por Marina Cardozo, direto da Berlinale
24 de fevereiro de 2018

E, finalmente, saiu um filme sobre o golpe de 2016. Talvez “finalmente” seja uma palavra muito forte, afinal faz só dois anos e, mesmo assim, O processo é um filme que, mais do que importante, é necessário. É necessário para fazer o mundo ver o que aconteceu com o Brasil – motivo pelo qual a estreia mundial em Berlim é tão significativa – e, claro, é necessário para que os brasileiros entendam o que aconteceu no Brasil.

Principalmente diante de uma mídia que não poupa esforços para maquiar a inconstitucionalidade do impeachment de Dilma Roussef, um filme como esse é um alívio, um retrato de tudo que muita gente já sabia, mas que outro tanto de gente insiste em negar. E a maior qualidade de O processo está justamente nisso: apenas retratar.

O documentário dirigido por Maria Augusta Ramos inicia com a votação na câmara dos deputados, que aprovou a primeira fase do impeachment de Dilma Roussef. A sequência, que intercala planos mais abertos, da confusão entre os deputados e planos mais fechados de determinados políticos votando, transmite exatamente a sensação de urgência, ansiedade (e, por que não, desespero) daquele momento. Vemos deputados de ambos os lados, como Maria do Rosário e Jair Bolsonaro, votando, e a comparação dos argumentos deixa evidente a incoerência do processo. A sequência é completada com imagens das manifestações em frente ao congresso no dia da votação, que fortalecem o tom de divisão. A partir daí, Maria Augusta acompanha pessoas representativas de ambos os lados para construir a narrativa de como o impeachment se desenvolveu.

Em nenhum momento, o documentário se utiliza de entrevistas ou dos personagens falando diretamente ao espectador. A câmera aqui é mera observadora, uma terceira pessoa no meio das discussões de, principalmente, Gleisi Hoffmann e José Eduardo Cardozo, bem como da equipe responsável pela defesa de Dilma. O foco no lado de defesa, entretanto, é meramente circunstancial. Maria Augusta tentou fazer o mesmo com a acusação, mas teve o acesso negado, ficando limitada a acompanhar Janaína Paschoal em suas aparições mais públicas, durante o comitê do impeachment e nas votações subsequentes.

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O documentário, de mais de duas horas, traz uma montagem extremamente interessante, que conta cronologicamente todos os passos que levaram ao impeachment de Dilma. O uso de cortes secos e a falta de trilha sonora contribuem para o clima realista e sério que é necessário quando se trata de um assunto tão importante como esse. O não-uso de entrevistas também completa a ideia de que aqui não se tenta convencer ninguém de nada, aqui só se mostra tudo que é possível mostrar e o espectador que tire suas conclusões – algo em falta numa mídia tão amplamente manipulada como a brasileira.

Um ponto que vale a pena destacar é o brilhante paralelo com outro O processo, esse de Franz Kafka, algo que fica evidente no título, mas também na forma como a narrativa é construída. Desde o conceito até a estética claustrofóbica que Maria Augusta cria, ao permanecer quase que o tempo todo dentro dos prédios de Brasília, O Processo (esse documentário) traz muito de O processo (o livro), uma escolha interessantíssima e totalmente pertinente.

Por fim, é impossível falar do filme sem falar da resposta a ele. A estreia mundial, em Berlim, contou com muitas reações do público, tanto durante o filme – como as risadas quando Aécio Neves diz não tolerar corrupção ou quando Janaína Paschoal chora, pedindo desculpas a Dilma -, quanto, quando o canto de “Fora Temer” ecoou pelo cinema. O processo foi aplaudido de pé. Teve gente que veio a Berlim apenas para assisti-lo. O Processo é, sem dúvida, uma produção que vai fazer barulho onde quer que passe e eu espero, de coração, que no Brasil o barulho seja maior do que nunca.

Acompanhe nossa cobertura da Berlinale


“O processo” (Bra, 2018), escrito e dirigido por Maria Augusta Ramos.


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