Oito Mulheres e um Segredo | Faz jus ao legado

Oito Mulheres e Um Segredo Filme

Homens são notados, mulheres são ignoradas. Dessa vez, queremos ser ignoradas. Explorando a maneira com que o gênero feminino é subestimado de diversas maneiras, Oito Mulheres e um Segredo faz jus ao legado da franquia criada por Steven Soderbergh com uma produção divertida, envolvente e comandada por personagens complexas, fascinantes e vividas por atrizes absurdamente talentosas e que funcionam muito bem juntas. Tem seus defeitos? Com certeza, mas isso praticamente não importa.

Debbie Ocean (Sandra Bullock) acaba de ser libertada da prisão depois de prometer que encerrou completamente sua vida de crime — hábito recorrente em sua família — apenas para, minutos depois, furtar objetos com a casualidade de quem nem precisa pensar sobre o que está fazendo. Mas, após a morte (será?) de seu irmão, Danny, Debbie parece decidida a honrar o nome dele e a organizar um assalto do qual ele ficaria orgulhoso (e, nesse sentido, o longa torna-se quase metalinguístico). A missão? Roubar um diamante valiosíssimo que há décadas não sai do cofre da Cartier. Para alcançar seu objetivo, Debbie reúne-se com outras sete mulheres: sua antiga parceira Lou (Cate Blanchett), a joalheira Amita (Mindy Kaling), a punguista Constance (Awkwafina) a hacker “Bola Nove” (Rihanna), uma especialista em receber itens roubados, Tammy (Sarah Paulson), a estilista Rose Weil (Helena Bonham Carter) e, finalmente, a oitava mulher, que é convocada para o plano sem saber: Daphne (Anne Hathaway), a atriz escolhida para transportar o diamante até um lugar onde Debbie e sua equipe possam roubá-lo. Ela é a eleita por ser a mais nova anfitriã do Met Gala, festa exclusivíssima que acontece anualmente no museu e que servirá de palco para o assalto.

Como em praticamente todo filme do tipo, as melhores sequências de Oito Mulheres e um Segredo envolvem cada uma das criminosas entrando para o grupo e, então, planejando o grande dia. Debbie passou mais de cinco anos na penitenciária dedicando cada minuto do seu dia à elaboração desse plano, solucionando cada possível obstáculo e garantindo que nada (nada!) pode dar errado. Então, é claro… Que nada dá errado.

Há pequenos contratempos, mas as soluções chegam rapidamente. Por um lado, isso é um reflexo da inteligência de Debbie — obviamente, ela não tinha acesso a todas as informações necessárias para o assalto durante seu confinamento; é por isso que seu grande trunfo foi saber exatamente os tipos de criminosas que ela precisaria ao seu lado para que tudo acontecesse como deveria. Mas, por outro, o resultado é que o terceiro ato do longa deixa a desejar nos quesitos tensão e adrenalina, pois jamais duvidamos de que o plano será bem-sucedido e que elas vão se safar.

Além disso, o diretor Gary Ross e sua co-roteirista Olivia Milch inserem dois personagens (masculinos) de maneira rasa com a intenção de estender as implicações da trama principal. No terceiro ato, John Frazier (James Corden), o agente do seguro dos diamantes, mesmo protagonizando alguns momentos e diálogos divertidos, acaba por diminuir um pouco o ritmo eficiente com que a trama se desenrolava até então — estruturalmente falando, sua aparição súbita é falha e, para complementar, Frazier ainda apresenta um comportamento inverossímil.

Enquanto isso, Claude Becker (Richard Armitage), o ex-namorado de quem Debbie deseja se vingar, surge como um antagonista pouco interessante para as mulheres. De certa forma, isso acontece para que nada chegue sequer perto de tirar o foco das oito personagens centrais, mas, na verdade, Becker poderia ser completamente eliminado da narrativa sem grandes perdas ou necessidades de mudanças.

Oito Mulheres e Um Segredo Crítica

Entretanto, Oito Mulheres e um Segredo acerta em cheio bem naquilo que mais precisava acertar: as personagens-título e a dinâmica entre elas. Ainda que com tempos de tela variados, cada uma delas consegue estabelecer sua complexidade e importância para o plano em questão de minutos, e Ross captura bem a sensação de pertencimento, de companheirismo e de lealdade que se forma entre o grupo (e é divertidíssimo, por exemplo, vê-las falando sobre como seu sucesso poderá inspirar as garotinhas que sonham em se tornarem criminosas).

Bullock transmite bem o espírito de liderança de Debbie com sua impulsividade, enquanto Blanchett faz o mesmo com o jeito mais agressivo e forte de Lou, cuja racionalidade é fundamental para apaziguar as atitudes explosivas da parceira. Bonham Carter explora sua persona excêntrica para transformar Rose em uma bola de nervos e ansiedade, enquanto Paulson aproveita ao máximo o fato de que nem mesmo o marido de sua personagem desconfia de suas atividades ilegais (afinal, quem imaginaria que uma mãe de filha suburbana seria uma gênia do crime?).

E se Rihanna não tem dificuldades em estabelecer-se como uma forte presença na telona, Kaling e Awkafina também garantem ótimos momentos, mesmo tendo menos tempo em cena do que suas companheiras. Mas a maior surpresa é a maneira com que o longa explora Daphne, vivida com energia e intensidade por Hathaway, uma atriz que vem se mostrando cada vez mais interessante em suas escolhas de projetos. A faceta arrogante e mimada de Daphne esconde inseguranças profundas e, no terceiro ato, as verdadeiras intenções da estrela elevam a conclusão da narrativa.

E Gary Ross pode não ter o mesmo domínio primorosamente energético e esperto de Steven Soderbergh, mas quem tem? O diretor faz um ótimo trabalho, conduzindo o longa com um ritmo dinâmico e um estilo que mostra-se condizente com o do original (e quando digo original, me refiro à obra de Soderbergh, não ao “primeiro original” protagonizado pelo Rat Pack em 1960) sem limitar-se a copiá-lo. A trilha sonora, repleta de vozes femininas cantando canções icônicas, como a versão de These Boots Are Made For Walkin’ na gravação original de Nancy Sinatra, também se destaca.

Pois a presença feminina é fortíssima e multifacetada em Onze Homens e um Segredo. É ótimo vermos oito mulheres descobrindo suas forças umas ao lado das outras, enquanto os homens são meros coadjuvantes em suas histórias. Além disso, acompanhar os figurinos deslumbrantes e a extravagância do Met Gala são divertimentos por si só, que trazem personalidade e irreverência à produção.

Assim, Oito Mulheres e um Segredo e suas excelentes qualidades mais do que compensam os problemas do filme, que se estabelece como uma bem-vinda adição à franquia. E que venham mais planos ambiciosos e crimes cheios de estilo arquitetados pelo fascinante grupo de Debbie Ocean. Como ela mesma declara, Danny ficaria orgulhoso.


“Ocean’s Eight” (EUA, 2018), escrito por Gary Ross e Olivia Milch, dirigido por Gary Ross, com Sandra Bullock, Cate Blanchett, Anne Hathaway, Rihanna, Mindy Kaling, Helena Bonham Carter, Sarah Paulson, Awkwafina, Richard Armitage, James Corden e Dakota Fanning.


Trailer – Oito Mulheres e Um Segredo

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