O Passageiro | Sá mais um pouco de Liam Neeson sendo Liam Neeson

O Passageiro Filme

O Passageiro lembra uma retrospectiva ou síntese dos últimos 10 anos no planeta Terra, desde a crise de 2008 até a crescente demonização das grandes corporações frente à classe trabalhadora (se você já ouviu falar do termo “1%” sabe do que estou falando). O resultado é um filme de ação que pode ser visto ou como “antenado” ou ultrapassado, dependendo do quanto você já foi bombardeado por filmes contra o sistema. Aliás, eu nem sei mais se o sistema continua sendo o vilão da vez, mas é o que o filme sugere. No final das contas, desconfio que o único motivo real desse filme é ver Liam Neeson de volta à ação.

E aqui ele retorna mais uma vez como o cara que tem que proteger sua família. Para isso seu incentivo inicial, como para muitos de nós, é o dinheiro. Mas algo ocorre no caminho e ele acaba caindo no dilema do sacrifício para “fazer a coisa certa”. E ele já está sendo testado desde o começo. Vemos uma bela introdução que usa repetições do dia-a-dia para ilustrar a rotina de uma família e seus desafios cotidianos. No final dela sabemos que ele é um ex-policial (claro) que está trabalhando por 10 anos como vendedor de seguros para uma mega-corporação (claro) para sustentar sua família. Ele obviamente acaba sendo demitido 5 anos antes de sua aposentadoria e, com duas hipotecas e a faculdade do filho para pagar, você imagina que ele não ficou muito feliz por ter feito a coisa certa nos últimos 10 anos.

Com uma boa parte de drama, mistério e suspense salpicado pontualmente de ação em um filme que se passa essencialmente dentro de um trem e seu trajeto de subúrbio rodeado de estranhos, esta acaba sendo uma história sobre o sofrimento humano diário pós-moderno: a labuta sem sentido. E esses humanos no filme sofrem muito.

Eles trabalham como loucos, realizam uma viagem de trem todos os dias até o trabalho. E até os funcionários do trem trabalham feito condenados, ou pelo menos todos fazem aquela reclamação básica. “Se o trem não acabar me matando um dia as pessoas o farão”, diz um senhor que parece trabalhar por décadas na mesma linha. O trabalho é visto como sofrimento, e a falta de uma recompensa no final, uma punição.

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Além disso, a estrutura dos vilões desse filme lembra também uma mega corporação onde ninguém é responsável por nada e todos precisam fazer o que lhes é mandado, o que se torna uma ótima sacada nos momentos de tensão, principalmente no final. Quando a própria hierarquia dos vilões é confusa e não personalizamos quem é de fato o vilão-mor, isso se torna uma poderosa metáfora sobre como estamos todos marchando alienados, todos nós, em direção ao precipício. Estranhos entre nós fazem parte de todos os nossos dias, nos corredores e bancos dos trens apinhados de gente. Os que poderiam ser nossos melhores amigos se tornam estranhos, e os que ganhamos confiança no serviço se tornam nossos reais inimigos. Mesmo que eles não queiram. Sabe como é, todo mundo tem uma família para sustentar.

O roteiro escrito a seis mãos e dirigido por Jaume Collet-Serra é um trabalho confuso em sua temática, mas mais confuso ainda nas cenas de ação. Collet-Serra, depois de A Casa de Cera e A Órfã, se especializou em filmes com Neeson, e aqui faz talvez o seu pior trabalho com o ator, empregando o trem e seu espaço reduzido para cenas de tirar o fôlego não porque elas sejam intensas e longas (e pelo menos uma não possua cortes aparentes por minutos), mas sim, porque a “mise en scene” do sujeito é uma bagunça. Nunca sabemos direito o que aconteceu antes de um corpo cair no chão ou um soco atingir alguém. Embora parado e sem mexer muito a câmera os enquadramentos sejam até interessantes (como os longos travellings de vagão em vagão ponta a ponta do trem), no final, a ação que todos esperam fica borrada, escura e indetectável.

Neeson não parece (como seu personagem) estar com 60 anos. Ele não aparenta a idade, mas aparenta estar cansado. E isso seu personagem realmente está. No entanto, é difícil ver muito mais do ator do que isso. Ele não se torna mais ágil porque é o Liam Neeson, e nem chega a voltar a ser aquele ex-policial que retorna das cinzas. Ele vai andando pelo filme sempre à deriva, sem termos certeza de suas intenções ou até de sua capacidade de desvendar o mistério que cerca o filme ou sair daquela encruzilhada.

Por fim, O Passageiro acaba sendo mais um filme com Liam Neeson em cenas de ação por uma causa maior, mas diferente de Jason Staham, por exemplo, ele parece estar perdendo o fôlego paulatinamente. É improvável que tenhamos um O Passageiro 2, mas se tivermos, provavelmente será alguma luta contra o tempo no corredor de uma UTI. E Liam Neeson já tem uma cena envolvendo um medidor de pressão e um estetoscópio. O estetoscópio é pro personagem dele conseguir ouvir melhor.


“The Commuter” (EUA, RU, 2017), escrito por Byron Willinger, Philip de Blasi, Ryan Engle, dirigido por Jaume Collet-Serra, com Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Jonathan Banks


Trailer – O Passageiro

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