Após a angústia de Feliz Natal e do equilíbrio perfeito entre alegria e melancolia construído em O Palhaço, Selton Mello demonstrou que seu talento como ator se estendia também para detrás das câmeras — e, mais do que isso, que é um cineasta extremamente interessado em seus personagens. Calcada principalmente na nostalgia, sua terceira obra, O Filme da Minha Vida, confirma tudo isso ao demonstrar um imenso carinho pelas figuras que acompanha e, também, um cuidado estético belíssimo.

O jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) deixou a pequena cidade gaúcha em que mora para estudar na cidade grande. Ao retornar para casa, ele é surpreendido pela notícia de que seu pai, o imigrante francês Nicolas (Vincent Cassel), resolveu voltar para a França, abandonando a brasileira Sofia (Ondina Clais Castilho), sua esposa e mãe de Tony. Enquanto lida com isso, Tony também começa a trabalhar como professor em uma pequena escola da cidade, onde se vê às voltas com a atração que sente pelas irmãs Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes).

O título de O Filme da Minha Vida é justificado pelo tom de contação de histórias adotado pelo protagonista em sua narração, que inicia com um pequeno resumo de sua trajetória até então (o que se revela poético, e não expositivo, pela qualidade do roteiro escrito por Mello ao lado de seu parceiro habitual, Marcelo Vindicato, e baseado no livro Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta). E o resto? “O resto, eu não posso contar”, declara Tony, pois se trata justamente daquilo que acompanharemos durante a projeção.

A força da nostalgia e das memórias que carregamos conosco é expressa em todos os elementos da obra, desde a bicicleta que simboliza a infância passada ao lado do pai ao radinho que resiste em meio ao surgimento da televisão. A própria doçura e ingenuidade de Luna, que eventualmente as abandona em favor de uma recém-descoberta determinação, é uma representação do processo de amadurecimento do próprio protagonista. Enquanto isso, sua irmã, Petra, simboliza outra faceta do arco dramático de Tony: ao prender-se às glórias do passado (vide os prêmios e fotos empoeirados que ela mantém em seu quarto para ilustrar seu sucesso em concursos de beleza), Petra teme a possibilidade de um futuro em que jamais conseguirá voltar a alcançar tais feitos.

Nesse sentido, o desenvolvimento de Luna é interessante não apenas por trazer profundidade à personagem, mas também por livrar Bruna Linzmeyer das tentativas um tanto exageradas de estabelecer sua meninice — algo provavelmente acentuado pelo fato de que, apesar de viver uma personagem bem mais nova do que seu interesse romântico, a diferença de idade entre a atriz e Johnny Massaro é de apenas um ano. Já Bia Arantes entende muito bem o fato de que a autoconfiança e a sensualidade de Petra escondem sua insegurança e medo.

O Filme da Minha Vida Crítica

No centro da narrativa, Massaro faz um belo trabalho ao deixar a ingenuidade de seu personagem de lado pouco a pouco e, a partir disso, se fortalecer. Enquanto isso, Vincent Cassel inicialmente faz de Nicolas um homem vibrante e carismático, características que acabam dando lugar ao peso e à vergonha que ele demonstra carregar quando o reencontramos. Finalmente, o próprio Selton Mello dá vida a um personagem que transita entre a grosseria e a gentileza, atuando também como uma espécie de conselheiro por acaso do protagonista.

Beneficiado também pelo excelente design de produção de Claudio Amaral Peixoto e pelos figurinos de Kika Lopes — que, além de recriar perfeitamente a época, também transmitem toda a atmosfera da obra —, O Filme da Minha Vida tem como um de seus principais trunfos a direção de fotografia do mestre Walter Carvalho, que faz de cada plano uma imagem belíssima que poderia perfeitamente ser transformada em quadro. Além de esteticamente impecável, o trabalho de Carvalho também captura com intensidade a proposta de Mello, imbuindo cada cena de lembrança, afeto, anseio, expectativa etc. com o cuidado cinematográfico necessário a uma produção que abraça o próprio Cinema como símbolo, através da empolgação de Tony por Rio Vermelho — que, não à toa (é claro), trata de um conflito com o qual ele consegue se identificar.

Esse carinho que Mello demonstra por seus personagens e o aproveitamento do ato de contar histórias como forma de o protagonista registrar a sua também é refletido no fato de que, por diversas vezes, os frequentes closes nos rostos dos atores os trazem simplesmente ouvindo outro personagem falando, ou reagindo à ação de um outro. Pois se há outra qualidade que o ator também já provou em sua carreira como cineasta é que ele tem um talento incrível para dar espaço e multidimensionalidade a todos os personagens, independente de seu tempo de tela.

Encantador e tocante, O Filme da Minha Vida envolve através da maneira honesta com que expõem os sentimentos de seus personagens e com o cuidado com que desenvolve seus arcos dramáticos. Ao colocar isso tudo nas mãos de um elenco talentoso e do brilhantismo de Walter Carvalho, o resultado é uma obra admirável que demonstra, mais uma vez, que Selton Mello tem tudo para percorrer um longo e memorável caminho atrás das câmeras.


“O Filme da Minha Vida” (Brasil, 2017), escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicato a partir do livro “Um Pai de Cinema”, de Antonio Skármeta, dirigido por Selton Mello, com Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Vincent Cassel, Bia Arantes, Selton Mello, Ondina Clais Castilho e Rolando Boldrin.


Trailer – O Filme da Minha Vida

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