tinha acompanhado-os no fraco “Antes Só do que Mal Casado”) e Pete Jones, falha logo na idéia inicial não só por tomar um lado, mostrando que os homens não sabem o que fazer com essa liberdade enquanto suas mulheres acabam se saindo muito melhor, mas sim por não apostar em um humor mais fácil, menos cínico e sutil, justamente indo contra aquele mesmo que marcou o início da carreira dos diretores em “Quem vai Ficar com Mary” e “Debi & Loide”. Aquele humor muito menos preocupado com a obrigação de deixar uma lição de moral para ser discutida na segunda metade do filme (além de um final otimista com cara de comédia romântica).

Isso fica mais claro ainda quando “Passe Livre” não tem vergonha de ser idiota e politicamente incorreto, acabando por funcionar nesses raros momentos, principalmente com a ajuda do próprio roteiro (e do trabalho da dupla de atores) no começo do filme, quando é obrigado a apresentar os protagonistas e não economizar nos diálogos cheios de absurdos e nas situações constrangedoras (meio repetitivas até, mas é impossível não se divertir com a sequencia das câmeras de segurança e não achar graça na quantidade de ofensas morais dos dois).

No resto do tempo, “Passe Livre” acaba ficando refém não de uma sexualidade assumida que o filme poderia ter (afinal de contas as idéias dos dois, tantos dos diretores, quanto dos protagonistas, são sempre ligadas a sexo), mas sim de duas piadas ligadas a fezes (ultrajantes e desnecessárias), um close em um pênis enorme (e depois em um minúsculo), um personagem que vai ganhando ferimentos no decorrer do filme e uma trama que ruma para um desfecho óbvio. Pior ainda, até a presença de um quarteto de amigos coadjuvantes (que sempre são a válvula de escape verborrágica para um monte de piadas em qualquer comédia que se preze) é colocada de lado e desperdiçado.

Aqui um parêntese, em uma amostra que os irmãos Farrelly ainda têm “bala da agulha”, “Passe Livre” acaba mostrando, depois do fim em uma espécie de cena pós créditos que não demora a aparecer (e talvez também na resolução do personagem de Sudeikis logo antes), o quanto a idéia do “passe livre” poderia ser engraçada quando, justamente, o coadjuvante britânico vivido por Stephen Marchant (parceiro do genial Rick Gervais, e que também escreveu com ele “Caindo no Mundo”, além de ser o maior dos desperdícios do filme do Farrelly) tem um vislumbre de onde sua “aventura”. Infelizmente mais que tarde para salvar o filme.

A conclusão, é que, bem diferente dos dois protagonistas de “Passe Livre”, a dupla de diretores que atendem pela alcunha de Irmãos Farrelly (mais precisamente Bobby e Peter), cresceu, deixou de dar risada daquelas mesmas besteiras que tanto os divertiam no começo de sua carreira e, a cada filme, se tornam cada vez mais uma dupla chata, que acredita piamente em um humor que passa bem longe daquele que lhes deu um mínimo de reconhecimento.

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Hall Pass (EUA, 2011), escrito Pete Jone, Peter Farrelly, Kevin Barnett e Bobby Farrelly, dirigido por Peter Farrelly e Bobby Farrelly, com vozes (no original) de Owen Wilson, Jason Sudeikis, Jenna Fischer, Christina Applegate, Richar Jenkins, Stephen Merchant, Nicky Whelan e Larry Joe Campbell.

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