O Ódio que Você Semeia | Esfrega na nossa cara


No mundo em que vivemos, talvez não exista nada mais brutal e violento do que a realidade. O Ódio que Você Semeia busca essa realidade, não baseada em uma história real, mas sim em várias. E pode parecer que o filme está falando do ficcional bairro de Garden Heights, mas acredite, ele estava falando de todos os guetos espalhados pelo mundo.

É lógico que o retrato mais próximo do filme dirigido por George Tilmann Jr., à partir do best seller de Angie Thomas, são os Estados Unidos, mas é difícil não enxergar as semelhanças em cada lugar que você olhar.

É difícil não achar o quanto é normal um pai negro ensinar seus filhos pequenos como eles devem se comportar em uma batida policial. Ou do como, ao mesmo tempo, ele lembra-os do quanto eles precisam conhecer seus direitos e seus valores enquanto faz com que eles decorem um manifesto dos Panteras Negras. As referências podem ser americanas, mas as verdades são universais.

O Ódio que Você Semeia é então sobre Starr (Amanda Stenberg), uma garota típica de Garden Heights, com a única diferença que seus pais resolveram colocá-la em uma escola particular Williamson, afastada do bairro. De acordo com a mesma, para não frequentar a escola pública e ficar “bêbado, chapado, grávida ou acabar matando alguém”. O problema é que isso faz com que ela precise lutar com suas personalidades, “não ser muito Garden Heights na Williamson e nem muito Williamson em Garden Heights”.

Essa barreira começa a ruir quando ela vê um de seus amigos de infância ser assassinado por um policial durante uma batida, o que a torna a única testemunha de um crime que abala a cidade inteira.

O roteiro de Audrey Wells então não vai muito longe para encontrar o ponto perfeito para contar essa história. Não vai ser a primeira vez que você acompanhará a voz da protagonista narrando com bom humor e sensibilidade grande parte da ação, Meninas Malvadas, por exemplo, usou esse recurso de modo muito mais eficaz, mas o que vale aqui é a intenção. Estar na cabeça de Starr é ao mesmo tempo divertido, sensível e desconfortável. Enxergar o mundo através de seus olhos é um grande exercício que esfrega a hipocrisia na caras de todos e aperta o coração de muita gente.

E quando seu amigo a lembra a frase de Tupac Shakur, daquilo que a sociedade lhe dá quando pequeno ser o mesmo que irá ferrá-los depois, é através de Starr que você vai entender exatamente o que ele queria dizer. O Ódio que Você Semeia é sobre quebrar o ciclo e tentar mostrar que existe sim uma população invisível e ignorada. Starr tem a oportunidade de fazer a diferença, mesmo que isso transforme sua vida.

Um filme de formação, é bem verdade, mas sobre uma formação que esfrega na sua cara algumas verdades que você talvez não esteja tão preparado para engolir. Uma experiência que acaba se tornando obrigatória por conseguir fazer você pensar sobre o discurso do tio de Starr, vivido por Common, quando ele mesmo não percebe que está apenas alimentando uma roda de violência. O Ódio que Você Semeia é sobre tirar o dedo do gatilho.

Para a sorte do diretor George Tillman Jr. a história que ele tem em mãos é muito mais interessante do que suas decisões estéticas. Quadrado e sem emoção, Tillman parece apenas permitir que a história aconteça, em um mínimo de apuro estético que o permitisse merecer algo maior que algum serviço de streaming na TV. Seu trabalho se resume então a olhar para seus personagens, uma oportunidade que ainda é perdida diante de algumas boas atuações do elenco.

Amanda Stenberg tem a segurança de quem trabalhou bastante nos últimos anos. Com apenas 20 anos completados em 2018, ela vem aparecendo em grandes filmes desde Jogos Vorazes em 2012, com mais recentemente protagonizando os sucessos adolescentes Tudo e Todas as Coisas e Mentes Sombrias. Sua Starr é eficiente, principalmente na insegurança com que ela precisa encarar essa encruzilhada.

Seu bom trabalho é seguido pelo interessante Russel Hornsby no papel de seu pai, Maverick, forte, selvagem e tenso, como se fosse sempre a voz da realidade dentro da família. Ainda preso ao seu passado problemático, mas disposto a tudo para que sua família nunca mais sofra o que sofreu.

Isso pode parecer uma história de um personagem específico, mas é de muita gente pelo mundo. Gente que só quer aproveitar essa segunda chance. O Ódio que Você Semeia não é sobre Maverick ou Starr, é talvez sobre entender que o círculo vicioso faz com que faça sentido Harry Potter ser sobre gangues, já que é a única coisa que se consegue enxergar. E isso não é exclusivo desse bairro violento de algum lugar dos Estados Unidos, é sim sobre a situação dos negros ali e em boa parte do mundo, e mais do que isso, é sobre seres humanos achatados por um sistema e uma sociedade que prefere rejeitá-los.

E não existe nada mais brutal e violento do que enxergar o quanto isso é universal e quase não tem nada de ficcional.


“The Hate U Give” (EUA, 2018), escrito por Audrey Well, à partir do livro de Angie Thomas, dirigido por George Tillman Jr., com Amanda Stenberg, Reginal Hall, Russel Hornsby, Anthony Mackie, Issa Era, Common, Algee Smith e K.J. Apa.


Trailer – O Ódio que Você Semeia

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