por Mariana González
07 de fevereiro de 2018

As relações entre grupos distintos de pessoas — sejam baseadas em etnias, nacionalidades, religião, etc. — são historicamente, e até hoje, complicadas. A ignorância, a falta de empatia e a intolerância nos acompanham até a atualidade, ainda que avanços visíveis aconteçam. É o caso entre os cristãos libaneses e os refugiados palestinos que foram para o país fugindo de conflitos em seus lares. Para retratar esse embate e o perigo que a intolerância representa, O Insulto conta a história de uma ofensa que, em vez de ser rapidamente solucionada como deveria, torna-se uma questão de Estado que envolve a população inteira do Líbano, nativos e refugiados.

ATony Hanna (Abel Karam) é um cristão libanês, em uma época em que o Partido Cristão declara “sustentar o Estado”. Certo dia, enquanto rega as plantas de sua sacada, uma calha quebrada leva essa água a cair em cima de um grupo de trabalhadores palestinos, ou seja, refugiados no Líbano. Um deles, o muçulmano Yasser Abdallah Salameh (Kamel El Basha), decide consertar a calha de Tony — e o cristão imediatamente quebra-a de novo. Tony se ofende por Yasser ter “invadido” sua propriedade e sua autoridade, enquanto Yasser se ofende pelo outro ter “jogado” água nele. Um mal-entendido que, de cara, ganha camadas mais profundas — e perigosas — pelas diferenças entre os envolvidos.

O chefe de Yasser tenta convencê-lo a pedir desculpas a Tony para acabar de vez com o conflito. Quando ele finalmente cede, Tony não colabora e acaba falando: “Eu gostaria que Ariel Sharon [ex-primeiro ministro de Israel] tivesse acabado com todos vocês”. Isso leva Yasser a, é claro, também perder o controle — e é quando ele dá um soco em Tony, quebrando duas costelas, que a situação vai parar nos tribunais libaneses, onde uma dupla de advogados que são pai e filha irão representá-los. Assim, a acusação, que parte de Tony, fica nas mãos do conservador Wajdi Wehbe (Camille Salameh), enquanto Yasser relutantemente aceita ser defendido pela jovem advogada liberal Nadine Wehbe (Diamand Bou Abboud), que atende-o pro bono. O embate legal alcança a grande mídia do país e envolve as paixões, angústias e medos das “torcidas” e dos envolvidos de ambos os lados, aumentando ainda mais a tensão entre Tony e Yasser.

A mensagem de O Insulto é obviamente importante, especialmente nos tempos conflituosos e repletos de intolerância que vivemos e considerando a forma com que a população refugiada é acolhida mundo afora. Assim, o diretor Ziad Doueiri, que também assina o roteiro ao lado de Joelle Touma, demonstra coragem ao encerrar o conflito da maneira que escolheu. Entretanto, já que Tony e Yasser representam um contexto muito maior, é necessário também focar nos dois enquanto personagens — e é aqui que o longa mostra-se menos interessante. Insistindo em longos diálogos expositivos e em acontecimentos posteriores que surgem como segredos revelados, O Insulto perde parte de sua força ao buscar motivações ocultas para o preconceito de Tony, como se crescer e viver em um meio social em que essa intolerância se propaga não fosse o suficiente.

O Insulto Crítica

Mais eficiente é a forma com que a obra compreende que Tony, Yasser e os demais envolvidos no julgamento sabem que as origens do conflito podem ser palavras estúpidas e nascidas de uma raiva momentânea, mas que também são fruto de exaustão — aquilo foi a gota d’água para ambos e, consequentemente, para quem acompanha o embate. Há, também, momentos pontuais em que, por meio de seus personagens, Doueiri demonstra o perigo representado por visões estereotipadas de um grupo de pessoas e de transformar em regra comportamentos demonstrados por um indivíduo desse mesmo grupo — “essa gente é traiçoeira”, alguém declara, em certo ponto, sobre Yasser.

Assim, mesmo que O Insulto prejudique sua intensidade com atuações frequentemente dadas ao melodrama e ao insistir em ilustrar por meio do diálogo aquilo que já estava óbvio, mostra-se relevante pela maneira com que entende que as feridas do passado influenciam a frágil harmonia do presente. Na maior parte do tempo, porém, Karam e El Basha mostram compreender muito bem seus personagens: enquanto o primeiro faz de Tony um homem instável e imprevisível, El Basha constrói Yasser como uma figura melancólica e sensível, mas também repleto de dor, angústia e raiva.

Mas a qualidade mais importante de O Insulto é, sem dúvidas, a empatia que o move. Ausente ou presente nas pessoas que aqui acompanhamos em diferentes níveis (e em diferentes momentos), a empatia jamais deixa de estar presente no diretor ou em sua co-roteirista e, consequente, na obra em si — o que nos leva ao já mencionado eficiente final. E, com isso, este candidato a melhor filme estrangeiro no Oscar 2018, representando o Líbano, mostra-se também um retrato tristemente importante de nossos tempos.


“L’insulte” (Líb/Bél/Chp/Fra/EUA), escrito por Ziad Doueiri e Joelle Touma, dirigido por Ziad Doueiri, com Adel Karam, Kamel El Basha, Camille Salameh, Diamand Bou Abboud, Rita Hayek, Talal Jurdi, Christine Choueiri e Julia Kassar.


Trailer – O Insulto

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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