por Mariana González
07 de março de 2018

Os Farofeiros parece acreditar que, por reconhecer-se enquanto “comédia apelativa”, isso imediatamente a coloca em um patamar acima de seus colegas de gênero. Entretanto, o longa não faz nada com esse suposto autoentedimento, limitando-se a investir em piadas repetitivas, estupidamente exageradas, óbvias e, pior ainda, absurdamente sem graça. O resultado é uma produção que, por achar-se mais esperta do que suas antecessoras, mostra-se ainda pior.

O longa tem início in media res, com o filho do casal principal dividindo com sua turma, no primeiro dia do novo ano escolar, a sua redação sobre as férias de verão. Ele não hesita em declarar que foram as piores férias do mundo. Conhecemos, então, os pais do garoto: Alexandre (Antônio Fragoso), que acaba de ser promovido a gerente, e sua esposa, Renata (Danielle Winits), que trabalha em uma revista feminina. Quando eles descobrem que não poderão passar o Réveillon em Búzios com a família dela, Alexandre decide aceitar o convite de seu colega de trabalho, Lima (Maurício Manfrini), que alugou uma casa aparentemente incrível na praia com a esposa, Jussara (Cacau Protásio) — outros dois colegas, Diguinho (Nilton Bicudo) e Rocha (Charles Paraventi), e suas respectivas companheiras, Elen (Aline Riscado) e Vanete (Elisa Pinheiro), também foram convidados. Logo, porém, eles descobrem que as férias deles estarão longe de ser tão tranquilas e relaxantes quantos eles esperavam.

As tais confusões e desventuras envolvem muitas gritarias, situações escatológicas, gritarias, xingamentos, ciúmes, desentendimentos, gritarias, reclamações e… já falei gritarias? Os demais personagens podem até parecer bastante calmos quando comparados a Danielle Winits, que parece incapaz de dizer uma única palavra sem elevar o tom de voz, mas a verdade é que não faz muita diferença quem está falando o que ou para quem, já que o roteiro assinado por Paulo Cursino jamais consegue estabelecer a personalidade dessas pessoas além dos mais básicos estereótipos e clichês. Ok, há tentativas, como a hipocrisia de Renata ou o fato de que Elen (Aline Riscado), que imediatamente conquista o ódio das demais mulheres apenas por ser jovem e atraente, é de longe a única pessoa decente e gentil da casa. Entretanto, como cada ocasião minimamente mais emotiva é anunciada por uma trilha sonora melosa e insuportável, torna-se impossível envolver-se com qualquer um dos personagens.

O tratamento que Elen recebe por parte das outras mulheres — vista apenas como uma ameaça — e por parte do próprio diretor, Roberto Santucci — cuja câmera de imediato sexualiza a jovem — é apenas a ponta do iceberg da misoginia escancarada de Os Farofeiros. Renata, Jussara e Vanete são daquele tipo de esposa de filme que parecem existir apenas em função do marido, que, é claro, é o chefe da casa; além disso, elas entregam-se frequentemente a brigas bobas que parecem apenas acontecer por que, bem, mulheres são loucas, não é? O filme certamente acredita que sim.

Há em certo momento até uma tentativa de discutir isso por meio do personagem de Rocha, mas o próprio filme abraça o problema ao, por exemplo, fazer com que a filha adolescente dele exista apenas para dar vazão ao machismo do pai. Enquanto isso, o conflito entre os homens é motivado por trabalho, algo que, com exceção de Renata, sequer é mencionado em relação às demais mulheres. Enquanto isso, a tristeza de Diguinho pelo fim de seu longo casamento e por estar longe dos filhos é tratado como piada, já que Santucci e Cursino parecem achar ridículo o fato de um homem demonstrar sentimentos sinceros.

Ah… e como você poderia esperar, a produção ainda consegue encontrar tempo para incluir ainda algumas piadinhas homofóbicas.

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E tudo isso torna-se ainda pior, pois cada piada de Os Farofeiros estende-se além da conta, fazendo com que mesmo aquelas que de início até parecem que serão minimamente eficientes logo saiam de controle. É o caso, por exemplo, da cena em que o grupo vai ao cinema assistir a uma paródia de Minha Mãe é uma Peça, ao que Renata reclama que comédias nacionais são sempre muito “apelativas” — Alexandre defende-as, declarando que elas são “só para fazer rir”.

Há depois disso,  então, um momento que quase — quase — funciona, mas que no segundo seguinte é derrubado pela necessidade que Santucci encontra de incluir mais algumas linhas de diálogo à gag. Outro exemplo é a cena envolvendo a “piscina verde”, que remete a filmes de terror — e poderia fazer isso de maneira divertida se o diretor tivesse mais controle sobre a estética e o ritmo de seu filme. Afinal, um dos maiores problemas da obra é a falta de dinamismo entre o todo; cada acontecimento parece acontecer de forma isolada, como se o longa fosse apenas uma série de sketches exibidos em sequência.

Como se não bastasse, o longa ainda tenta fazer seus personagens aprenderem grandes lições de vida e mudarem seus comportamentos problemáticos em uma única cena, dando abertura ainda para continuações (por favor, não!). Assim, Os Farofeiros tenta ir além das demais comédias nacionais “apelativas”, mas falha por repetir exatamente a mesma fórmula sem oferecer nada de novo que funcione. O resultado final é uma bagunça que estende-se por inacabáveis duas horas.


Os Farofeiros” (Brasil, 2018), escrito por Paulo Cursino, dirigido por Roberto Santucci, com Antônio Fragoso, Danielle Winits, Maurício Manfrini, Cacau Protásio, Charles Paraventi, Elisa Pinheiro, Nilton Bicudo e Aline Riscado.


Trailer – Os Farofeiros

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