O Franco-Atirador começa bem. Os primeiros 40 minutos de filme parecem o prenúncio de algo bom: um thriller de ação político, bem estruturado, cuja falta de inspiração e excesso de clichês são bem mascarados pela bela atmosfera e pelo elenco talentoso. Parece o tipo de filme em que a temática em si não importa tanto quanto o modo como será tratada. O presságio, porém, não se concretiza, e a segunda parte do filme pede o trocadilho com a tourada que se torna seu – fraco – ápice: se torna “bull…”, se é que você me entende.

O filme conta a história de John Terry, ou Terrier (Sean Penn), atirador profissional contratado para proteger a Organização das Nações Unidas durante suas missões no Congo de 2006, devastado pela guerra civil e dominado por mineradoras. Entretanto, a empresa de Terrier tem outro contrato: com uma mineradora internacional. Após ser designado para uma tarefa desse trabalho escuso – matar o Ministro das Minas do Congo –, Terrier foge do país, deixando para trás a namorada Annie (Jasmine Trinca) e o caos gerado pela morte do Ministro. Anos depois, em uma missão humanitária no Congo – uma espécie de redenção do personagem –, John é atacado, o que o faz concluir algo: alguém além dos envolvidos sabe da operação.

A trama  de O Franco-Atirador, neste ponto, estabelece diversas perguntas cuja resposta o espectador anseia por saber. Parece que a história seguirá pelo caminho das intrigas políticas e de poder, o que, de certa maneira, faz. Porém, o enfoque dado a esta esfera da narrativa é pobre e muito menor do que a atenção recebida pela ação.

Alguém teve a brilhante ideia – talvez o próprio Sean Penn, que co-assina o roteiro, num anseio por ser Liam Neeson  (e talvez não à toa, o filme é dirigido pelo menos Morel de Busca Implacável) – de fazer de Terrier um herói de ação pós-meia-idade. Essa ideia não cai muito bem por si só, mas há mais: uma doença misteriosa que existe unicamente para servir de desculpa para as falhas de timing perfeito do herói. Afinal, a enfermidade só ataca quando ele está sob estresse. E quando ele é pressionado? Claro, nos momentos mais decisivos ou convenientes para o filme. Em meio a um tiroteio que inicia do nada, onde há cerca de sete homens contra ele e a amada, numa casa de campo, em que existe apenas uma saída, nada acontece. Ah, a falta de noção do cinema de ação; ela sempre dá as caras.

O Franco-Atirador

O que dói em O Franco-Atirador é ver uma trama com potencial cair no trivial. O filme não exatamente promete o que não entrega, mas deixa subentendida uma história mais complexa. Em vez disso, o espectador é bombardeado por cenas de ação, bem feitas, sim, mas que fazem do filme um amontoado de clichês.

O subaproveitamento de atores como Javier Bardem e o próprio Sean Penn também é quase inexplicável. Bardem é confinado a um personagem pouco desenvolvido, que tem como única função antagonizar de maneira fraca o protagonista. Já Penn leva à tela um personagem raso, que dá a impressão de ser exatamente aquilo que se vê: um atirador de habilidades quase ninja, mas de bom coração. Não há camadas, não há desenvolvimento. É o que é, o que é mostrado e ponto.

Há, também, um erro crasso de pesquisa básica: a menos que os vilões tenham deixado a Catalunha em muito pouco tempo, é impossível uma tourada ser o pano de fundo do clímax. O “esporte” é proibido desde 2011 na região espanhola. Mas levando em conta que este momento ocorre na segunda metade do filme, pode ser que o roteiro tenha apenas contado com a burrice do espectador: “ninguém vai perceber isso, olha quantos tiros, mortes e pancadaria tem para desviar a atenção”.


“Gunsman” (Esp/RU/Fra, 2015), escrito por Don MacPherson, Pete Travis e Sean Penn, à partir do livro de Jean-Patrick Manchette, dirigido por Pierre Morel, com Sean Penn, Jasmine Trinca, Javier Bardem, Ray Winstone, Mark Rylance e Idris Elba


Trailer do filme O Franco-Atirador

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