por Mariana González
11 de fevereiro de 2018

Jeff Bauman é um cara comum, doce, otimista e, frequentemente, patético e imaturo. Ao seu lado, está Erin Hurley, uma pessoa — e, portanto, personagem — não apenas indiscutivelmente mais interessante, mas também detentora de um arco dramático tão complexo quanto o do amado. Mesmo que Jeff seja o protagonista, O Que Te Faz Mais Forte parece reconhecer que ele não é ninguém sem Erin e, portanto, dá a ela a sua devida importância. Assim, o longa encontra sua própria humanidade e introspecção em meio a uma tragédia de grandes proporções, ainda que frequentemente entregue-se aos clichês desse tipo de “história de superação”.

Faz um mês que Jeff (Jake Gyllenhaal) e Erin (Tatiana Maslany) terminaram pela terceira vez. Ela ainda se importa com ele, mas cansou das frequentes desculpas, demonstrações de imaturidade, falta de compromisso e pouca ambição; Jeff está determinado a reconquistá-la. A chance surge quando, em um encontro inesperado em um bar, ele descobre que Erin vai correr na Maratona de Boston, que acontecerá no dia seguinte. Determinado a demonstrar que está disposto a fazer o relacionamento dar certo dessa vez, ele cumpre a promessa que faz a Erin de ir torcer por ela na linha de chegada. Pouco antes de Erin cruzá-la, entretanto, duas bombas explodem em um atentado que matou três pessoas e feriu uma centena de outras — incluindo Jeff, cujos ferimentos levam os médicos a amputarem suas duas pernas acima do joelho.

A partir daí, o filme dirigido por David Gordon Green acompanha Jeff, Erin e a família dele enquanto ele se recupera e se adapta à nova vida. Jeff vive em uma casa nada preparada para receber alguém com uma deficiência física, o que o leva a precisar de ajuda para tudo e a ter dificuldades até mesmo para, por exemplo, alcançar o rolo de papel higiênico no banheiro. Assim, esses momentos, aliados às cenas em que vemos o protagonista na fisioterapia, são eficientes por parecerem pouco exploratórios, focando na deficiência de Jeff não como algo a ser superado, mas como uma condição com a qual ele deve aprender a conviver. As sequências em que vemos Jeff sendo tratado também por seus médicos e enfermeiras mostram-se igualmente cuidadosas ao trazerem um alto nível de autenticidade e, quando necessário, de sensibilidade.

Nessas horas, Green tem uma breve demonstração de brilhantismo, ao manter, por exemplo, o rosto de Gyllenhaal em primeiro plano e suas pernas fora de foco na cena em que a equipe médica retira seus curativos pela primeira vez. É um momento repleto de medo e vulnerabilidade para Jeff, que encontra força na presença de Erin, que também jamais olha para as amputações — com isso, o espectador é convidado a demonstrar a mesma empatia pelo protagonista. Algo semelhante acontece na terna cena de sexo entre Erin e Jeff, ou mesmo no carinho que a irmã de Erin demonstra pelo protagonista ao vê-lo pela televisão em certo momento, já no terceiro ato.

Os efeitos visuais para transformar Gyllenhaal em um homem amputado são sempre convincentes, ainda que, por melhor que seja o trabalho do ator, seja difícil fugir de um ou outro momento em que fica claro que estamos diante de alguém apenas agindo como uma pessoa deficiente. Isso é um problema frequente nas inúmeras produções audiovisuais que trazem atores sem deficiência alguma para interpretar esses personagens. Mas Gyllenhaal realmente entrega uma bela atuação, especialmente por compreender o fato de que o atentado não transforma Jeff magicamente em outra pessoa — os defeitos do protagonista, especialmente aqueles que afastaram Erin, continuam presentes e, em certos pontos, são até mesmo acentuados.

O Que Te Faz Mais Forte Crítica

o ator ainda se sai bem ao demonstrar a frustração e o ocasional desespero de Jeff por não saber mais qual é exatamente seu lugar em um mundo que lhe era até então familiar, retratando ainda com talento a ansiedade do protagonista diante das pressões da mídia e da população de Boston, que insistem em enxergá-lo como uma figura heroica, não apenas por ele ser uma das figuras centrais do movimento Boston Strong, que destaca a resiliência e a determinação da cidade após o atentado, mas também por ter ajudado o FBI a identificar um dos suspeitos.

E é justamente ao focar nesse aspecto da trajetória de Jeff que o longa, roteirizado por John Pollono com base no livro homônimo escrito pelo próprio Jeff Bauman ao lado de Bret Witter, mais acerta. Afinal, algo que faz com que Erin destaque-se como a melhor e mais complexa personagem de O Que Te Faz Mais Forte é que, na maior parte do tempo, o protagonista não é uma figura particularmente fascinante, ainda que sua história seja, é claro, tocante. Dessa forma, colocá-lo em um patamar de heroísmo e bravura é, mais que nada, um jogo midiático incentivado pela própria mãe dele, Patty (Miranda Richardson), e pela população de Boston, que abraça essa mesma ideia errônea acerca de Jeff, ainda que com motivações mais nobres.

Enquanto isso, Erin permanece nas sombras, ignorada pela família de Jeff e, muitas vezes, por ele próprio — que custa a reconhecer o que é óbvio para qualquer espectador, ou seja, que ele não é nada sem ela (e isso não tem nada a ver com a deficiência física do protagonista). Assim, ainda que Gyllenhaal pareça mais desafiador, Tatiana Maslany mostra-se tão competente quanto ele pela maneira comovente com que retrata a multidimensionalidade dos desafios e sentimentos de Erin, que envolvem dor, tristeza, isolamento e um profundo amor por Jeff, que mistura-se a um senso de obrigação de cuidar dele e a uma tendência a culpar-se pelo ocorrido.

Assim, Green acerta também ao colocar-nos ao lado de Erin em momentos-chave da projeção, como o plano que a mostra sentada em silêncio na sala de espera do hospital enquanto a caótica família de Jeff entrega-se aos gritos e às discussões, ou quando ela sai silenciosamente da casa dele durante sua festa de boas-vindas ao lar. Por outro lado, O Que Te Faz Mais Forte é prejudicado por um roteiro que não sabe muito bem como amarrar as pontas da trama, já que, no terceiro ato, o filme parece sofrer uma reviravolta quanto à abordagem de suas temáticas, que fazem com que o próprio Jeff e, principalmente a mãe deste, tenham momentos de amadurecimento que surgem repentinos, como se eles tivessem um súbito instante de revelação movidos pelo fato de que o filme está para acabar.

O Que Te Faz Mais Forte é, portanto, uma história profundamente humana e repleta de qualidades com as quais os cineastas nem sempre sabem o que fazer, especialmente quando chega a hora de levar tudo o que havíamos visto até então a uma conclusão. Mesmo assim, o longa envolve e toca o espectador na maior parte do tempo, graças não apenas a Jake Gyllenhaal mas, principalmente, à fascinante personagem e ao belo trabalho de Tatiana Maslany.


“Stronger” (EUA, 2017), escrito por John Pollono a partir do livro de Jeff Bauman e Bret Witter, dirigido por David Gordon Green, com Jake Gyllenhaal, Tatiana Maslany, Miranda Robertson, Richard Lane Jr., Nate Richman, Carlos Sanz, Lenny Clarke, Patty O’Neil, Clancy Brown, Kate Fitzgerald, Dannyy McCarthy e Frankie Shaw.


Trailer – O Que te Faz Mais Forte

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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