O Lobo de Wall Street | Scorsese vai até o limite da sanidade para tentar entender toda loucura

Talvez Martin Scorsese tenha pegado pesado em O Lobo de Wall Street, mas o diretor também pegou pesado em O Touro Indomável e Taxi Driver e o resultado foi genial. Portanto (ainda que não tão clássico como os dois citados), o melhor mesmo é se preparar para ser surpreendido por Scorsese mais uma vez.

Muito menos visceral que nos dois exemplos, o que o diretor faz agora é buscar o mesmo estudo de personagem, mas dessa vez, não só implacável com seu protagonista, mas carregado de uma crítica afiada que deixa pouca coisa intacta. Que vai em busca do limite da luxúria e da ganância, sem ter medo de mergulhar de cabeça em um zoológico humano que reflete uma geração que convivia com facilidade demais diante do bizarro, contanto que ele lhe desse a oportunidade de elevar às últimas consequências as suas experiências.

Uma geração que viu a possibilidade de um mercado que poderia tirar milhões em um segundo e criar milionários no segundo seguinte. Como se Scorsese deixasse o famoso Gordon Geeko (vivido por Michael Douglas em Wall Street e em sua sequência) tomar um pacote de LSD (e mais qual droga tivesse à sua disposição) e gastar todo seu dinheiro com mulheres, anões e o que mais ele tivesse a possibilidade de colocar nessa história. Scorsese testa o limite e o que ele encontra é uma obra de arte precisa e tão complexa como todos seus maiores trabalhos.

E é lógico que o diretor esta sendo acusado de “celebrar” essa ganância (e toda loucura), mas isso soa como a verdadeira “missão cumprida”. É isso que ele parece querer, principalmente por não ter medo nem receio de encarar de frente tudo que esse maluco, Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), faz para ir de pobre até milionário. Sem escrúpulos. Sem arrependimento. Sem deixar seu espectador entediado nem por um momento (mesmo em um filme de três horas, que passam voando!).

Belfort, que é um personagem real e escreveu o livro que serviu de inspiração para esse filme enquanto cumpria pena na prisão, te leva (literalmente, já que não são poucas vezes em que “quebra” a quarta parede e conversa com o espectador) por essa viagem em que tudo é movido por sua droga preferida: o dinheiro. Na verdade, essa e todas outras possíveis. E não se preocupe se a ideia de um filme sobre bolsa de ações te afastaria do cinema, e muito tentar entender o que é IPO (“fuck!), o que ele quer você saiba é que é ilegal e vai dar muito dinheiro para eles. Eles, no caso, uma empresa que Belfort monta e se especializa em “vender” o mercado de ações para o americano comum. Uma empresa que nasce com alguns losers padrões, mas cresce e se torna não só um sucesso, mas um lugar famoso pelo esquema motivacional que mais parece uma sede moderna de Sodoma e Gomorra.

O Lobo de Wall Street Crítica

E o que o roteiro de Terence Winter, acostumado a personagens vilanescamente interessantes (vem de trabalhos nas séries Boardwalk Empire e Família Soprano), faz, é suavizar toda essa loucura com uma carga enorme de humor. São poucos momentos em O Lobo de Wall Street onde se pode levar a sério uma cena inteira, e até em momentos de desenvolvimento de personagens e situações paira um véu de loucura. É lógico que o destinho de Belfort não fica muito perto do feliz e do bem humorado (bem pelo contrário), mas isso é construído com uma leveza que soa como o único modo de conseguir que personagens tão vis e deturpados consigam ser acompanhados com o mínimo de simpatia.

Winter e Scorsese então não tem medo do politicamente incorreto e da acidez, já que sabem que o final é pago com dor, sangue e sofrimento, mas tampouco fogem de terem o diálogo mais sério do filme sendo sobre os limites de um anão que será usado como aparato para mais um festa de arromba do escritório. E nesse momento O Lobo… deixa claro que a intenção é sim ofender e chegar ao limite, por que talvez só assim seja possível contar essa história. Isso, e um elenco incrível.

Na ponta, um Leonardo DiCaprio que parece tomado por essa loucura, em um personagem extremamente complexo que vai de um estalo de inocência até a mais profunda monstruosidade. Uma atuação que não cai no caricato e se contém perfeitamente bem até nos momentos em que o personagem se encontra no mais profundo poço, mas sem nunca perder um olhar confiante e uma veracidade que assusta dentro de toda loucura. Isso, ao mesmo tempo em que convive com a sutileza de minimalista de certos momentos (como no incrível diálogo entre Belfort e o agente do FBI, onde tudo acontece nas entrelinhas).

E falando naquele momento de inocência, nesse instante, quem toma as cenas para ele é Matthew McConaughey, que aproveita a forma física esquelética que foi necessária para estrelar o protagonista com AIDS de Clube de Compras Dallas para em Lobo de Wall Street criar um personagem com pouco tempo de tela, mas tão bem construído que perdura até o final do filme, senão pelos socos no peito e o zumbido com a boca, pela sensação do quanto o resto da história seria ainda mais bizarro com ele presente. Mas felizmente esse resto ainda tem a presença de Jonah Hill e esse presente das mãos de Scorsese.

O Lobo de Wall Street Filme

Hill, que, diferente de seu outro “papel sério” em O Homem que Mudou o Jogo, agora tem liberdade de equilibrar isso com o humor que lhe fez aparecer no cinema. Aquele que lhe permitia rir do próprio personagem, que nesse caso é realmente ridículo, mas um ridículo extremamente bem construído e com momentos que levam ainda ainda mais ao limite O Lobo de Wall Street.

E talvez seja exatamente esse limite que Scorsese está em busca (como o texto não cansa de repetir!), não só em termos de história, como de sua própria carreira. Buscando um personagem que se ausente daquela mesma culpa que tanto oprime sua vasta lista de protagonistas. Isso e uma crítica ferrenha ao seu próprio país e a mesma facilidade com que a nação continua a “viver” sem olhar para trás. Uma nação que, assim como Belfort em seus derradeiros momentos no filme, mesmo soterrada de pecados, continua apenas em busca daquela pessoa que sabe vender melhor “aquela caneta”. E se não encontrar, existem “Belforts” suficientes no mundo para ensinar o que fazer com elas.

Por isso, no meio de uma avalanche de “fucks”, Scorsese faz questão que seu O Lobo de Wall Street grite mais alto que todos um sonoro “fuck you USA!”, pois no final das contas é isso que o diretor vem fazendo em toda sua carreira: esfregando na cara dos Estados Unidos uma verdade que ele faz questão de ignorar.


“The Wolf of Wall Street” (EUA, 2013), escrito por Jordan Belfort (livro) e Terence Winter, dirigido por Martin Scorsese, com Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Kyle Chandler, Jon Bernthal, Matthew McConaughey, Jean Dujardin, Rob Reiner e Jon Favreau


Trailer do filme O Lobo de Wall Street

Outros artigos interessantes:

1 Comment

  1. É um filme expetacular. São 3h que passam voando. Não para sequer um minuto. Muito bom!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *