Confiando na inteligência do espectador ao mesmo tempo em que o mantém duvidando de si mesmo praticamente o tempo todo (o que também acontece com os personagens), Os Suspeitos monta seu quebra-cabeças de forma lenta e sutil, sem deixar nenhuma peça faltando, e acerta ao focar em seus personagens e nos efeitos que o crime tem em todos os envolvidos.

No dia de Ação de Graças, as pequenas Anna Dover e Joy Birch desaparecem. Por terem sido vistas brincando perto da van de Alex Jones (Paul Dano), ele é rapidamente identificado como suspeito, mas, após perceber que o jovem tem a mentalidade de um garoto de dez anos e sem outras pistas que o incriminem, o Detetive Loki (Jake Gyllenhaal) não tem escolha senão liberá-lo, para desespero de Keller Dover (Hugh Jackman), pai de uma das criança. Certo de que Jones é o culpado, ele então o mantém em cativeiro e o tortura na esperança de que acabará revelando o paradeiro das garotas.

Dirigido pelo canadense Dennis Villeneuve (Incêndios), e auxiliado pela fotografia sempre genial de Roger Deakins (de Operação Skyfall e Bravura Indômita) o filme então aproveita ao máximo suas locações, até mesmo ao investir em um tempo instável (mas sempre frio e cinzento), com rápidas e bruscas pancadas de chuva e neve, que refletem a instabilidade e o desconforto de seus personagens, efeito alcançado também pelos constantes quadros fechados. Assim, quando a câmera se aproxima lentamente de um tronco em uma tomada próxima ao momento em que as meninas desaparecem, o espectador é tomado da mesma sensação de aprisionamento que alcança, de diferentes maneiras, aquelas pessoas: as garotas desaparecidas; os pais desesperados, principalmente Keller, que comete um crime buscando a solução de outro; Loki, pressionado por Keller (e por si mesmo) a solucionar um caso cada vez mais complexo; e Jones, “pagando” por um crime que pode ou não ter cometido.

Investindo na contraluz e utilizando bem até mesmo o recurso do fade out (o que geralmente indica a falta de criatividade dos montadores, mas que aqui é utilizado quando não nos resta nada a ser visto e em que podemos preencher as lacunas), Os Suspeitos consegue criar um clima de suspense constante de forma magistral, construindo uma tensão constante que cresce em momentos pontuais, sem com isso enganar o espectador ao tentar dar importância ao que não tem (destaca-se, assim, a belíssima sequência que traz Loki, desesperado, dirigindo um carro em uma noite chuvosa).

Além disso, o excelente elenco desta obra é essencial, devido, principalmente, à importância de nossa conexão com os personagens. Hugh Jackman se sai muitíssimo bem ao não exagerar em sua interpretação das diversas e conturbadas emoções e sentimentos de Keller, e ao perceber que o que o motiva em sua tortura de Jones é unicamente a preocupação e o desespero em relação ao desaparecimento de sua filha, e não um oculto lado cruel, que sente prazer em causar dor a outro ser humano. Enquanto isso, o personagem de Jake Gyllenhaal pede uma performance mais contida que o ator entrega com excelência, construindo Loki como um homem introspectivo e que, mesmo ávido por fazer um bom trabalho, está ciente das limitações da polícia (como indica sua expressão ao repetir a frase “Estamos considerando todas as possibilidades” em sua primeira conversa com Keller) e que demonstra seus tormentos internos de forma sutil através de piscadas constantes. Terrence Howard, inicialmente ajudando o amigo, mas cada vez mais em dúvida de que aquele é o melhor caminho a ser tomado, e Viola Davis, silenciosa devido ao choque sofrido, também fazem um belo trabalho como Franklin e Nancy Birch, e Maria Bello é hábil no papel de Grace Dover, que, além do desaparecimento da filha, também tem que lidar com o comportamento instável do marido.

Os Suspeitos Filme

E não é à toa a obsessão de determinados personagens por labirintos, já que o excelente roteiro de Aaron Guzikowski constrói um complexo quebra-cabeças não apenas para os personagens, mas para o espectador, colocando Os Suspeitos ao lado de obras-primas dos thrillers como Zodíaco, Se7en, O Silêncio dos Inocentes e Sobre Meninos e Lobos.

Mostrando-se, assim como o caso que retrata, cada vez mais complexo, o longa amarra suas pontas de forma brilhante ao não entregar um final mastigado, mas que explica tudo o que é necessário, e ao conseguir construir um quadro maior do que inicialmente imaginado, mas que não depende de coincidências forçadas para funcionar, já que as pistas são espalhadas de forma sutil desde o início. E a atenção aos detalhes encontra-se também na construção dos personagens, que tem sua personalidade construída através de comentários rápidos e casuais, como o fato de que Nancy é veterinária e de que Loki passou a infância eu um orfanato, ou a devoção religiosa de Keller, já clara ao vermos o crucifixo que ele usa no pescoço.

Discutindo temas como abuso físico e psicológico, tortura e religiosidade, Os Suspeitos brilha também ao levantar complicadas questões morais e debatê-las com cuidado e sem cair no melodrama ou no maniqueísmo. Assim, o desenrolar da trama consegue até mesmo, de forma sutil, julgar algumas das medidas tomadas por seus personagens.

Já em seu primeiro plano, em que um cervo circula em meio às árvores e, com o afastamento da câmera, vemos as armas de Keller e seu filho apontando para ele, Os Suspeitos constrói uma tensão que se mantém até a excelente conclusão, estabelencendo-se não apenas como o melhor filme de suspense ou policial do ano, mas, simplesmente, um dos melhores lançamentos de 2013.


Prisoners, escrito por Aaron Guzikowski, dirigido por Denis Villeneuve, com Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Maria Bello, Terrence Howard, Viola Davis, Paul Dano e Melissa Leo.


Trailer do filme Os Suspeitos

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

5 Respostas

  1. Anoni

    MEU DEUS, CADE O FINAL DO FILME,A RESOLUÇÃO? O PAI DA ANNA SAIU DO BURACO? FILME QUE NAO TEVE FIM

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  2. Sara Santos

    Lívia, joy diz que keller “estava lá” creio que ela se referia ao lugar, no caso a casa da holly. Por isso, lá é o primeiro lugar que ele vai depois que ela diz isso. talvez ela o viu saindo ou escutou sua voz.

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  3. Lívia

    Oi! Eu não entendi uma parte. A Joy parece lembrar dos pais da Anna quando ela estava no cativeiro. Vocês poderiam me explicar isso? Obrigada!

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    • Vinicius Carlos Vieira

      Lívia… te confesso que não recordo exatamente desse detalhe do filme para poder te explicar. Então, caso alguém possa fazer isso, ajude ai a gente!

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