O Segredo De Davi | Um assassino serial para chamarmos de nosso

O Segredo de Davi

O Segredo de Davi é sobre um estudante de Cinema e sobre Cinema. Um filme de gênero, algo que até está em alta nos últimos tempos e que mantém seu público cativo através das décadas, mas que nunca se transformou em algo viável por aqui, abrindo espaço para produções de custo menor. Mas o que temos aqui é de tirar o fôlego em todos os quesitos técnicos e narrativos, o que é uma ótima notícia. E apesar de flertar com os enlatados norte-americanos ele mantém seu charme local.

Se trata da história de Davi (Nicolas Prattes), um garoto tímido que estuda artes visuais e que vive sozinho no centro de São Paulo. Atraído inicialmente em observar as pessoas, filmando-as no processo, Davi é um misto entre narrador em off e protagonista subjetivo. Aos poucos, vamos percebendo que quem está contando a história é ele, sob seu ponto de vista. E seu ponto de vista é distorcido, surreal e onírico. Cinematográfico e sobrenatural ao mesmo tempo, o resultado em pouco tempo é um certo desconforto em observá-lo.

Isso porque Davi começa a agir em relação ao que observa, e sem querer revelar muita coisa, o que vemos não é bonito. Porém, continuamos vendo, pois o fascínio que ele tem inicialmente em observar é passado para o espectador, que precisa continuar imaginando por que Davi está fazendo tudo isso. Os motivos vão sendo revelado aos poucos, com um certo clima de desorientação. Já não sabemos o quão claro Davi está sendo conosco, mas sabemos que ele está ciente das consequências.

Mas o tímido garoto não consegue evitar. Vai surgindo uma força, bem aos poucos. No começo é bem conveniente, mas depois, quando ele flerta com uma garota, ele ganha nossa cumplicidade ao mesmo tempo que torcemos para que ele mude seus objetivos. Ele não muda, e o clima vai ficando cada vez mais pesado.

A atuação de Nicolas Prattes é um ponto fora da curva. Cercado de personagens convencionais, ele se destaca não apenas pela competente transformação de Prattes, mas também pelo uso combinado de câmera e cores. Note como o esguio Davi começa se vestindo com sua roupa toda branca e a cabeça cabisbaixa, e repare como a sua feição não muda tanto assim, mas suas roupas ficam escuras e seus movimentos mais agitados, apressados e até certo ponto descontrolados.

O Segredo de Davi Filme

A direção de arte desse filme é um primor. Apenas fico triste de não ter visto outras partes da sinistra cidade de São Paulo retratadas pelas cores cinzentas de Kaue Zilli (Todo Clichê do Amor), apesar de concordar que a decisão de estar nos cenários externos mais marginais do centro seja uma ótima ideia, pois torna a figura de Davi um tanto distante, mas nem tanto. Perigosamente onisciente das mazelas do sujo, abandonado e desatento centro da cidade.

Mas o filme não é todo escuro, e é isso que o torna digno de nota. O design de produção de Fernando Cacerez auxilia em criar na mesma cena um misto entre luz e sombra que se separam de maneira tão gritante que em certos momentos parecemos estar vendo um filme 3D. E é justamente isso que se passa na cabeça de Davi, que, vivendo nas sombras, entende seu objetivo através de uma foto icônica, ensolarada e feliz. Davi vai tentando recriar sentimentos mistos de felicidade e ódio dessa foto.

A direção de Diego Freitas insiste em closes exagerados e enquadramentos estilizados, mas essa insistência é justificada, pois nos faz ter a mesma sensação de desconforto de seu protagonista. Esse desconforto é ressaltado pelo uso do som e suas quebras constantes entre silêncio e um barulho ensurdecedor, usado além do limite do razoável e que lembra um pouco (demais) os thrillers psicológicos americanos.

Freitas também assina o roteiro competente, que teve ajuda da crítica Ana Maria Bahiana, e que, embora capenga em seus minutos finais, é eficiente na maioria do tempo. Note como alguns detalhes nem precisam ser ditos ao espectador, como quando descobrimos quem realmente está namorando a amiga de Davi, ou a relação entre Davi e seu misterioso pai. E o uso repetido de frases-chave ressaltam o caráter repetitivo das vozes que Davi escuta, em mais um sinal de respeito à inteligência do espectador.

Além disso, a reviravolta evita muitos flashbacks para não soar pedante, se limitando ao necessário. Funciona. O Segredo de Davi, você irá notar, possui narrativa econômica do começo ao fim. Vai prender a atenção de muita gente.


“O Segredo de Davi” (Bra, 2018), escrito e dirigido por Diego Freitas, com Nicolas Prattes, Eucir de Souza, Cris Vianna.

Trailer – O Segredo De Davi

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