Os 10 Melhores Filmes de 2019 | Wanderley Caloni


Apesar de sempre mudar no futuro e sempre gerar acaloradas, intermináveis e fúteis discussões entre cinéfilos, as famigeradas listas dos melhores filme ajudam a colocar uma certa época ou gênero em perspectiva, nos permitindo avaliar melhor através desses exemplos a coleção completa. Claro que cada um terá sua lista e a defenderá até o fim, mas é justamente essa a graça de conversar sobre arte: cada pessoa tem sua experiência muito particular sobre o todo.

Eu, por exemplo, tive alguns dos meus melhores momentos do ano dentro da sala de cinema, e mesmo assim não quer dizer que considero 2019 um grande ano para a sétima arte; muito pelo contrário. Filmes excelentes eventualmente irão estrear, mas continuam sendo raridade, e a cada ano mais escassos, e por isso para mim foi uma dificuldade selecionar dez que foram lançados no Brasil este ano. O que torna um filme excelente para mim pode não ser para você, mas há de convir que quando um de nós o encontra fica difícil se esquecer, ainda que você o tenha assistido no comecinho do ano.

Como Homem-Aranha no Aranhaverso, por exemplo, um filme que estreou nos cinemas brasileiros nas férias escolares do início do ano e que manteve sua marca durante todos os 11 meses seguintes. Não me lembro de ter visto nenhum trabalho de animação ou até de filmes de super-herói que tivesse explorado tão bem essa ponte entre o universo dos quadrinhos e a telona, seja no quesito estético ou narrativo. Todos que adoram o personagem de Peter Parker e seu alter-ego foram obrigados a torcer o braço e afirmar que, mesmo não sendo um live-action, Aranhaverso foi um dos melhores filmes a explorar o adorável conceito criado por Stan Lee e Steve Ditko. Além disso, acaba sendo uma aventura divertida para crianças de todas as idades e que não se permite trazer problemas ou soluções fáceis apenas por ser divertido. Empolga justamente porque sua trama é complexa na medida para nos deixar presos na poltrona do cinema até o fim. Além, é claro, de uma produção artística que ambiciona ser referência do tema, e consegue com louvor, e com folga. Descanse em paz, Stan Lee. E muito obrigado por este e outros presentes.

Seguindo logo o herói mais bem representado do ano vem o vilão mais bem representado. Pelo menos se considerarmos que se trata do mesmo vilão visto nos quadrinhos, ou uma encarnação realista à altura. Estou falando de Coringa, o filme que atraiu multidões para as salas este ano justamente porque este vilão fala diretamente ao grande público sobre coisas que a crítica especializada busca evitar, especialmente da maneira irresponsável com que o diretor Todd Phillips explora neste longa protagonizado por Joaquin Phoenix em criação à parte do personagem. Coringa é sobre política e é impossível se desvencilhar desse assunto durante todo o filme, apesar de estarmos assistindo a um drama intimista e subjetivo sobre a vida de um desequilibrado mental. Em sua superfície o filme parece simplório em sua mensagem, mas é nos detalhes sórdidos, nas entrelinhas, que o filme se entrega de coração ao que é esperado de uma obra de arte: provocar-nos.

Nem sempre os heróis e vilões possuem histórias excitantes com arcos dramáticos impossíveis, e para isso é que existe toda a subjetividade do cinema, que faz qualquer drama de qualquer pessoa se tornar vital no momento que assistimos. Diferente da semi-biografia pasteurizada de Freddie Mercury do ano passado, Rocketman é uma biografia e um musical que não possui uma grande tragédia para se manter na mente das pessoas, nem um músico que a grande maioria aprendeu a amar. E é justamente por isso que o filme Dexter Flether consegue se desvencilhar do convencional e ir bem fundo no drama de um artista que lutou boa parte de sua vida apenas para existir como ele é. Eis um filme que ao narrar sobre a vida privada de um cantor pop ainda vivo extrai das particularidades o drama universal dos famosos em ser incapaz de lidar com tanta fama em sua vida pessoal. E além disso é um musical tão empolgante que mesmo sem substância ele já seria interessante.

Quando pensamos em filmes sem substâncias que podem ser tão bons que nos esquecemos da falta de conteúdo logo nos vem o gênero terror à mente. E ao vir o gênero terror é impossível não se lembrar em 2019 de Nós, que chega como o segundo filme do diretor de Corra! esperado como algo próximo, mas que acaba entregando um trabalho de um cineasta que parece ter amadurecido rapidamente, em uma direção de quem tem o controle absoluto e uma trama (também escrita por Jordan Peele) que nos entrega tantos símbolos vagos que eles se encaixam na mente de praticamente qualquer espectador interessado nas camadas mais profundas da história. Este thriller funciona em tantos níveis que sua maior crítica é ter tantos níveis, a ponto do significado se perder rapidamente ao final do filme. Porém, isso não importa nem um pouco, já que o medo é algo tão subjetivo que a escolha do espectador ligar seus próprios pontos acaba virando uma ideia de gênio, de quem pode ter escrito algo muito particular, mas com sua habilidade vira uma carta aberta para todos que adoram enxergar padrões.

Já menos interpretativo, mas muito mais profundo e adulto em sua abordagem, é Guerra Fria, trabalho do cineasta Pawel Pawlikowski que à primeira vista pode não parecer nada demais, mas que oferece através, principalmente de sua estética, uma visão que consolida as diferentes visões que as pessoas costumam ter da época-título, mas principalmente, nos entrega uma interpretação muito viva e muito atual da nossa realidade, dentro de um embate ainda sendo travado, ainda que de forma inconsciente, entre o jogo de poder e estrutura que tenta atingir a humanidade com base na força, e a força implacável e impessoal do capitalismo em seu materialismo sugador de almas.

E o que nos torna humanos? Essa é uma pergunta sempre presente no cinema, e que Border flerta responder esse ano em um filme inusitado e inspirador, embora muito difícil para a maioria dos espectadores. De qualquer forma, quem estiver disposto a olhar com a mente aberta encontrará não apenas um filme fantasioso, mas uma discussão honesta sobre encontrar humanidade independente da espécie que a originou e sobre a tolerância entre seres de diferente natureza. Border é uma desconstrução muito bem-vinda, pois é uma mensagem sobre respeito a diversidade que todos deveríamos aprender. Infelizmente, o filme deve atrair apenas os que já estão aptos a abraçar o diferente, ou pelo menos não tratá-lo como uma aberração.

As discussões sobre nossa sociedade eventualmente recaem no fascínio que muitos de nós possuem com a violência e como ela se estrutura entre nós. Um dos gêneros mais populares no cinema são os filmes de máfia, e um dos especialistas ainda na ativa deste gênero é Martin Scorsese, que lança esse ano por um serviço de streaming O Irlandês, que embora não lembre nem Os Bons Companheiros nem O Poderoso Chefão, é uma amálgama de ambos, pois possui a vivacidade do primeiro com a sobriedade do segundo, sem perder o lado comercial de uma produção de cinema. Isso, claro, se você se render a três horas e meia de um filme que flui quase que de maneira sobrenatural, com uma edição impecável, excelentes atuações e muito mais virtudes técnicas que é possível enumerar nesta breve memória de um filme que merece constar nesta lista.

Agora que se foram os que considero de menção obrigatória para 2019 chega o momento de eu comentar sobre alguns filmes que podem passar despercebidos ou esquecidos, seja por serem produções menores ou pelos valores que carregam. Da primeira categoria tenho No Coração do Mundo, produção mineira que é um estudo social de primeira qualidade e que merece ser visto acima de muitos outros filmes brasileiros da época porque consegue sintetizar vários assuntos sendo trabalhados no cinema nacional em apenas um filme. É um trabalho fruto de um estudo muito peculiar sobre o estado de Minas Gerais, com atuações muito valiosas para a história, que é montada para mesclar um filme de ação/golpe em cima de uma camada social dramática que é deixada para interpretação pelo próprio espectador. É um combinado muito bem sucedido entre arte e indústria em terras tupiniquins.

Dos dois filmes que fazem parte dos esquecidos pelos valores conflitantes com o status quo talvez Um Dia De Chuva Em Nova York seja o mais injustiçado, pois traz um Woody Allen, mais uma vez na direção e roteiro, completamente coerente com quem foi e quem é o cineasta, mas ao mesmo tempo com personagens, diferente do acusado pela maioria dos críticos, atualizados à nova era para as mulheres. Os ataques a Um Dia de Chuva… ignoram completamente o livre arbítrio da personagem de Elle Fanning e atacam o trabalho de Allen baseados em uma cartilha de pensamento compartimentado e automático, e o fato de seu último filme ser alvo de argumentos impensados é uma ofensa ainda maior ao cineasta que sempre priorizou em seus filmes o raciocínio, às vezes até exagerado, sobre a vida, o universo e tudo mais. Ironicamente, este que é um dos melhores filmes do ano é um exemplo perfeito de Allen de que seus filmes pararam de fazer novas perguntas porque as pessoas hoje em dia estão prontas para atacar o que eles consideram as respostas erradas.

Por fim, embora longe da perfeição e entregue a um roteiro fraco, ainda que eficiente, A Mula, dirigido e atuado pelo velho de guerra Clint Eastwood, é mais um exemplo dos filmes cujos valores “errados” acabam passando reto ou por longe em premiações, o que diz menos sobre o filme e mais sobre nossa época. Eastwood parece ter gostado dessa persona que o representa nos filmes: um reaça aposentado ou próximo da morte cuja única razão de viver é saber no fundo que está com a razão. Se torna extremamente divertido observar o contraste das mensagens de seu último filme com os valores vitimistas e intolerantes do grande resto cinematográfico, e acaba se tornando um prazer para mim inseri-lo na lista de melhores do ano, que assim como Coringa, prova seu valor não por estar certo em sua mensagem, mas por provocar em nós, espectadores, alguma reação. Qualquer reação. Nesse sentido, ao analisar arte, todos nós deveríamos manter sempre vivo o nosso lado mais reaça possível.

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