Por definição máxima o suspense é um show de manipulação, onde o diretor é a grande estrela e o espectador está ali apenas para ser enganado. Hoje, pouco gente faz isso tão bem quanto o polonês Roman Polanski, e seu O Escritor Fantasma é uma aula do gênero que deixaria Hitchcock orgulhoso.

O filme abre com um único carro sendo abandonado em uma balsa, enquanto todos outros a sua voltam irrompem pelo pequeno píer, momentos depois ele é rebocado e o filme corta para um corpo sem vida jogado na orla de alguma praia. Aqui uma aula de cinema do Sr. Polanki, já que o que ele faz enquanto mostra o carro parado na balsa é dar a oportunidade ao espectador de criar em sua cabeça as razões daquele enorme BMW estar abandonado ali, cada um pode pensar o que quiser, pois assim que ele mostrar o corpo, todos ligarão os dois e o estrago já está feito.

Logo depois o diretor lhe conta que aquele corpo era de um escritor fantasma, aquele cara que faz às vezes de alguma pessoa importante que quer “escrever” sua biografia, nesse caso um ex-Primeiro Ministro britânico (um Pierce Brosnan que não faz nada mais do que ser inglês, mas acaba não atrapalhando) envolvido com alguns escândalos. Em um outro momento alguém se refere ao manuscrito como “uma bomba”, e ela cai no colo do “fantasma” vivido por Ewan McGregor, que tem a presença e a inocência necessária para permitir que seu personagem pareça realmente perdido diante de tudo aqui e que acaba dando de cara com uma rede de mentiras muito maior do que ele jamais imaginou.

Ainda que Polanski não seja impecável em suas composições, e por muitas vezes se pareça despreocupado com elas, o que ele faz é usá-las apenas para satisfazer seus planos (no sentido de trama), tomando um cuidado impressionante com a narrativa e com o suspense que elas criam. Como se não criasse beleza, mas uma aflição exponencial que te sufoca do começo ao fim do filme.

Esse sucesso na criação desse clima deve-se ainda ao esplêndido trabalho da montagem de Hervé de Luz e pela precisão do diretor de fotografia Pawell Edelman (ambos indicados ao Oscar pela sua parceria com Polanski em O Pianista), a dupla e o diretor parecem estar em uma sintonia tão fina que o que sobra ao espectador é ficar afundado na poltrona do cinema vendo aquela teia de impressões e mentiras se formar em frente de seus olhos.

Primeiro, Polanski coloca o personagem em uma situação tão paranoica que é fácil por em cheque se toda aquela trama está realmente rumando para aquele fim inevitável. O diretor  sabe onde pisa e o que quer mostrar, tendo certeza absoluta dos passos que vai dar e de onde vai chegar, por isso, não se perde em uma trama que poderia ser complicada, tornando-a leve e fácil, já que em pouquíssimos momentos ele deixa de mostrar o que está acontecendo de verdade, nada de armadilhas e longos diálogos explicativos. Polanski sabe que cinema é imagem e não foge disso.

Para isso funcionar o diretor vai beber no mestre do suspense ao colocar o espectador na pele do “fantasma”, salvo a primeira seqüência, todo resto do filme a câmera acompanha apenas o protagonista, permanecendo, por exemplo dentro do carro com ele enquanto está sendo seguido, no banco de trás. Fazendo todo cinema ser perseguido. Polanski te deixa viver a aflição do personagem, já que você sabe o mesmo que ele e tem as mesma incertezas.

E é ai que aquela sequencia inicial volta a sua mente, pois em pouco tempo você e o personagem parecem começar a ocupar os buracos daquela história que ligava o cadáver ao carro. Primeiro com fatos e logo depois na pele do próprio “ex-fantasma”, seguindo os passos daquela noite que culminou no começo do filme. Polanski é hábil e preciso ao fazer disso o mote de seu filme, já que durante todo ele, o que ele faz de verdade é direcionar seu “fantasma” para essa situação.

Um filme que sabe que o suspense está no detalhes, dos olhares e das ações esquisitas, das discussões silenciosas e diálogo que não parecem preocupados em serem objetivos, reflexos no retrovisor, perseguidores misteriosos, mostradores de velocidade e por fim, um bilhete que vai de mão em mão, todas anônimas, carregando aquela verdade que o “escritor fantasma” tanto procurou e, pela segunda vez, afastando seus olhos dele, deixando apenas que o espectador encare aquele momento de triunfo. Polanski ainda finge encarar seu “fantasma” uma última vez, mas na verdade parece encarar uma rua movimentada de Londres que logo será presenteada, mesmo sem nunca saber disso, com a solução desse suspense.


The Ghost Writer (Fra, Ale, GB, 2020) escrito por Robert Harris e Roman Polanski, a partir do livro “O Fantasma” de Robert Harris, dirigido por Roman Polanski, com Ewan McGregor, John Bernthal, Kin Cattrall, Pierce Brosnan, Timothy Hutton, Tom Wilkinson e Olivia Willians


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Uma resposta

  1. jairo felipe da silva

    gostei muito da critica mas gostaria de saber oq tinha escrito bnaquele bilhete q saio de mao em mao ate chegar na maos da mulher e tanbem se o escritor foi atropelao e morreo valeu fuiiiiiiiiiiiiii

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