O Rei | Aceita a grandeza e funciona


O Rei, nova grande produção da Netflix, é uma interessante mistura da peça clássica de William Shakespeare, Henrique V, com, justamente, a história real desse imperador inglês que ficou conhecido na história como um dos maiores “reis guerreiros”. Curiosamente, é fora dos campos de batalha que o filme funciona melhor.

Não por falta de dinheiro investido na produção e muito menos pelo esforço estético do diretor australiano David Michôd, mas sim porque, justamente como o escritor inglês mais gosta, a diversão está nos corredores dos palácios e não no sangue do inimigo.

O filme é escrito por Michôd em parceria com Joel Edgerton (parceria que começou no incrível Reino Animal, que “mostrou” a dupla ao mundo) e conta a história de Hal (Timothée Chamalet) herdeiro do trono de Henrique IV, mas que vive afastado da corte e renegando sua origem entre bebidas e mulheres. Suas diferenças com o pai não permitem nenhum tipo de proximidade, até que a morte do rei faz com que Hal se torne Henrique V.

O filme acompanha esse novo rei tentando se afastar dos erros do pai enquanto constrói um legado para si mesmo, mesmo que isso signifique uma guerra contra a França.

Portanto, O Rei é muito bem dividido em três partes distintas: a primeira com uma grande intriga palaciana, a segunda com uma batalha e a terceira com uma pequena surpresa que amarra bem toda história. E por mais que Michôd faça um trabalho interessante na hora da ação, nada por ali parece suficientemente interessante. Sua câmera sabe olhar com precisão e carinho para o campo de batalha arrasado e guarda algumas cartas para o auge do segundo ato, a famosa Batalha de Azincourt, mas o que sobra na plasticidade, falta na tensão.

Michôd consegue fazer o espectador entender o quanto o valor da vitória se esvai rápido e o que sobra é sempre um amontoado sujo e vil de corpos e lama, com pouco luxo e fantasia, mas faltando elegância narrativa para fazer disso a transformação de Hal em Henry V.

A transformação do jovem bêbado em rei não tem nuances e Chamalet não consegue aproveitar nenhum desses momentos para fincar sua atuação no filme. Por outro lado, Joel Edgerton não perde a oportunidade de se transformar em um Falstaff bonachão, corajoso e interessante (além de soar, no bom sentido, como um cover mais baixinho do Russel Crowe).

Esses diálogos da boca do Delfim (Pattinson) beiram o delicioso exagero, mas é justamente o texto que permeia o primeiro e o terceiro ato que fazem com que estes se destaquem, mesmo diante da beleza das batalhas. Ainda que fuja do rebuscado, enquanto os personagens estão conversando paira sempre um clima malicioso e shakespeariano que empurra essa intriga como se estivesse escondendo algo por trás das palavras.

Isso fica ainda mais interessante diante de uma direção de arte competente e que consegue criar esse mundo que equilibra bem o luxo com a sujeira que faz tudo parecer mais realista. E mesmo com a verdadeira história não sendo nem o que Shakespeare escreveu, muito menos o que a produção da Netflix aposta, O Rei deixa essa impressão de épico medieval que não foge da grandeza do gênero e funciona bem diante de suas pretensões.

Uma trama interessante, com um visual que chama a atenção e se apoia na transformação desse jovem cheio de ideias em apenas mais um rei vaidoso e tolo. E ainda que o próprio Rei seja o detalhe menos importante do filme, acompanhar o seu caminho e entender como a paz é forjada na vitória, custe o que custar, faz com que O Rei termine interessante diante do final surpreendente e possa ser encarado com um exemplo imperdível do catálogo de originais da Netflix.


”The King” (UK/Hun/Aus, 2019), escrito por Joel Edgerton e David Michôd, dirigido por David Michôd, com Timothée Chalamet, Joel Edgerton, Ben Mendelsohn, Sean Harris e Robert Pattinson.


Trailer do Filme – O Rei

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