Talvez não haja coisa mais sexy no cinema do que um casal em crise, com aquele espaço vago em sua relação para uma aventura extra-conjugal com alguma psicopata de plantão. O Preço da Traição, refilmagem do Frances Nathalie X (facilmente encontrado nas locadoras), é exatamente isso e graças a uma direção sensível do egípcio naturalizado canadense, Atom Egoyan, até acaba valendo uma ida ao cinema. Mas sem muitas esperanças ou você vai acabar perdendo um filme interessante.

Egoyan, que já teve seu nome indicado ao Oscar de 1998, por seu O Doce Amanhã, pelo menos é sincero e se segura para não cair em um suspense impessoal e sem graça, por mais que a todo momento o filme pareça gritar por isso. Infelizmente isso acaba fazendo com que tudo se torne uma experiência meio arrastada que está lá apenas para prenunciar uma reviravolta manjada.

A Chloe do título original (Amanda Seyfried) é uma garota de programa que é contratada pela ginecologista vivida por Julianne Moore para provar a infidelidade do marido (Liam Neeson). Surge uma relação amorosa, que logo se transforma em uma obsessão, mas o diretor parece mais interessado em virar seu olhar para as duas e não para a história. Sua câmera não tenta enxergá-las diretamente, mas sim quase sempre através de espelhos e janelas, que servem de filtro para uma realidade crua, de sentimentos e vontades que não podem ser encarados e acabam distorcidos. Uma tragédia anunciada, mas que carrega o espectador até seu final sem muitos problemas.
Embora Egoyan não dê esse último passo em direção ao suspense, deixando tudo repousar em um drama sexy sobre uma mulher em crise, acaba, bem verdade, não encontrando o peso ideal para carregar sua história, deixando-a um pouco leve demais. Nem diante da tragédia inevitável de seu fim, o diretor se dá o direito de sufocar o espectador com a tensão da situação (acompanhado ainda de uma trilha sonora sofrível de tão óbvia) que resulta em uma falta de coragem na hora de criar os conflitos da história, já que em nenhum momento eles parecem ser um problema difícil de ser resolvido.

Esse lado menos melodramático buscado pelo diretor, pelo menos dá a chance do trio de protagonistas se esbaldar em personagens cheios de profundidade e carisma, sobrando uma boa atuação até para a quase sempre fraca Amanda Seyfried, que consegue impor com propriedade um jeito inocente e ao mesmo tempo diabólico em sua Chloe, ainda que escorregando feio quando tenta ser sexy e fatal, mostrando até uma certa insegurança. Na verdade um papel difícil e complexo, que cairia melhor em alguma atriz menos “bonitinha”, mas que pelo menos precisa ser celebrado diante da coragem da atriz em sair do estereótipo que ela vem fazendo filme atrás de filme. As outras duas pontas desse triangulo, Moore e Neeson, como era de se esperar, esbanjam naturalidade e sensibilidade como os personagens que realmente precisam levar a trama, com suas dúvidas e aflições.

O Preço da Traição vai ser logo esquecido pelo espectador que for ao cinema vê-lo, mas, antes disso, não fará feio, deixando até aquela impressão de dever cumprido.


Chloe (EUA/Can/Fra, 2009) escrito por Erin Cressida Wilson a partir do original escrito por Anne Fontainne, dirigido por Atom Egoyan, com Julianne Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried


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