Depois do excelente thriller psicológico A Pele que Habito, Pedro Almodóvar retorna às comédias rasgadas do início de sua carreira com Os Amantes Passageiros, que pode não ter lugar em uma lista de melhores filmes do cineasta, mas diverte e é, de certa forma, Os Amantes Passageiros Posterinovador.

Sua história, gira em torno de uma falha técnica em um avião que partiu de Madrid com destino à Cidade do México que o deixa impedido de pousar, obrigando-o a voar em círculos esperando que os controladores achem uma pista livre para que possa descer. Traumatizados por um ataque de pânico de um passageiro, que resultou na morte deste, em um voo anterior, os comissários têm então várias estratégicas para manter os passageiros calmos.

Forçados a ficar em um espaço fechado na companhia de estranhos por muito mais tempo do que o planejado, os passageiros da classe executiva e uma virgem vidente da classe econômica (cujos passageiros as aeromoças drogaram com relaxantes musculares para que dormissem durante toda o voo) logo começam a revelar seus segredos, desejos e histórias.

O humor é propositalmente forçado, o que é enfatizado pelas cores claras e fortes, com muito vermelho e azul, e pela iluminação estourada, que dão um ar de artificialidade ao longa. Já a instabilidade do voo – e das próprias pessoas ali presentes – são acentuadas através de ângulos inclinados (a câmera, muitas vezes, até muda de ângulo em pleno plano). É interessante perceber, portanto, como Almodóvar (que também assina o roteiro) utiliza esse clima artificial para tratar com naturalidade de temas ainda, absurdamente, considerados tabu por muitos, como homossexualidade, bissexualidade e sexo.

Os três comissários de voo são homossexuais assumidos; um dos pilotos é bissexual e, casado com uma mulher e com filhos, tem um caso com um dos comissários; o outro piloto é um bissexual no armário; a dominatrix Norma (Cecilia Roth) diz ter tido como clientes todos os 600 homens mais importantes da Espanha. Sob efeito de álcool e uma droga que aumenta a libido, o sexo rola nos banheiros, na cabine dos pilotos e mesmo nas poltronas da classe executiva, e Bruna (Lola Dueñas) tem sua primeira vez com um homem adormecido na classe econômica. A cena é abordada com naturalidade, sem exageros – aquelas pessoas queriam transar e, portanto, transaram. Simples assim. As brincadeiras envolvendo homens no armário e que “todos os homens que passaram pelo exército fizeram sexo com outros homens” alfineta noções heteronormativas. Merece destaque, também, a hilária sequência musical estrelada pelos comissários – uma das estratégias para acalmar os passageiros em momentos de crise.

Os Amantes Passageiros Filme

O elenco é formado por vários rostos conhecidos (incluindo uma participação de Penélope Cruz e Antonio Banderas) na filmografia de Almodóvar e é consistentemente bom. O filme se leva a sério o suficiente para ser mais do que apenas uma série de piadas, e as performances do elenco são essenciais para que Os Amantes Passageiros transite com excelência entre o exagerado e o natural.

O principal problema do longa é sua estrutura. A falta de uma trama real e de um final surpreendente funcionam pela abordagem do cineasta, que vai aumentando os absurdos até o momento em que os passageiros saem do avião direto para dentro de uma espuma branca, mas, por focar nos passageiros e na tripulação, o ritmo é quebrado quando passamos quinze desnecessários minutos na superfície, em uma subtrama sobre traição e amores passados de um ator famoso que, do avião, conversa com telefone com duas mulheres com quem se relacionou. Apesar desta falha tentativa de uma trama romântica (o relacionamento entre o comissário e o piloto é muito mais interessante), o filme acerta ao não tentar criar urgência ou drama em relação ao destino do voo – faz isso apenas brevemente na ótima sequência em que apenas ouvimos os barulhos do avião pousando e dos carros de bombeiro, enquanto a câmera passeia pelo aeroporto vazio.

Os Amantes Passageiros é, assim, uma interessante e esperta comédia que, mesmo sendo um filme menor de um dos melhores e mais importantes cineastas da atualidade, é uma boa volta do cineasta às comédias, e mostra que ele ainda sabe trabalhar com o gênero.


Los Amantes Pasarejos, escrito e dirigido por Pedro Almodóvar, com Javier Cámara, Cecilia Roth, Lola Dueñas, Antonio de la Torre, Hugo Silva, Miguel Ángel Silvestre, Laya Martí, Raúl Arévalo, José María Yazpik, Pepa Charro, Paz Vega, Blanca Suárez e Carlos Areces.


Trailer do Filme Os Amantes Passageiros

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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