Depois de quase quatro anos após ganhar o Festival de Brasília em 2013, chega nas telas Os Pobres Diabos, um filme onde provavelmente sua melhor parte é a primeira cena, que evoca O Palhaço (Selton Mello, 2011), com seu clima de desesperança poética nordestina de Graciliano Ramos e José Lins do Rêgo, uma trilha sonora inspirada em temas de circo com um toque de melancolia, e possivelmente um road movie. Toda essa promessa, infelizmente, dá entrada para um show de clichês cujo objetivo, diferente do circo mais humilde, está muito longe de entreter e muito próximo de virar propaganda ideológica da pior espécie: a que se coloca acima do seu conteúdo artístico.

Mas chamar este filme de propaganda ideológica chega a ser um elogio, já que sua história é um fiapo novelístico da pior espécie. Envolve a chegada de um circo itinerante caindo aos pedaços em uma cidadezinha minúscula. Eles montam sua lona bem distante, em um terreno baldio para não ter que pagar o caro aluguel de um terreno na cidade, o que de início já não faz muito sentido, se trata-se de uma cidade pequena e pobre. Menos sentido ainda é um eletricista da empresa de energia local vir fazer a instalação temporária para os itinerantes, e de uma paisagem desértica brota um poste de luz. E ao fundo vemos um inusitado “product placement” que é um vexame: moinhos de vento de energia eólica. Faltou apenas um letreiro com um slogan desses do governo. Brasil: um país de vento.

Aos poucos vamos acompanhando o drama financeiro e emocional daquela trupe. O dono do circo mantém uma paixão platônica pelo homem forte, que assume-se leão-de-chácara com uma ingenuidade quase tocante. Sua irmã, assim como vários personagens secundários, é uma coadjuvante que está lá para fazer volume e servir de ouvinte para os diálogos insossos que seu irmão profere. Há uma anã (ou seria um anão?) particularmente conveniente em um pequeno auto que é interpretado durante o espetáculo, por fazer o papel de narradora. A “musa” do circo é interpretada por Sílvia Buarque (filha de Chico), e a sua dança de La Cucaracha (e canto, com sua própria voz) será a única coisa que provavelmente você levará de lembrança deste filme (e que certamente gostaria de apagar da memória). Seu “marido”, interpretado por Gero Camilo, é assim como todos um personagem incompleto que parece ter uma profundidade que nunca é revelada. Seu papel aos poucos vira o de corno manso, que cuida de sua cabra como se fosse parente — um animal, não a esposa — e assobia quando está chegando em casa. Duas vezes.

Alias, a “cena do corno”, que o diretor/roteirista Rosemberg Cariry resolveu inserir duas vezes no filme sem qualquer justificativa, é a que começa a instigar o espectador a imaginar que tudo aquilo que vimos na história parece tão real quanto o próprio auto do Lampião no Inferno. Tudo vai se tornando uma versão abominável sobre pobreza, religião, política e destino que com certeza os espectadores humildes dessa cidadezinha não estariam nem um pouco interessados em assistir, o que me leva a crer que não deve ter realmente nada para fazer nesse lugar. Nem um sorvete na praça.

Os Pobres Diabos Crítica

Há também alguns personagens caricatos na cidade, como a esposa do eletricista, que é uma religiosa sisuda que – adivinhem – “surpreendentemente” se revela quando vai ao circo. Aliás, nada é surpreendente neste longa, exceto o seu declínio cada vez mais profundo nas qualidades técnicas, narrativas e artísticas. O design de som será o primeiro a ser sentido, pois há vários momentos onde não é possível entender o que os personagens estão dizendo (o que pode ser uma coisa boa), e outros momentos que entendemos praticamente tudo, mas o som parece gravado em estúdio, o que soa insuportavelmente artificial. Quando chega a este nível é algo triste se comparado com a primeira cena, flertando com um drama épico em meio ao clima desértico do Nordeste. Mas que ledo engano.

O “clímax” do Os Pobres Diabos envolve um baque psicológico em todos do circo, e provavelmente uma grande vergonha alheia para todos os espectadores que ainda estiverem assistindo. Não irei revelar aqui, mas quando começar, você já irá perceber uns 20 minutos antes. E o resto da história não poderia ser mais arrastada. Nada pior para um espetáculo do que revelar seus truques minutos antes deles acontecerem. No caso de Os Pobres Diabos, talvez se o filme durasse apenas isso – minutos ao vento – ele teria sido mais palatável.


“Os Pobres Diabos” (Brazil, 2013), escrito e dirigido por Rosemberg Cariry, com Sâmia Bittencourt, Sílvia Buarque, Gero Camilo, Georgina Castro, Chico Díaz


Trailer – Os Pobres Diabos

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