O Jantar é um filme difícil de ver. Ele é tenso, coloca seus nervos à flor da pele, discute temas difíceis e ainda por cima possui um elenco afiado em encarnar personagens difíceis de engolir em uma discussão de fachada que revela mais sobre o espectador que está assistindo do que sobre aquelas pessoas tentando encontrar consenso onde não existe nenhum.

Ele começa de maneira justíssima colocando o personagem de Steve Coogan, Paul Lohman, na posição de destaque que ele merece. Lohman não é o mais simpático dos sujeitos, mas durante o filme inteiro ouviremos sua narrativa mental do que está acontecendo (pelo menos o que está acontecendo de acordo com sua cabeça). O sujeito começa sua exposição de uma maneira profética, mas incrivelmente sensata, e ganha de início uma certa simpatia do espectador, ou pelo menos o respeito em ser uma pessoa que defende opiniões fortes, o que importantíssimo para que seu personagem funcione ao longo da narrativa.

A despeito disso, Paul Lohman é um personagem a ser estudado, venerado e reassistido algumas vezes. Professor de História, sua forma bruta e problemática de exagerar tudo como se qualquer evento fosse de fato um Evento da História – até um simples jantar com o irmão – parece conseguir sempre dar o tom épico a situações corriqueiras. Toda a pontuação, o tom, os maneirismos, o mexer de cabeça e o balançar dos olhos torna Lohman possivelmente o personagem mais dramático de Steve Coogan, um papel digno de prêmios, ainda que este cuidadosamente flerte com a caricatura por praticamente toda a história, apenas se revelando, ou se despedaçando, pouco a pouco durante as discussões.

E as discussões, ou deveríamos dizer As Discussões, recebem títulos de momentos de um jantar rebuscado – Aperitivos, Prato Principal, Queijos e assim por diante – em um restaurante imponente que torna uma refeição não apenas em uma obra de arte, mas um verdadeiro ritual. Para o desespero de Lohman, que vê tudo aquilo como fruto de um processo de destruição humana causada por guerras, incluindo as americanas. Para o espectador sempre será difícil desvendar os comentários do professor Lohman a respeito de qualquer coisa, pois ele estará dourando a pílula da realidade sob a forte convicção de ser um herói de guerra batalhando no fronte.

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Porém, no meio de tudo isso, os reais acontecimentos que cercam O Jantar vão sendo revelados, e as coisas ficam muito mais feias do que as depressivas melancolias de um professor de história. Os filhos de ambos os casais estão envolvidos, e aos poucos tudo vai se assemelhando ao ótimo Deus da Carnificina. Mas se o filme hermético e teatral de Roman Polanski gira mais em torno das diferentes personalidades de cada pessoa envolvida e como seus papeis se adaptam às estratégias que utilizam para tentar \”a vitória\” na discussão, em O Jantar a seriedade e a emergência da situação, e a reputação pública e os problemas do passado ainda não resolvidos daquela família parecem elevar tudo ao cubo.

O diretor e roteirista Oren Moverman pega o romance do holandês Herman Koch e o transforma em uma espécie de discussão ácida sobre a política e, consequentemente, a sociedade norte-americana. Cheio de alegorias que estão atualizadas com os recentes atritos em voga, como racismo, classes sociais, relativização da violência, intolerância, excesso de tolerância, elitismo, máscaras sociais. Tudo isso e muito mais é cozinhado em fogo alto pelo diretor, que insiste em potencializar sua noite fatal narrada aos mais diferentes sons e trilhas sonoras que evocam o imediatismo de uma sociedade que beira ao colapso. Por mais que queiramos nos desfazer do discurso mental do professor Lohman, principalmente por este se revelar uma pessoa com certos problemas pessoais, ela inevitavelmente se parece com um retrato fiel, ainda que pintado como um campo de batalha, do que acontece no filme.

O uso de cores sisudas (e sombrias) e cenários imponentes (apesar de vermos tudo mais de perto) criam uma atmosfera angustiante. A saída e entrada de pessoas à mesa deixa tudo mais inquieto. Os mistérios ainda não revelados elevam a tensão cada vez que constatamos que esta é uma família à beira da explosão. Quando o mistério é revelado se torna claro que Moverman quer abalar muito mais do que os alicerces de uma simples família.


\”The Dinner\” (EUA, 2017), escrito por Oren Moverman, Herman Koch, dirigido por Oren Moverman, com Steve Coogan, Laura Linney, Richard Gere, Rebecca Hall e Chloe Sevigny


Trailer – O Jantar

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