O Silêncio dos Outros | Um documentário necessário


O Silêncio dos Outros é um documentário necessário, mas com final amargo quando constatamos o quão dura e lenta é a luta por justiça.

A história é sobre o julgamento dos crimes contra a humanidade durante os quase quarenta anos da ditadura de Franco na Espanha. O problema é a Lei de Anistia, aprovada já na democracia e que ao mesmo tempo que liberta os presos políticos cria em contrapartida a chamada Lei do Esquecimento, onde os crimes de tortura e assassinato da época não podem ser investigados pelas autoridades locais. Então o jeito é apelar para a corte internacional.

A noção do passado do povo espanhol é pior do que parece: boa parte da sociedade ainda apoia a época da ditadura em vez de lamentar o ocorrido, pois o filme faz um recorte entre o aniversário de um ano da morte de Franco, em 1975, e décadas depois, em 2010, e pouca coisa muda. Em ambas as ocasiões há pessoas comemorando na praça central de Madri. Se pensarmos que os críticos de Franco continuam sendo vizinhos dessas pessoas, que moram em ruas cujos nomes são de “heróis” do regime (mas que sob um olhar neutro são apenas criminosos) a opressão ainda não terminou.

O filme então acompanha três movimentos sociais durante anos de luta: os familiares de milhares de desaparecidos em busca dos seus restos mortais enterrados em túmulos coletivos, os torturados da época em busca da punição dos responsáveis e um terceiro grupo formado por mães de bebês recém nascidos que eram roubados após o parto.

Esse último grupo aparece quase no meio do filme depois de uma descoberta iniciada pelo próprio processo de cavocar o passado. O mesmo médico que fez o parto de várias mães naquela época parece ter sido responsável pelo roubo de centenas de bebês. As justificativas da época beiram a loucura, com os estudos de eugenia dos “cientistas” da época que diziam haver um “gene vermelho” responsável pelo pensamento de esquerda da população. Este é um ótimo exemplo do nível de insanidade que o fanatismo carrega quando apoiado politicamente e como os ecos do passado continuam a repercutir no presente e futuro de muitas pessoas.

O filme carrega todas as questões pertinentes na busca por um julgamento dos culpados com muita propriedade, acompanhando indivíduos de cada grupo e os fatos que vão sendo encontrados no processo. Porém, o filme também contém sua parcela de emoção, e tem sua razão de ser, se formos pensar, mas não no filme, pois isso enfraquece o diálogo. Muitas pessoas acabam chorando nessa luta de ambos, e o diretor parece obstinado em capturar cada lágrima derramada em busca de humanizar sua história. Além disso, a direção dupla parece ter se perdido no controle de edição, onde os lugares onde a ação vai acontecendo nem sempre é mostrada. Apesar de ser um filme de cunho internacional, quando estamos em algum lugar da Espanha nada é falado, mas sempre que voltamos à capital argentina aparece o letreiro: Buenos Aires. Argentina.

Talvez a insistência em levar às lágrimas o espectador tenha ofuscado um pouco a objetividade do trabalho, mas que nem por isso perde em conteúdo. Agora, dentro da ótica mais objetiva, bastaria utilizar três momentos-chave do longa para conscientizar as pessoas da humanidade trazida pelo documentário: a colocação de flores de uma senhora do lado da rodovia onde foram enterradas milhares de assassinados (em que acompanhamos as flores murchando no decorrer da história, em uma ótima analogia do processo moroso que demora anos), a narrativa de uma mãe desperta que teve seu filho em parto normal para depois ser arrancado dos seus braços (poderoso) e o testemunho de uma das vítimas de tortura que é obrigado a morar a poucos metros de onde mora seu torturador. Nesse último exemplo suas palavras não são uma primazia de discurso, mas são de um ser humano ainda quebrado pelo sistema. É um discurso legítimo, nada inflamado. E isso vale muito mais em um documentário.

Há também uma certa obsessão no filme em voltar para uma das poucas obras que foram criadas para homenagear as vítimas de Franco: quatro estátuas belíssimas. Uma delas levou um tiro, uma resposta violenta muito comum de qualquer crítica ao regimento. O autor da obra a considerou concluída após esse tiro, que pegou nas costas de uma das estátuas. Mas o filme não. Ele insiste em voltar a elas, pela sua beleza, mas as enfraquece pela exposição demasiada.

Este poderia ser um filme sobre qualquer ditadura que tivesse terminado em qualquer país, e isso é estarrecedor. Se pensarmos a respeito da ignorância ou manipulação ideológica do povo a respeito do passado e até do presente político é algo que dá medo. Ficamos a imaginar que atrocidades semelhantes podem estar sendo cometidas hoje na Coréia do Norte ou Venezuela, que só serão descobertas após a queda desses regimes. Isto é, se forem descobertas, pois se há algo que Silêncio dos Outros nos ensina é que o passado pertence não ao seu povo, mas aos que continuam no poder. É como já dizia George Orwell em 1984, em uma lição que deveria ser passada a todo ser humano para desenvolver senso político: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.


“El Silencio de Otros” (EUA/Esp/Can/Fra), escrito por Ricardo Acosta, Robert Bahar, Almudena Carracedo, Kim Roberts, dirigido por Robert Bahar e Almudena Carracedo, com María Martín, José María Galante, Carlos Slepoy.


Trailer – O Silêncio dos Outros

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