Nos primeiros minutos de Olhar Instigado é possível perceber um controle narrativo que parece determinar com precisão qual será o tom no filme inteiro. Será um filme com movimento, cortes rápidos, montagem fluida e trilha sonora empolgante. Para um documentário isso já é muito mais que o medíocre esquema de pessoas sentadas falando.

Porém, além da competência técnica da dupla de diretores Guilherme Moraes e Chico Gomes e seus respectivos protagonistas da vida real Alexandre Orion, Bruno Locuras e André Monteiro (sem contar seu excelente montador, Oswaldo Santana), este é um filme que promete entregar, não apenas como seu título sugere ou promete, um olhar instigado (e consequentemente instigante) sobre a megalópole São Paulo, maior cidade do Brasil e uma das maiores do mundo, mas também ideias instigantes, que vão além do senso comum.

E isso, infelizmente, o filme apenas promete. Apresentando como heróis artistas que intervém na paisagem urbana, seja como uma espécie de Bansky ao desenhar em um paredão no bairro periférico do Grajaú uma criança gigante brincando com casebres da favela, ou algo mais temático e simbólico, como a manipulação inventiva da fuligem acumulada de um túnel em caveiras temporárias, é difícil entender algo diferente do que pretendem exceto uma palavra: indignação.

Agora, indignados deveriam ficar o resto das pessoas que convivem na mesma cidade e que discordam dessa visão, muitos inclusive proprietários das construções danificadas. Não vemos isso. Nessa versão alternativa da realidade, existe apenas o ato heroico sem consequências. Exceto quando dois garotos são mortos pela polícia, quando daí eles realmente tem motivos para indignação. Porém, o filme não é sobre violência direta, mas indireta. Chamemos de coletivismo ou democracia, como eles mesmos chamam qualquer tipo de lógica que ignore indivíduos: a “sociedade”.

Olhar Instigado Crítica

Nessa visão distorcida já conhecida por todos, a versão da realidade onde há opressores e oprimidos, qualquer “esquerdaloide” poderia opinar. Não existe nada novo e muito menos instigante nessas ideias, que ficam muito aquém do que o filme entrega como produção e narrativa. Sempre disposto a observar a cidade por outro ângulo, ou em planos-detalhes curiosos ou até mesmo em outra velocidade – e o filme é verdadeiramente inovador nesse sentido, ainda mais na cidade para onde ele aponta suas lentes – é decepcionante constatar que essas pessoas não possuem, de fato, nada a contribuir para a “sociedade”. Pelo contrário, se tratam de valores invertidos, que ignoram a quantidade esmagadora de trabalho – mental e braçal – para criar os recursos e as paredes que são maculadas soturnamente pelas avenidas mais esquecidas, mas ainda assim enxergam o trabalho frustrante de um artista em construir um mecanismo complexo como reflexão a respeito da poluição e falta de água na região.

Dessa forma temos um trabalho competente que se transforma tematicamente em mais do mesmo. Com os valores errados como guia das ações dos cineastas (diretores e roteiristas) não há brilhantismo técnico que o suporte. Assim como, por analogia, por mais genial que seja um arquiteto, um engenheiro e a mão de obra por trás da construção de um edifício, nada resiste ao vandalismo fácil e rancoroso do dia-a-dia.


“Olhar Instigado” (Bra, 2015), escrito por Guilherme Moraes Quintella, Chico Gomes, dirigido por Chico Gomes, Felipe Lion


Trailer – Olhar Instigado

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