É curioso saber que Os Oito Odiados quase não saiu do papel. O vazamento do roteiro na internet fez Quentin Tarantino desistir de filmá-lo, mas a reação a uma leitura aberta do material acabou convencendo-o do contrário. Para sorte dele, de seus fãs e do cinema. Principalmente para a sétima arte, que perderia uma obra contundente, pertinente e poderosa.

O oitavo filme de Tarantino (como é alardeado a todo momento e até no título), não tem nada do realismo fantasioso de Bastardos Inglórios e nem da miscelânea de referências que empurra Django Livre, Kill Bill e Pulp Fiction, seus Os Oito Odiados vai lá atrás beber na fonte de Cães de Aluguel em termos de estrutura, mas faz mais do que isso, vai na própria história de seu país para buscar sua maior inspiração.

Mais do que qualquer coisa, Os Oito Odiados é uma alegoria sobre o nascimento de uma nação, um país que aceitou crescer baseado em esteriótipos que deixaram um legado violento que perdura até hoje. Pilares formados à partir de uma Guerra Civil que juntou um país dividido, mas separou o território em muito mais partes do que imagina.

Tarantino então compacta esse “novo Estados Unidos” nessa cabana no meio do nada durante uma nevasca que os deterá durante alguns dias. O lugar parece ser um ponto de parada perto da cidade de Red Hook, que aparenta ser o destino da maioria do personagens, ainda que todos estejam ali por razões completamente diferentes. Um caçador de recompensas, uma assassina, um xerife com um passado violento, um veterano de Guerra do sul escravista e um veterano negro, um mexicano misterioso, um carrasco e, por fim, um cowboy clássico de pouco papo.

Uma oportunidade de discutir racismo, pena de morte, pecados de guerra, moral, o “american way of life” e violência desenfreada. Nas mãos do melhor escrito de diálogos do cinema, tudo isso vira uma jóia lapidada para parecer verborragia, mas que mastiga cada um desses assuntos como um grande e mal passado filé. Um daqueles que faz o prato empossar um caldo vermelho a cada corte. E é exatamente isso que Tarantino quer: expor essas feridas enquanto faz o que sabe fazer de melhor.

E o que ele faz de melhor é tão saboroso quanto esse filé. Principalmente com um elenco tão interessante e uma trilha sonora tão incrível.

Entre os oitos odiados, ninguém sai por baixo, e até o mais fraco Michael Madsen é tão bem usado que seus defeitos de atuação criam essa espécie de John Wayne de olhos baixos e atitude blasé. Samuel L. Jackson parece se inspirar em si próprio (na verdade no seu Jules de Pulp Fiction) e tem a oportunidade de gritar de todo seu pulmão uma série de monólogos incríveis, violentos, mal educados e hipnotizantes. Já Tim Roth, por um momento parece se perder em uma imitação esquisita de Christoph Waltz. Mas o show é de uma só pessoa: Jennifer Jason Leigh.

Leigh, que é um dos poucos do elenco a não terem trabalho com Tarantino antes (junto de Demián Bichir e Bruce Dern) aproveita não só os momentos dados a seu personagem, como rouba a cena a cada vez que aparece na tela. Como se estivesse tomada por uma força que a faz reagir, olhar e sentir o que cada um está falando ao seu lado. E o mais incrível ainda, com cada detalhe de sua atuação servindo para pontuar algumas surpresas do roteiro. Leigh faz um daqueles trabalhos que automaticamente se tornam clássicos e entram lá no topo da lista de inesquecíveis do diretor.

Os Oito Odiados Crítica

E falando em clássico, esse adjetivo é talvez o que mais sobre no trabalho do maestro italiano Ennio Morricone em mais um trabalho com Tarantino. Para um dos pais do “Spaguette Western” (afinal, sem suas trilhas, os bons, maus e feios de Sergio Leoni seriam bem menos clássicos) é a oportunidade de voltar ao velho oeste, e isso ele faz de modo primoroso. Para o diretor, o que sobra é a obrigação de deixar espaço para Morricone trabalhar, então em um filme onde grande parte de sua ação acontece sem música, Tarantino permeia dois pontos de sua trama com tempo suficiente para o espectador degustar cada acorde de um dos mestres do cinema.

É justamente nesses dois momentos que Tarantino mostra o quanto tem o controle narrativo de sua história e sabe exatamente onde quer chegar, (E aqui com um pequeno spoiler) indo atrás de suas próprias raízes, em seu primeiro filme, para buscar inspiração em um flashback que reconstrói todas suas impressões. Um passo no passado que mostra o quanto até o próprio espectador nem sabia para onde estava olhando. Não sabia para quem estava olhando sob o braços de uma figura crucificada por seu pecados e com o peso da neve sobre seus ombros.

Mas tudo isso, a trilha de Morricone, o elenco incrível, a estética do diretor (que fez questão até de filmar em 70mm, como os grandes clássicos… coisa que infelizmente se perderá nos multiplexes digitalizados) e uma reviravolta de explodir cabeças, não estaria completo sem a violência quase cômica de Quentin Tarantino. “Quase cômica”, pois chega a um lugar tão longe, sanguinolento, exagerado e contundente que soa como uma sádica dança onde ao final todos estão cobertos de sangue. E nesse caso, literalmente falando.

E talvez seja isso que Tarantino mais busca: deixar seu espectador ir embora do cinema se sentindo meio sujo, ainda digerindo um soco no estômago que expõe suas entranhas, suas dúvidas, medos e (poucas ou nenhuma) certezas. Uma experiência que propositalmente se permite ser longa e por vezes arrastada (como enquanto observa dois personagens infincando estacas no chão tomado pela neve), mas que, ao mesmo tempo, enclausura seu espectador em um cenário onde não há escapatória nem esperança. Uma pequena peça de teatro onde o sangue e as verdades respingam na plateia e não permitem que ninguém saia dela do mesmo jeito que entrou.


“The Hatefull Eight” (EUA, 2014), escrito e dirigido por Quentin Tarantino, com Samuel L. Jackson, Kurt Russel, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Channing Tatum e Bruce Dern


Trailer – Os Oito Odiados

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