O Homem Duplicado narra a história de Adam Bell, um solitário professor de história, que ao alugar um filme nota que um dos atores é idêntico a ele. Curioso, Adam pesquisa mais sobre o ator, de nome Anthony Claire, e logo se torna obsecado com seu sósia, O Homem Duplicadolevando-o a visitar seu local de trabalho e a ligar para sua casa. Quando Adam finalmente entra em contato com Anthony, os dois resolvem se encontrar em um hotel e ao se verem ficam chocados com a semelhança que apresentam. Porém, o encontro só traz desconfiança para ambos, levando-os a tomarem decisões que mudarão para sempre suas vidas.

Baseado no best-seller do escritor português José Saramago, O Homem Duplicado é um longa dirigido de forma habilidosa pelo canadense Denis Villeneuve. Incrivelmente talentoso, o diretor foi responsável por um dos melhores trabalhos de direção de 2013 com seu Os Suspeitos. E embora não conte aqui com o experiente Roger Deakins na direção da fotografia do filme – que lhe rendeu uma indicação Oscar por Os Suspeitos no início deste ano -, seu compatriota, igualmente inventivo, Nicolas Bolduc, não faz feio ao criar um visual envolto em sombras que realça com maestria o clima de paranoia que permeia o longa.

Villeneuve por sua vez trabalha esse aspecto com o uso de ângulos que dão sempre a impressão de que os personagens estão sendo observados. Uma decisão inteligente, simples e eficaz que nos faz subconscientemente abraçar a paranoia que o protagonista está vivendo na tela.

Também é digno de destaque o trabalho de Jake Gyllenhaal que, evidentemente, faz o papel dos dois homens centrais à trama. Contido, tímido e com dificuldades em se relacionar com outras pessoas, Adam é uma figura completamente distinta de seu “duplicado”, uma pessoa de sangue quente e impulsiva. E mesmo que ambos usem o mesmo corte de cabelo e barba, Gyllenhaal consegue fazer com que nós, os espectadores, sejamos capazes de diferenciá-los imediatamente graças ao trejeitos, entonação de voz e à própria postura corporal que cada um apresenta.

O Homem Duplicado

Por tudo isso é possível facilmente notar que, assim como em Os Suspeitos, este trabalho de Villeneuve teria imenso potencial para se tornar um dos melhores filmes do ano. Infelizmente, o roteiro pedestre de Javier Gullón impossibilita completamente isso de ocorrer. Além de criar duas subtramas não existentes no original e desnecessárias à interessantíssima história central, Gullón corta momentos cruciais da obra de Saramago, entre eles, uma das melhores passagens do livro próxima a seu desfecho. Para piorar, as sub-tramas são mal desenvolvidas e nunca propriamente concluídas. E por fim, talvez o mais chocante, é que, apesar de tantas inclusões, o longa termina de uma forma abrupta e inconclusiva enquanto o desfecho escrito por Saramago é orgânico e surpreendente ao mesmo tempo.

As decisões tomadas por Gullón, portanto, só levam a enfraquecer o longa, diluindo o impacto da trama central sem acrescentar qualquer valor ao projeto como um todo. É incompreensível o que levou Gullón a tomar tais decisões, mas é ainda mais surpreendente que elas tenham chegado à versão final do roteiro.

Apesar disso, o filme ao menos vale como confirmação do quão bom Villeneuve é como diretor, agora não mais apenas de filmes de baixo orçamento. Seu futuro trará com certeza obras magníficas e, portanto, é um nome que todo cinéfilo deve anotar.


“Enemy” (Canada, 2014), escrito por Javier Gullón, dirigido por Denis Villeneuve, com Jake Gyllenhall, Mélanie Laurent, Sarah Gardon e Isabella Rossellini.


Trailer do filme “O Homem Duplicado”

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