O Que Não Mata | É preciso falar a respeito

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


O que não mata fortalece, dizem. “Mas na verdade, isso faz é com que nós desaprendamos as coisas”, conta a narradora de O Que Não Mata. No documentário belga, acompanhamos Ada, que conta sobre sua juventude e sobre as vezes em que foi estuprada pelo namorado de sua melhor amiga.

Mas, ao assumir um formato similar ao que Eduardo Coutinho fez em Jogo de Cena, a história de Ada é contada por diversas atrizes, reforçando algo que qualquer mulher já sabe muito bem: a história de Ada repercute na história de todas as mulheres.

Aos 19 anos, dividindo um apartamento com sua melhor amiga, Ada se apaixona pela primeira vez: Hugo a encanta imediatamente e os dois começam um namoro a distância que dura cerca de um ano. Porém, quando sua amiga também começa a namorar, o outro rapaz parece enxergar Ada como um prêmio a ser conquistado, diz ela — aquilo que “pertence a outro” e que ele não pode ter e que por isso mesmo ele quer.

Algum tempo depois, quando os dois namoros já haviam terminado, o ex de sua amiga a chama para jantar na casa dele. Ela aceita. O que acontece em seguida é tão rápido, tão confuso, que ela demora a entender que foi estuprada. O rapaz a estupra novamente em outras duas ocasiões e, agora, “Ada” conta para a diretora Alexe Poukine sua lenta compreensão sobre o ocorrido e as tentativas de se reerguer depois de tudo isso.

Como Ada narra, cada uma das três experiências teve toques assustadores de irrealidade, de desassociação — “eu me escutei dizendo sim”, “eu vi meu sutiã no chão”, “eu assisti a tudo do teto”. É o tipo de abuso sexual que muitos demoram a entender que foi abuso sexual, como aconteceu com a própria Ada — é o tipo de abuso sexual que faz com que até mesmo algumas das mulheres que dão voz a Ada inicialmente se perguntem: “Mas como ela foi deixar isso acontecer?”

Ao colocar a experiência de Ada na pele de outra dezena de mulheres, Poukine explora as nuances do abuso e o quão insidioso ele pode ser, o quão sorrateiro. Algumas demoram mais, outras menos, mas todas acabam compreendendo as reações e os traumas de Ada. Afinal, cada uma delas encontra experiências próprias que ressoam no texto lido por elas; cada uma têm suas próprias histórias de abuso e consegue ter empatia com Ada enquanto mulher. É um medo, um trauma, um perigo universal para nós.

Indo além, Poukine seleciona ainda dois homens para ler o texto de Ada, o que traz ainda profundidade à forma com que ela explora seu tema. O primeiro desses homens é heterossexual e, depois de contar sobre os estupros de Ada, diz com uma risada nervosa: “Talvez eu também já tenha estuprado alguém”. Entre a ideia extremamente violenta e ameaçadora que a maioria das pessoas (dos homens) têm sobre o que é estupro e o sexo como ele deve ser, consensual, há um abismo gigantesco de possibilidades de abuso — esse homem imediatamente reconhece que muitas vezes enxerga o sexo como algo que “deve” acontecer entre duas pessoas que estão juntas, independentemente do que pensa a outra parte.

Enquanto isso, o segundo personagem masculino é gay e também conta sobre uma ocasião em que, mais tarde, ele identificou ter sido abusivo — “Hoje, eu consigo falar sobre isso. Ele, não.”

Focando também nas tentativas de Ada de se reerguer e de voltar a ter um relacionamento saudável com ela mesma, com outros homens e com o sexo após ter sido abusada, O Que Não Mata constrói uma narrativa repleta de empatia e que desafia a ir além do lugar comum.


“Sans Frapper” (Bel, 2019), dirigido por Alexe Poukine.



Trailer do Filme – O Que Não Mata

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